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Educar é libertar: Uma aprendizagem com bell hooks

Por Liliam Beatris Kingerski

Ler mulheres é…

é encontrar forças e reconhecer-se nas palavras de outra mulher.

Humanizar-se, libertar-se!

Conhecer outras mulheres,

ler e escutar outras vozes,

é ressignificar o mundo!

Ler mulheres é resistir,

nesse mundo machista e autoritário,

onde mulheres são mortas, silenciadas a todo o momento.

Ler mulheres é retirar do silêncio

gritos fortes de existência.

É perceber que o meu grito,

ecoa muitas vozes.

Que minhas palavras

escrevem muitas vivências.

Escrevi este poema há algum tempo. Ele me faz lembrar que foi nesse período que comecei a perceber o quanto os silenciamentos estão presentes em nossa sociedade e o quanto eles nos afetam. Foi nesse momento que também passei a perceber o quanto somos silenciadas em diversos espaços. A escola, infelizmente, ainda é um desses lugares.

Paro e penso…os pensamentos que me atormentam me levam a refletir sobre quem sou eu…

Enquanto estudo e leio livros de mulheres, também me reconheço na voz delas. Somos múltiplas; somos mães, educadoras, escritoras… somos mulheres marcadas e silenciadas! Carregamos nas costas o peso de uma história de lutas por direitos que precisa ser valorizada e relembrada sempre, para que nunca esqueçamos que antes de nós, outras mulheres também lutaram, e devemos muito a elas por tudo o que somos e pelas escolhas que podemos fazer.

Conhecer mulheres que lutaram por nós, têm me tornado uma mulher mais forte, mais sensível ao mundo e bell hooks[1] tem sido fundamental nessa caminhada, não apenas para me definir enquanto mulher e feminista, mas, para me tornar alguém melhor; a sua voz, me inspira, sua escrita, me incentiva e me faz ver a vida sobre novos olhares.

Ser feminista é uma responsabilidade social, um dever de mulher, ocupar espaços, lutar pela igualdade entre homens e mulheres e pela liberdade de escolha das mulheres. É, acima de tudo, lutar contra a opressão e a violência…

Na obra “O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras”, bell hooks convida não apenas mulheres, mas também homens, a lutarem juntos pela igualdade e por uma sociedade mais justa. Posso dizer que foi através dessa escritora que passei a me identificar com o feminismo e com seus ideais de luta constante pela igualdade de gênero. E enquanto educadora, luto para que a escola também seja um espaço de compartilhamento de conhecimento, um espaço onde todos e todas possam se reconhecer parte dele e a partir disso colaborar para a construção de mundo melhor.

Sou uma educadora que carrega consigo a vontade de ensinar e de aprender, num movimento de mudança, no qual todos estamos modificando, na voz da autora:

“O prazer de ensinar é um ato de resistência”[2]

-Seria possível uma educação como prática de liberdade?

Lembro que sempre quis ser educadora, lembro que ainda criança, rabiscava com giz nas paredes de minha casa, que se transformavam em quadro, e eu era como algumas de minhas professoras, as quais guardo com carinho todos os ensinamentos; a profissão sempre me encantou! ao longo de minha trajetória enquanto estudante, tive ótimos professores e professoras, que amavam o que faziam, enquanto que alguns eram dominados por um sistema que só os fazia reproduzir ideias, o que Paulo Freire chamou de educação bancária. Por vezes os conteúdos eram decorados e nunca chegavam a ser conhecimento…

“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.” [3]

Essa visão de Paulo Freire me traz esperança na educação como ação transformadora, me acalenta pensar que “A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem.”[4] Enquanto aluna, sei que poderia ter sido muito melhor, enquanto educadora, as ideias de bell hooks e Freire me afirmam.

Sei que os tempos não são fáceis, mas a educação também é uma forma de resistirmos e lutar contra as opressões que tanto se manifestam em nossa sociedade. Pensar a educação enquanto prática de liberdade me faz consciente de que não podemos mudar o mundo, me faz pensar na realidade, por vezes cruel, que se faz presente na escola e que é ressaltada na sala de aula; contudo, acredito numa educação que inclui, que busca dialogar com as realidades dos alunos, enxergar as diferentes realidades, e compreender-se enquanto parte destas, numa relação de constante diálogo e compreensão do outro; penso que a aprendizagem só é possível a partir disso!

“No momento em que escolhemos amar, começamos a nos mover contra a dominação, contra a opressão. No momento em que escolhemos amar, começamos a nos mover em direção à liberdade, a agir de formas que libertam a nós e aos outros.”[5]

bell hooks nos faz refletir sobre a educação como uma prática coletiva, a qual se faz numa construção onde todos e todas são reconhecidos e importantes para o processo do aprender. Para aprender é preciso desconstruir ideias prontas e quebrar tabus; Mulheres e homens que ensinam e aprendem em busca de uma libertação comunitária.  bell hooks superou as dificuldades e constatou que a educação como prática para a liberdade se dá através de uma reflexão da teoria e da prática da educação.

Em tempos como estes, onde as opressões continuam a existir, faz-se mais que necessário a reflexão a respeito do papel de educar…Que a educação não seja apenas a reprodução de ideias, mas um espaço de ação e produção de um pensar livre.


[1] O nome “bell hooks” foi inspirado na sua bisavó materna, Bell Blair Hooks. A letra minúscula pretende dar enfoque ao conteúdo da sua escrita e não à sua pessoa;

[2] hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo Martins Fontes, 2013;

[3] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996;

[4] FREIRE, Paulo. Educação como Prática da Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1983;

[5] hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo Martins Fontes, 2013;

Liliam Beatris Kingerski é professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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Professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural.

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