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Madame Satã, presente! a vida fica mais viva quando a gente canta e dança

Por Bruna Gabriela Domingues

Carta para Madame Satã | Sindijor Norte PR

Quem é esse rapaz que tanto androginiza?
Que tanto me convida pra carnavalizar

(…)

A minha mãe falou que é um tipo perigoso
Que vive sorridente fazendo quá, quá, quá.[1]

estimados leitores, escrevo com o coração na mão, coisa que não me é rara, mas que me bota para refletir que se o coração está na mão, o peito fica vazio: eis minha perdição e minha festa, pois tenho tanto corpo ainda para rebuliçar, e mais espaço para ser avivado com os encantamentos do mundo.  que essas palavras-coração brilhem, vibrem, pulem, tremam, girem, rodando-mundo. que essas palavras lhes tirem para dançar, alcançando vossos corações. que essas palavras igualmente lhes cortem, rasgando qualquer tipo de indiferença ou conformidade que a vida, na maioria das vezes nos impõem. que essas palavras gozem, gritem, se espalhem, afetem, revolucionem. a vida é mais vida quando a gente canta, dança, goza, luta, revoluciona, escandaliza, carnavaliza, lantejouliza, savaraliza, madame-sataniza:

menino João tinha cabelo de nuvem esticada,

uma nuvem preta

que anunciava uma tempestade

cada vez que pisavam no seu calo.

menino João, apesar disso, sabia ser colo.

trocado por uma mula, ainda quando menino

para salvar seus mais de 15 irmãos da fome,

menino João conhece o mal do homem:

a escravidão.

fujão, um pouco mais tarde,

conhece o mal da mulher: Dona Felicidade

que o leva para o Rio de Janeiro

onde o escraviza, mais uma vez.

menino João aprende que felicidade, às vezes é só um nome.

aos 13 anos, alforriado por conta própria,

o menino João se vira e se cria como pode,

na malandragem da noite da Lapa,

lugar o qual fez seu nome.

capoeira dos bons,

flutuava com a violência necessária

de um golpe fatal,

seja na forma de abraço,

acolhimento,

canto,

ou navalhada.

menino João sabia cair.

paraibano de nascimento,

mas filho das ruas do Rio e do mundo,

menino João era dono do corpo.

quer revolução mais forte e bonita

do que assumir a própria

carne e sua potencialidade

como coisa gozante,

pulsante,

vibrante,

dançante,

purpurinante

carnavalizante,

resistente,

e viva?

menino João fazia justiça

batendo na polícia,

fazia paz partindo para guerra,

sem medo.

menino João gostava de meninos,

quer coisa mais perigosa

que uma pessoa sem medo de assumir

o seu prazer e o seu amor?

artisticamente conhecido como Madame Satã,

menino João é mais uma prova

de que a arte impulsiona a vida,

e que a vida é para quem não tem medo de si mesmo

muito menos do que os outros irão pensar.

Só que a vida bate com violência:

como sustentar um eterno “discurso de resistência”

em um país que mais mata LGBT e negros no mundo?

Madame Satã nos ensina

que fazer arte não é romantizar sofrimento,

mas encará-lo de frente,

de preferência: sorrindo,

sambando,

brilhando.

debochando.

malandragem é coisa séria,

é arma contra a hipocrisia

e a violência dos caretas.

para cada menino João que

a sociedade assassina

nasce uma flor,

quer coisa mais poderosa

que um jardim que mesmo colhida e aprisionada,

a flor nunca morre,

porque sua força e beleza reside no indestrutível

ato de resistir?

Madame Satã nos ensina que resistir

é também atacar na hora oportuna,

aguentar o rojão,

e sempre que possível, não aguentar calado!

hoje, temos flores parindo poemas,

protestos,

desfilando nas universidades

ferindo com seus espinhos,

flores na política,

nas redes sociais,

nas esquinas,

flores que se recusam a enfeitar

buquês disfarçando a morte com falsa beleza.

flores saindo do armário,

trajando a nudez forte e brilhante da liberdade.

mas ainda temos flores com medo.

Madame Satã:

preto;

pobre;

bicha;

desordeiro;

briguento;

Caranguejo;

guardião das putas e dos oprimidos;

malandro;

bandido;

sujo;

subversivo;

Mulata do Balacochê;

Jamacy;

João Francisco dos Santos;

Madame Satã, presente!

Referências

SIMAS, Antonio Luiz, Rufino luiz, HADDOCK-LOBO, Rafael. Arruaças: uma filosofia popular brasileira. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020.


[1] Trecho da música “Androginismo” de Kledir Ramil.

Bruna Gabriela Domingues. Professora de filosofia da rede estadual de ensino de Santa Catarina. Graduada em filosofia. Mestre em Ensino de Filosofia (PROF-FILO/ UNESPAR). Poetisa amadora, feminista, revolucionária e apaixonada. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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