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Entre mortos e feridos, perderam-se todos

Por Bruna Gabriela Domingues

Essa pandemia mata duas vezes': a dor das famílias proibidas de enterrar  seus mortos na Itália | Mundo | G1

Traz um sorriso no rosto e uma arma na saia

O seu nome é, é Maria Navalha[1]

 estimados leitores,

pode um poeta se dar ao luxo de ser alheio à realidade em que vive?! não seria um insulto a beleza das flores enfeitar versos em seu nome enquanto queimam jardins?! da minha posição de mulher, feminista, poetisa, professora de filosofia, brasileira, revoltada e imperfeita, escrevo a(r)mada até os dentes. minha vida está em carne viva: enquanto escrevo, escorre sangue pelas gengivas, tenho capturado o instante à unha, entre o fogo e a tempestade. gosto de escrever com o ritmo de quem acalanta, mas se for preciso eu firo.

de todos os hábitos o pior:

a morte!

engolimos números junto com o pão de cada dia.

você não viu sangue, mas ele esteve e está aí

nas mãos daqueles que priorizaram lucro à vida

nas mãos de governantes imbecis, desumanos e irresponsáveis.

naquele copo de cerveja, em um barzinho qualquer,

mas com todos os protocolos de segurança seguidos!

nas festinhas de fim de ano,

enquanto você acendia incenso na cachu com seus amigos.

em cada quilômetro da sua viagem na praia

para “esfriar a cabeça”.

nas fotos do rolê que você não postou.

acontece que errar é humano,

acontece que a morte não perdoa nossas falhas

a história não perdoa os isentos.

acontece que o trabalhador precisa colocar alimento no prato,

acontece que de algum modo, precisávamos e ainda precisamos fechar as portas de nossas mentes e corações para que o desespero não entre.

acontece que um país não melhora sendo regido por covardes

O que fazer quando tudo está ruindo diante de nossos olhos, mas nossas mãos permanecem atadas?

acontece que a mesma esperança que às vezes nos corrói, também nos alimenta.

acontece que a dor nem sempre é a melhor professora

acontece que o riso pode salvar uma vida

acontece que o deboche às vezes é uma boa (ou a mais saudável) saída

acontece que sonho não enche o prato, mas amargura também não.

acontece que viver nunca caberá em um poema

acontece que o amor ainda não desistiu de nós

acontece que nós somos donos das nossas ações, por isso somos responsáveis pelas consequências.

entre mortos e feridos, perderam-se todos.

acontece que a luta não para.

a poesia também não.


[1] Ponto de Maria Navalha.

Bruna Gabriela Domingues. Professora de filosofia da rede estadual de ensino de Santa Catarina. Graduada em filosofia. Mestre em Ensino de Filosofia (PROF-FILO/ UNESPAR). Poetisa amadora, feminista, revolucionária e apaixonada. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

Um comentário em “Entre mortos e feridos, perderam-se todos Deixe um comentário

  1. Além de uma excepcional professora, também poetisa. Que orgulho dessa minha amiga e colega de trabalho. Parabéns, Bruna! E obrigada por dedicar e compartilhar, seus sentimentos e reflexões a todos nós…

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