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Comida, trabalho, pensamentos e emoções

Por Gisele de Souza Gonçalves

Nutricionista dá dicas sobre como se alimentar bem na pandemia - Jornal O  Globo

Cozinhar é o mais privado e arriscado acto. No alimento se coloca ternura ou ódio.

Na panela se verte tempero ou veneno.

Do conto “A avó, a cidade e o semáforo”, de Mia Couto

Quase um ano de quarentena. Para quem a segue, é um misto de saudade, compromisso, respeito e medo, talvez ainda uma certa revolta em alguns momentos. Poder estar de quarentena é um privilégio que muitos dos que o tem não valorizam. São mais de 250.000 motivos para continuar.

Entre as atividades diárias deste período pandêmico, em casa, a que mais me faz pensar é cozinhar. Cada vez que preparo a comida me vêm pensamentos e sentimentos: o sabor das refeições de quem está perto, mas distante; visitas não mais recebidas para as quais eu cozinhava; o conto do Mia Couto (2009, p. 126), “A cidade, a avó e o semáforo”, em que a personagem diz “Cozinhar não é serviço, meu neto […]. Cozinhar é um modo de amar os outros”. É uma linda fala, no conto, e quando se prepara algo a quem se ama não deixa de ser um ato de amor. Mas, partindo dela, eu penso em contradições, em cozinhar como serviço, penso em quanto de trabalho invisível e sobrecarga há neste ato. Sobrecarga e exploração do trabalho de quem plantou o alimento até de quem o pôs na mesa. Cozinhar é dialético.

Ainda há mesas em que apenas as mulheres são responsáveis por servir a refeição feita por elas e retirar os pratos sujos. E pergunto: por quê? Por que não dizemos tanto sobre isso? Por que ainda não falamos sobre isso entre todos e todas? Por que quando falamos disso causamos tanta polêmica? Muitas mulheres se calam, talvez porque não percebam que a vida possa ser diferente ou porque além de olhares abusivos podem receber agressões muito mais graves com seus possíveis questionamentos. Como mulher, percebo o quanto de trabalho (não reconhecido, não remunerado, não visto) temos feito, especialmente, na quarentena. Nós, seres humanos, precisamos falar desse trabalho não dito que existe dentro de nossas casas, se você não percebe este trabalho, talvez não o tenha feito ainda em sua casa. Mas pense sobre ele. Quem faz o trabalho que você não vê? E se você o faz, é ótimo saber que não estamos sós. Se não o faz, pense sobre o porquê de outra pessoa fazê-lo. Isso precisa ser pensando e dialogado. Penso também sobre aquelas e aqueles que se quer vão pensar sobre tudo isso, pensam apenas se terão ou não comida, não por incapacidade de pensar, mas, sobretudo, pelas prioridades da sobrevivência.

Para a historiadora Rachel Soihet (2011, p.268), o desenvolvimento da história das mulheres é tema de várias pesquisas: “Não mais focalizam-se as mulheres no exercício do trabalho, da política, no terreno da educação, ou dos direitos civis”, mas também são introduzidos “novos temas na análise, como a família, a maternidade, os gestos, os sentimentos, a sexualidade e o corpo, entre outros”. E, atualmente, temos tido muita produção sobre mulheres na pandemia, sobrecarga nas atividades domésticas e na maternidade.

Cozinhamos em casa como ato coletivo e cooperado. Mas aprendemos isso há pouco tempo e juntos. Cozinhar nos ensinou muito. As cores da comida ao se mesclar durante o cozimento me mostram o quanto é linda a diversidade. O cheiro me lembra o medo de perder, por um tempo, este sentido. Quando sei que alguém está contaminado, ofereço refeições (é um jeito de estar perto), e me dói quando dizem “estou sem paladar”. A pandemia fez de nós pessoas mais sensíveis ou mais indiferentes? Sentir o sabor, distinguir cheiros, solidarizar-se com o trabalho do outro, reconhecer seu valor vai além de estar, é preciso ser.  

À medida que a comida vai ganhando cor, cheiro e, consequentemente, sabor, eu penso em todo o processo pelo qual essa comida passou para estar aqui. E posso afirmar: orgânicos têm, além de outras vantagens, muito mais sabor. Eu gosto de conhecer quem produziu aquela comida que nos fortalece. Compramos em feiras, de camponesas e camponeses, da agricultura orgânica e familiar. Ainda existe aquele comentário: “Mas orgânicos são muito mais caros!”, será? Eu me pergunto se as pessoas também questionam sobre o preço do combustível ou só quando são programadas para fazê-lo. Lamento muito por isso e convido a pesquisarmos mais sobre alimentos e sua produção.

O lavar, cortar, selecionar, preparar, saborear ganham outros sentidos agora. É sim um privilégio exercer esses atos e também é trabalho, geralmente, mas não exclusivamente, das mulheres que, como eu, aprenderam cedo a cozinhar. Dá um certo contentamento ver os pimentões, a cebola, o alho poró dançando no óleo. Isso me dá alegria porque durante muito tempo eu não soube o sabor de pimentões coloridos e de alho poró. Quando eu era operadora de caixa, em uma rede de mercados da nossa região, eu apenas sabia que esses alimentos eram mais caros (e nem eram orgânicos). Eu sempre fico pensando nas crianças que desconhecem tantos alimentos e nas mães que pensam no que cozinhar para os filhos no outro dia. E quem aparece nos meus pensamentos outra vez? Conceição Evaristo com seus contos e palavras cheias de uma escrevivência tão dela:

Lembro-me de que muitas vezes, quando a mãe cozinhava, da panela subia cheiro algum. Era como se cozinhasse, ali, apenas o nosso desesperado desejo de alimento. As labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio do nosso estômago, ignorando nossas bocas infantis em que as línguas brincavam a salivar sonho de comida (EVARISTO, 2016, p.16).

Que expressividade e que tristeza nessas palavras do conto “Olhos d’água”. A lista de pensamentos vai longe, surgem outras palavras e pensamentos: agrotóxicos, orgânicos, latifúndio, camponeses, soberania alimentar, commodities, agronegócio, saúde, desigualdade.

E está tudo pronto entre cores e sabores. A pandemia segue e, entre tantas memórias, eu tenho guardado notícias, desenhos, escritos, sabores, imagens e sentimentos. Guardo esses dias que se passam e caminham para um ano ou mais. Espero que a conversa sobre isso se expanda, para além da pandemia.

Referências

COUTO, Mia. O fio das missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

EVARISTO, Conceição. Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2016.

SOIHET. R. História das mulheres. In CARDOSO, Ciro Flamarion e VAINFAS, Ronaldo (org.). Domínios da História. 2ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.

Gisele de Souza Gonçalves. Professora e Doutoranda pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Mãe.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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