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O que foi que nós aprendemos?

Por Naiara Krachenski

Antes de ler, peço que olhe bem para a imagem acima: esta gravura se chama Voltando do Trabalho e foi feita em 1942, por Mieczyslaw Koscielniak enquanto ele era um prisioneiro em Auschwitz[1]. Vemos aqui uma cena recorrente no cotidiano do campo de prisioneiros que carregam um companheiro já morto (seja pela fadiga, péssimas condições sanitárias, doenças ou maus tratos diários) feita com traços rápidos e ligeiros que testemunham a pressa de quem faz algo às escondidas. Sabemos que este desenho sobreviveu porque saiu do campo de forma ilegal, sem o conhecimento da SS, sob um monte de roupas sujas levadas por outros prisioneiros para fora de seus portões e entregue a companheiros da resistência.

Peço que olhe bem para esta gravura e se lembre: ela representa a volta de um dia de trabalho normal na anormalidade de um campo de concentração nazista.

***

– “Os alemães vão entender o que eu vou falar: Arbeit macht frei (O trabalho liberta)! Não foi o que nós aprendemos”?[2]

Esta frase foi proferida em um vídeo nas redes sociais de Dóris Denise Neumann, advogada, ex-candidata a prefeita de Nova Petrópolis (RS) pelo Patriota e explícita apoiadora de Bolsonaro. Confesso que não sei em que contexto essa frase poderia ser bem aceita, mas, aqui, ela foi pronunciada em uma manifestação contra o lockdown imposto no estado devido ao agravamento dos casos de covid-19 em todo o Brasil. À parte a falta de empatia em relação às mais de 2 mil mortes diárias no país, o que em si já é sintomático de uma percepção desprezível da realidade, a argumentação contra o fechamento do comércio teve respaldo em uma realidade histórica conhecida pela sua brutalidade, frieza e barbárie.

Como historiadora, muitas coisas me chocam na fala de Dóris, mas uma em especial dilacera meu coração de professora: do contexto alemão nazista ela aprendeu que o trabalho liberta. Podia ter aprendido que crises econômicas extremas somadas a ressentimentos agudos podem fazer surgir um governo fascista ou ainda que a instrumentalização do racismo como política de estado pode levar a inomináveis crimes contra a humanidade. Mas não, Dóris aprendeu que o trabalho liberta. Devo relembrar meu caro leitor e minha cara leitora de que o aprendizado de Dóris é filho de Auschwitz, o maior campo de concentração e de extermínio da Europa sob jugo nazista. Arbeit macht frei era a frase de “boas vindas” aos prisioneiros do campo e servia para “ensinar” as vítimas do regime que só poderiam expurgar seus “crimes” pelo trabalho (forçado, naturalmente).

A posição de Dóris, lamentavelmente, não transmite uma posição estritamente pessoal – sabemos como diversos grupos de pessoas hoje se apropriam de passados traumáticos para minimizar sofrimentos ou para construir uma narrativa que volta a glorificar passados criminosos. Dóris representa aqui – no nosso atual contexto de má gestão da pandemia e negacionismo científico – uma parte da sociedade brasileira que se auto inflige autoridade suficiente para contestar medidas sanitárias básicas. É espantoso, no entanto, seu argumento para defender seu direito de trabalhar. Não é porque ela precisa sustentar sua família ou dar continuidade a processos que possam fazer a diferença para seus clientes, mas é porque o trabalho liberta. Seja hoje, seja em Auschwitz.

Se Dóris e “os alemães” aprenderam que o trabalho liberta, o que nós aprendemos com Dóris? Aprendemos que a História não pode ser feita somente de fatos desencarnados que passam em uma linha do tempo sem sentido e sem razão. Vejam, ela sabe muito bem a que contexto se refere e aos fatos que o constituem – não é pouca coisa lembrar da frase de entrada de Auschwitz! Mas os sabe para quê? Que tipo de narrativa histórica apreendida por ela não foi capaz de a fazer identificar em Auschwitz (!) um reduto de crueldade e barbárie dos mais diversos tipos? Que história foi essa que a ensinou a valorar um ditame nazista que estraçalhou as vidas de milhares de indivíduos?

O que aprendemos com Dóris, queridos professores?


[1] http://lekcja.auschwitz.org/en_18_sztuka/ – acesso em 11/03/21.

[2] https://www.diariodocentrodomundo.com.br/video-bolsonarista-cita-lema-nazista-para-defender-a-liberdade-contra-o-lockdown/ – acesso em 11/03/21.

Naiara Krachenski, Doutora em História. Professora do colegiado de História da Universidade Estadual do Paraná (campus União da Vitória). Administradora do canal Debate-40 no youtube. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

Um comentário em “O que foi que nós aprendemos? Deixe um comentário

  1. Parabéns Naiara Krachenski pela excelência e oportunismo do tema.
    Parabéns ao site por temas interessantes e atuais. – Álvaro

    Curtir

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