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Nísia Floresta: Entre o grito e o nó na garganta

Por Liliam Beatris Kingerski

“Se cada homem fosse obrigado a declarar o que sente a respeito de nosso sexo, encontraríamos todos de acordo em dizer que nós nascemos para seu uso, reger uma casa, servir, obedecer e aprazer aos nossos amos, isto é, a eles homens.“ [1]

Hoje escrevo levada pela dor e pela angústia de existir; meu espírito filosófico não me abandona e simplesmente, não consigo ignorar a realidade que estamos vivendo nos últimos tempos…são milhares de mortes todos os dias devido à Pandemia Covid-19 e a vida parece insistir em seguir seu fluxo de normalidade; há quem diga que vivemos um “novo normal”, que para mim, não tem nada de normal; enquanto isso o nosso governante fala em alto e bom tom, que os brasileiros estão de mimimi…esse termo usado por ele, pra mim pode ser traduzido nas lágrimas de milhares de brasileiros que perdem todos os dias amigos e parentes…o negacionismo é grande vilão, é contra ele que as batalhas do dia a dia acontecem…mas insisto em perguntar: -onde está a nossa humanidade? até quando teremos que apenas escutar sem reivindicar?

As lágrimas escorrem pelo rosto, a falta de esperança e os pés fincados na realidade me fazem perder a fé no ser humano…o nó na garganta define o que sinto…uma vontade imensa de gritar…

Somos silenciados pela dor…e o grito se faz presente entre as palavras que escrevo, ele ganha vida em cada mulher que leio, em cada mulher que faz parte de minha escrita e que vem reforçar a esperança numa luta incessante.

Sigo meu caminho buscando aprender mais com essas mulheres, elas são a inspiração de meus escritos!

Apesar de tudo, somos obrigados a voltar para a rotina…

Na lembrança, a aula que seguia normalmente, e eu, a aluna, senti uma vontade imensa de falar (pensei “será que falo?!”).

Talvez as palavras não tenham expressado tudo o que sentia naquele momento, e sem retorno algum, o diálogo segue…

O silêncio mostra sua face mais cruel, a negação…neste momento me senti como se não existisse, totalmente ignorada e sem importância.

Me vem à mente a frase da filósofa Djamila Ribeiro: “Falar é existir![2]

Foi assim que me senti: inexistente naquele espaço, era como se eu não estivesse ali!

Em uma aula de Filosofia surgiu o tema “silenciamento”, e questionei os estudantes (agora como educadora), a respeito:

-O silenciamento é uma opressão? e a opressão é violência?

Não sei ao certo se por coincidência ou não, pois o tema muito me atrai, estava com a obra da historiadora Michelle Perrot em mãos, o livro Minha história das Mulheres, que trata das mulheres na história, sobre o quanto suas presenças foram ocultadas, relegadas ao silenciamento e a invisibilidade.

“Em muitas sociedades, a invisibilidade e o silêncio das mulheres fazem parte da ordem das coisas.”[3]

Acredito que por aqui também é assim, nossas escolas também colaboram com esses silenciamentos; mulheres são silenciadas a todo o momento, seja quando não são ouvidas, ou quando sentimos que a escola simplesmente não trata de mulheres; e assim, elas não se sentem representadas nesse espaço, que deveria ser espaço de formação e acolhimento, não de exclusão.

Os anos passam, enquanto o que conhecemos nos espaços destinados à educação são conhecimentos perpassados pelas ideias masculinas…a Filosofia ainda é vista como estritamente europeia, branca e feita por homens.

Penso: estudar filósofas é fazer o que é próprio da Filosofia: (des)construir!

-Quantas vezes falamos e não somos ouvidas? Quantas vezes somos silenciadas?

O nó na garganta parecia tomar conta do ambiente naquele momento, e o silêncio que se instaurou parecia explicar muito mais.

Diante desse silenciamento que perpassa os mais diversos espaços, Olympe de Gouges, por exemplo, criou panfletos para expressar sua indignação com a sociedade da época; e por isso foi guilhotinada.

Nísia Floresta, filósofa brasileira do século XIX, foi uma das primeiras mulheres a publicar textos em jornais, foram encontradas publicações dela no jornal  O Espelho Das Brasileiras desde 1830, jornal da cidade de Recife, tendo ainda publicado poesias, contos, novelas e ensaios em O Diário do Rio de Janeiro, O Liberal e O Brasil Ilustrado.

Nísia Floresta, como era conhecida, criou o primeiro colégio apenas para meninas, visto que almejava para as mulheres uma educação que não apenas para serem ótimas esposas e donas de casa. Nísia sentiu que as mulheres precisavam ser reconhecidas nesse espaço e para além dele, precisavam se sentir inteligentes, pois são tão capazes quanto os homens!

Ela mesma escreveu para suas alunas: “Aconselha-as a não se deixarem vencer pela lisonja e a se escudarem na modéstia.”[4] sendo que, “são felizes aquelas alunas que, apoiadas pelos pais, recebem os meios necessários para o cultivo do espírito e lições para aperfeiçoá-lo, podendo fazer bom uso da instrução de que tanto precisa o sexo feminino.”[5]

Queria que minhas alunas compreendessem o quanto é importante buscarem ser independentes.

Escritora da resistência, militante, feminista, educadora; é mais uma mulher que não encontramos nas livrarias.

Neste período, é sempre bom enfatizar, que os jornais femininos eram muitos e ressaltaram as virtudes ‘naturais’ da mulher, e o olhar sobre a maternidade ocupava

um espaço muito forte nas vidas femininas, que por vezes acabava por ganhar mais destaque, não sobrava espaço para mais nada; enquanto que os homens, àqueles que mais se sentiam sempre no direito de escreverem sobre as mulheres, tentavam garantir que as mulheres permanecessem restritas aos espaços domésticos.

Seu livro “Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens”, publicado em 1833, considerado uma tradução da obra reivindicação dos direitos da mulher de Mary Wollstonecraft, se mostra como a primeira obra brasileira a tratar da busca dos direitos das mulheres, para além dos espaços domésticos e da maternidade. Seus anseios traduzem a liberdade da mulher. 

Mulheres como Nísia Floresta me fazem pensar no quanto fomos silenciadas em diversos ambientes, no quanto não nos sentimos parte dos espaços que ocupamos…

O nó na garganta permanece…mas Nísia Floresta, a forte inspiração deste texto, ainda grita para todas nós em seus escritos:

-Coragem!


[1] FLORESTA, N. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. São Paulo: Editora Cortez, 1989a.

[2] RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala?. Belo Horizonte: Letramento, 2017. 112 p.p. (Feminismos Plurais),

[3] PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. 2ª ed São Paulo: Contexto, 2012.

[4] Margutti, Paulo. Nísia Floresta: uma brasileira desconhecida – feminismo, positivismo e outras tendências. Editora Fi, 2019.

[5] Margutti, Paulo. Nísia Floresta: uma brasileira desconhecida – feminismo, positivismo e outras tendências. Editora Fi, 2019.

Liliam Beatris Kingerski é professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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Professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural.

2 comentários em “Nísia Floresta: Entre o grito e o nó na garganta Deixe um comentário

  1. Com o devido e natural respeito que merece a autora do artigo em tela, sinto-me no direito e, mais que isso, na obrigação de interferir mediante uma singela análise da minha lavra. Peço vênia para tal interlocução.
    O desabafo que representa o teor do seu artigo não é em absoluto estranho; ele representa “uma voz feminina tangível” (a voz natural, de Kristin Linklater). Voz que, infelizmente, a humanidade historicamente tenta calar. Parabéns pelo sugestivo arrazoado.

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    • Olá Juan…grata pela leitura de meu texto!!!fico feliz que penses assim de meu desabafo a respeito de algo intimamente relacionado às minhas angustias existenciais, e acredito que os gritos estão sendo escutados…obrigada por escutá-lo…assim continuamos lutando contra esses silênciamento!!! Muito obrigada pelas palavras!

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