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Afinal, a arte serve para quê?

Por Paulo Cesar Jakimiu Sabino

Os diálogos da arte e o mercado. Parte III - Ideia de Marketing

“It’s a long way to the top if you wanna rock ‘n’ roll”[i]

Não é de hoje que uma classe “elitizada” do Brasil tende a associar sua cultura supostamente superior ao seu gosto artístico. Desse modo, justificar-se-ia sua pretensiosa capacidade de comentar assuntos técnicos de política, economia, moral, entre outros a partir de um refinado gosto artístico. Não significa que eles apreendam esses temas pela arte, mas sim que a seus elevados intelectos direcionam seu gosto a estilos artísticos melhores.

O mais curioso nesses casos é que muitos acabam ressuscitando uma dicotomia que atualmente não tem a menor razão de ser: a alta cultura x a baixa cultura. Essa dicotomia poderia remeter à indústria cultural, na qual as produções artísticas massificadas, ou para as massas, representariam um declínio até mesmo fisiológico – no caso da música, o declínio da audição. Mas dentro da estrutura capitalista e considerando a atual estratificação social é muito difícil sustentar algo assim, porque nos dias de hoje o funk carioca toca no Leblon e nas favelas. Em outras palavras, só há o popular, só há as massas – e nada mais. Inclusive, movimentos artísticos como a “Pop Art” já buscaram romper com a ideia de uma arte “nobre” e uma arte “vulgar”.

Assumir que seu gosto é mais refinado do que os demais a partir de sua condição intelectual ou financeira é de um elitismo, eu diria, até perigoso, devido ao tom romântico da discussão que no século XX suscitou em desastres apoiados no preconceito entre raças. Mesmo porque entre as supostas elites é muito difícil que alguém ali consiga emitir um juízo estético-técnico sobre alguma obra, seja sobre música, artes plásticas, ou qualquer outra. Na maioria das vezes são juízos de gosto, e não estéticos, apoiados em uma moralização enfadonha. Tomemos a música como exemplo, espaço no qual o funk é entendido como gênero de desmoralização e apelação sexual, cujo o exemplo é o mais claro à realidade contemporânea do brasileiro; no passado, esses mesmos juízos foram aplicados a diferentes gêneros hoje exaltados: o jazz, o rock o rap e até mesmo a MPB[ii]. Raramente pela qualidade técnica, mas quase sempre pelo apelo imoral de suas canções.

Talvez houvesse quem reivindicasse que seu gosto não é desse tipo, que os exemplos citados acima são gêneros musicais do populacho. Então eu lhe pergunto: quem ouve Beethoven atualmente? Mas não apenas as árias ou pequenos e breves trechos disponíveis no Youtube. Eu me refiro ao processo completo, toda a obra. Quem é que chega em casa, liga seu aparelho de som, celular ou mesmo em notebooks, senta-se em um confortável sofá e reproduz Carmen de Bizet, ouvindo todos os quatro atos que chegam a ter mais de três horas de duração? Quem foi a uma ópera recentemente (ok, antes da pandemia)? Quem “ouviu” 4’33 de John Cage? Um tipo de música muito mais preocupada em fazer questionamentos do que necessariamente fornecer um tipo de “gozo” estético. Mesmo se ouvisse, isso ainda não definiria seu caráter como superior – vide Wagner.

Mas isso é interessante. De fato, há quem bata palmas de alegria, fica em pé ao ouvir tais obras conceituais, nas quais a ideia prevalece sobre a música. É um tipo de arte que quer fazer surgir conceitos. Então, se eu ouço e sou capaz de “entender” tal obra, eu sou mais elevado. A questão é: será mesmo que é para isso que serve a arte? Será mesmo que é disso que nosso gosto contemporâneo precisa?

Quando vemos o artista “excêntrico” no palco, que pretende “fugir dos parâmetros da indústria cultural”, será que sua obra é estranha à nossa sensibilidade, ou será que não estamos apenas incomodados com o histrionismo daquele artista? Sua mendacidade forçada que tenta, através da filosofia e da erudição, tentar parecer mais elevado do que realmente é. Afinal, a arte serve à vida, ou ao artista? Em outras palavras, serve para estimular a vida, ou o objetivo principal é apenas um: tornar grande o artista aos olhos do público? Há quem seja grande, porque conquistou sua grandeza, e há quem apenas deseja ser, ou parecer – e eu não tenho paciência com quem quer parecer Hermeto Pascoal.

Me parece que quem conquistou a grandeza não o fez tentando iludir o público, mas porque fornece seu íntimo, a sua necessidade é compartilhada com a do público. A arte, segundo diz Nietzsche, é um estimulante para a vida[iii]. Talvez seja desse estímulo que a humanidade precise. Mais elevado, mais erudito, mais “refinado” é, em geral, preciosismo histérico. Se arte alegra, faz nascer o desejo de querer viver, então talvez seja isso que esteja faltando aos cidadãos do século XXI. É preciso compreender que nosso século possui especificidades, sofremos de doenças psíquicas antes inimagináveis, as diferenças sociais são gritantes e prevalecem dentro de um sistema econômico específico. Em outras palavras, é bem provável que o tempo seja o maior juiz do artista e da arte, ao mesmo tempo que seu juízo é variável. Em palavras mais simples: Ninguém há de negar que Bizet é grandioso, que Joplin foi fantástica, mas em um mundo diferente, em uma cultura diferente, cuja situação sócio-hisótica é específica, pode ser que o MC do baile funk seja mais grandioso na favela do que Bach. Não porque a favela é inferior ou superior, mas porque é diferente devido suas circunstâncias. Se a arte estimula a vida, jamais pode estimular de maneira semelhantes indivíduos diferentes. É uma questão de alteridade que a mente egoísta e elitista jamais compreenderia.

Essa tentativa de “parecer grande” para ser “ileso” à indústria cultura é bobagem. Não há escapatória da indústria cultural. Recorrendo a um pensamento que ouvi certa vez de um professor lukacsiano durante minha agradável estadia em Ouro Preto: a indústria cultural permite brechas. Ser grande artisticamente no contexto sócio-econômico atual talvez seja isso: se a indústria cultural não deixa ninguém escapar, é preciso encontrar suas brechas e através delas fornecer a potência das forças vitais. Há quem encontre no jazz, há quem encontro no pop. Há quem encontre no cinema do expressionismo alemão, há quem encontre em Hollywood.

“Ah, mas essa obra aqui é muito melhor”. Você sabe ler uma partitura? Analisar a fotografia do filme? Quem sabe compreender os diferentes usos do narrador na literatura? Se não, então, meu caro, cale-se. Se sim, ninguém liga.


[i] Trecho da música “It’s a long way to the top (if you wanna rock ‘n’ roll)” da banda AC/DC, composição de Angus e Malcolm Young e Bon Scott. In: T.N.T. Intérprete: AC/DC Sydney: Albert Productions, 1975, 1 Disco, Faixa 01 (5min15seg).

[ii] Sobre isso, recomendo o artigo “A MPB sob suspeita” de Marcos Napolitano.

[iii] Esse pensamento é expressado por Nietzsche no aforismo §222 de Humano, demasiado humano I.

Paulo Cesar Jakimiu Sabino, Mestre em Estética e Filosofia da Arte pela UFOP e Doutorando em Filosofia na UFPR. Entusiasta de literatura russa. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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