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Luto, lutas e lições

Por Gisele de Souza Gonçalves

Há mais de um ano de pandemia, e com um número enorme de mortes, começamos abril. Esse número que aumenta a cada dia, muito mais que números, mostra a desvalorização da vida. São pessoas que deixaram lembranças, filhos, mães, pais, amigos, amores, trabalho, encontros e tanta coisa pela frente.  Deixaram memórias para quem ficou e uma dor que não se sabe quando ou se vai passar. Viver tem sido uma luta cercada de luto. São lutas distintas que cada um vive em suas angústias tão singulares.

Enquanto isso há ainda os mesmos de antes que defendem a economia, as aglomerações ou a morte, eu já nem sei o que defendem. Talvez só defendam um mito já se desfazendo até que encontrem outro onde depositar sua ingenuidade ou ódio. Essas mortes poderiam ter sido evitadas com vacinas, aquelas que cientistas com empenho e competência desenvolveram, mas que a incompetência de quem sabemos bem não favoreceu a compra e distribuição pelo país.

Temos vivido tempos tristes e enlutados, tempos de revolta e dúvidas. Este texto podia ser outro, podia ser sobre quem ficou e ainda tem esperança, mas estes estão chorando seus mortos e precisam sentir essa dor.

Mas sigamos acreditando que sobreviveremos a isso, teremos para sempre marcas, as lembranças dos que se foram e, sobretudo, daqueles que têm ofertado suas palavras e afetos, nos dando a possibilidade de não desistir de esperançar mesmos em dias tão tristes.

Já não posso continuar escrevendo, preciso chorar pelos meus amados que se foram sem nossa despedida e abraço, este choro tem sido o de muitos que têm perdido aqueles que amam.

Termino com versos do poema “Identidade[1]” de Mia Couto:

“Existo onde me desconheço

aguardando pelo meu passado

ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato

morro

no mundo por que luto

nasço”

Entre lutos e lutas, ficam as lições que a vida nos dá, resta saber se conseguiremos ser melhores depois delas.

Fiquem bem e cuidem-se!


[1] COUTO, Mia. Poemas escolhidos/Mia Couto. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

Gisele de Souza Gonçalves. Professora e Doutoranda pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Mãe.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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