Ir para conteúdo

Só é capaz de amar a solidão quem não demoniza a rejeição

Por Maicelma Maia Souza

Artigo: Estar sozinho ou solidão? – Yasmin Rosas Leitão | Roraima em Foco

Se você é uma pessoa sozinha e está sofrendo por isso, esta é a prova de que você não está em boa companhia, não é mesmo? Quem pode, olha-se pelo espelho e se vê além… Espelho é um caminho para o encontro com as próprias verdades. Na história real, “Espelho, espelho meu, quem é mais bonita do que eu?” é a questão que menos importa para sua verdade interior. Espelho é o objeto que nossa luz utiliza para refletir o poder de SER… de só Ser. Não é de ser mais do que ninguém. É de Ser. Quando se tem grave problema com a autoestima, a necessidade de competição nos é aflorada, e o desejo de apenas Ser transforma-se na ideia de possuir. Eu aprendi isso com o livro Mulher Negra Homem Branco, de Gislene Aparecida dos Santos. Ela reflete como a cultura ocidental utilizou os contos de fadas para desenvolver no inconsciente coletivo o desejo de possuir algo, que garanta o acesso e sucesso ao mundo da branquitude. Olhar-se no espelho, dessa forma, significa não se vê, mas querer ver o que é definido como verdade padronizada para possuir amor, sucesso, aplausos, likes… ou seja, somos educadas a (vi)ver uma mentira, porque, fora de nós, não existe humano superior.

Quem não treme diante das perguntas das crianças, tem meus parabéns, porque até minha alma se balança quando o movimento é com interrogação no final. Estamos realmente sendo observadas por elas, e, por isso, eu sempre busco responder com a minha verdade, para que elas percebam que a vida que eu mostro não é uma mentira. Certo dia…

– Titia, por que você faz tudo sozinha na sua casa?
– Porque eu moro sozinha, sou eu quem tenho que fazer…
– Ooh e você não tem pena de você não?
– Oxe, eu não, Halili. Eu amo morar sozinha. É tudo de bom! Já me acostumei.
– Quando eu crescer não quero morar sozinha não.

– Mas às vezes é a única escolha, minha tia. Eu fui trabalhar fora daqui de casa, aí eu tive que morar em outras cidades… Mas é uma delícia ser sua própria companhia.

– O que é isso?

Essa conversa aconteceu logo no começo da pandemia, eu e minha sobrinha, já preparadas para dormir, ela no meu colo, abrindo e fechando os olhos. Eu mais sonolenta do que ela. Depois da conversa ela apagou e eu fiquei acesa me perguntando: como que uma criança com 5 anos já sente “pena” por se imaginar na vida sozinha? Como ela já foi ensinada sobre rejeitar a si própria?

Com a leitura de Gislene Aparecida fui entendendo melhor. Nosso projeto de vida não é construído para que a gente aprenda a amar a nossa própria companhia. Somos criadas para buscar a outra “banda da laranja”, sem ao menos conhecer que tipo de fruta nós somos. E toda essa expectativa social gera em nós medo da solidão, medo de ficar sozinha, e de “fazer tudo sozinha”. Alimentar o medo de viver sozinha só revela uma coisa: não estamos dispostas para viver com ninguém. Porque é sintomático. Quem pode oferecer o melhor do amor a outra pessoa, se, a si mesmo, não reserva uma porção cotidiana de bem-querer, respeito e admiração? Ouvir e dizer “Eu te amo!” acaba sendo uma estratégia do ego para suprir a carência pessoal de si mesmo. E assim, o amor vai se constituindo como moeda de troca: há pessoas que vão ofertar amor pra receber sexo, e outras, que vão dar sexo para receber algum amor e companhia.

Lembro da narrativa de Carolina de Jesus, em O Diário de Bitita, quando ela relata como queria crescer logo para arranjar um namorado. Ela via as mulheres brigando por causa dos homens, puxavam os cabelos, xingavam com juras de morte… ao mesmo tempo isso a fazia desejar ter o seu, mesmo sem entender o significado que o homem tinha para a vida das mulheres. “Será que o homem é tão bom assim? Fiquei abismada. Homem é melhor que cocada, que pé de moleque? (…) Será que quando eu crescer, conseguirei um homem para mim? Quero um homem bem bonito!” Assim como no tempo de Bitita, fomos criadas como rivais, almejando desde a infância o prêmio “homem”, símbolo-troféu de realização pessoal, independe de qualquer sucesso na vida.

E fomos idealizando as relações. Antes eu achava que a relação que dava certo é a que durava muito tempo. Eu enchia a boca pra dizer “Ah meus namoros sempre são longos”, como se isso representasse o mérito de ser a mulher amada e que sabe segurar o homem. Hoje, olho para cada relação, e entendo o porquê de cada tempo… Era o período necessário para o aprendizado. Uma relação dá certo quando as pessoas envolvidas estão dispostas a serem melhores para si, para outrem e para o mundo. Dure o tempo que durar. Seja do formato que for.

Passei a morar só com 23 anos. Como uma boa canceriana, nunca tive problema em estar em casa. A solidão já me é tão amiga que, aos poucos, e com mediações terapêuticas, eu fui descobrindo que preciso de uma distância necessária para seguir apaixonada no namoro. Lembro um dia que, na minha última relação, eu pedi ao meu namorado pra me deixar sozinha, porque eu precisava arrumar a casa. Ele dizia: “Mas eu posso arrumar com você.” Eu insistia: “Não, não pode, meu neguinho. Dessa vez eu preciso arrumar sozinha.” Combinamos de nos encontrar no outro dia à noite. Foi uma limpeza intensa, ao som de mantras meditativos alternando com as músicas de Calcinha Preta e Jau… mas ao final, depois do banho, já à noite, relaxada e sentindo o meu cheiro, tomando meu chá, sentada no sofá, eu massageava meus pés… Eu estava leve, tive o dia inteiro para conversar comigo e cantar, dançar e preparar minhas refeições, eu estava ótima para meditar e entrar em sintonia com meu melhor. No outro dia, acordei tão feliz. Me sentia com mais ânimo e com saudades…

A pesquisadora e professora Ana Cláudia Pacheco, em seus estudos sobre Solidão da Mulher Negra, afirma que analisar as emoções evidencia muito sobre uma sociedade. Sentir pena de si, insegurança sobre a capacidade de amar e ser amada, medo da rejeição são características comuns a todas as pessoas, pois uma sociedade que se sustenta através de valores escravocratas vai difundir a objetificação de corpos como meio de sobrevivência, embora indignos. Por isso vamos encontrar pessoas presas em casamentos infelizes e, por vezes, em relacionamentos doentios e agressivos. A cultura do medo paralisa as pessoas, e uma tradição que acumula riquezas com a exploração da força de trabalho, precisa de pessoas que se sintam incapazes de operar mudanças na vida pessoal e coletiva. O medo da rejeição nos separa do presente e faz a gente achar que controla o futuro, porque sentir-se rejeitada é sinônimo de um futuro de abandono. Ninguém quer ser abandonada, por isso também, inconscientemente, é muito difícil deixar, sair, partir.

Promover o medo da solidão associado a um sentimento negativo sobre a rejeição é uma estratégia dessa cultura para nos afastar de nosso próprio poder. Uma pessoa consciente de seu poder não gera lucros, não busca consumos desnecessários, não “trabalha enquanto eles se divertem”, não abaixa a cabeça, mas potencializa o amor interior, que, por sua vez, se recusa a conviver com todo tipo de migalha e desafeto. Se é tempo de sair ou de deixar ir, agradeça! Ninguém fica bem no lugar onde não gosta de estar. Eu poderia responder a Halili que eu tenho mais pena de quem passa muito tempo comigo, do que de mim mesma sozinha, porque não tem pessoa mais chata do que aquela que aprendeu a se respeitar, em meio a um mundo que lucra com a depressão, mas essa é uma resposta para outro momento. Por ora, o prazer de “fazer tudo sozinha” precisa virar um instrumento poderoso para ela entender que gostar da própria companhia é o primeiro passo para estar disposta a compartilhar a vida com alguém. Celebrar a própria vida é uma tarefa revolucionária, requer, na sensível arte de contrariar as estatísticas, um brinde diário com o amor interior. Não é à toa que nas mãos de Oxum tem um abebé que ela vive a se mirar… A gente só dá o que tem.

Maicelma Maia Souza é Professora, Psicopedagoga, Pedagoga. Mestra e Doutoranda em Educação. Coordenadora do Programa de Extensão CAfUNé – Cozinha dos Afetos para Universitárias Negras. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

<span>%d</span> blogueiros gostam disto: