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A voz do espelho nos meus olhos: poesia é uma miragem?

Por Karine Bueno Costa

Concurso de poesia busca difundir arte e afeto em meio à pandemia – Jornal  da USP

“Se eu tivesse teu olhar, poderia ver a luz”- Banda Blindagem

“Minha miragem, tô deserto de amor.

 Meu oásis, sou beduíno sofredor” – Banda Blindagem

Ao som de Blindagem, uma reflexão sobre o fazer poético.

Durante a preparação de  uma aula sobre poesia, deparo-me com a seguinte indagação, no material apostilado: “A poesia é uma miragem?”. A priori, pensando de modo didático, o termo  miragem, etimologicamente, vem do francês, se mirer, que significa mirar-se, olhar-se no espelho. Faz total sentido, então,  pergunta esclarecida. Mas, me vi em um momento de introspecção, porque a poesia, para mim, é um encontro comigo mesma, um fato narcisista,  um olhar de Narciso para si mesmo no lago, um enxergar-se que causa uma transformação profunda no meu ser. Portanto,  ainda não resolvia totalmente o dilema.  A  posteriori,  porque miragem também é uma ilusão, um suplício imagético que deseja a realidade, em estado de martírio, um oásis no deserto, ou que a imita. Não  seria assim também o fazer poético, a partir de ilusões e mimesis? Ademais, ainda, pensando racionalmente, pode ser um fenômeno óptico de dias ensolarados, em cenários desérticos ou em alto mar, nesse sentido, na Física, a miragem é real. Portanto, um paradoxo, mas com algo em comum,  em todas as acepções, tudo depende do olhar. Na poesia, da miragem ocular do poeta e do leitor, ilusão ou realidade?

No fazer poético, o olhar do poeta apresenta um mundo com  olhos poéticos, ficcionais, com outros olhos, diz o jargão social, por isso a ideia de que a poesia é uma miragem faz total sentido. Afinal, como poetizou Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”. É, a princípio, uma ilusão, mas que passa a ser real dependendo do ponto de vista, comprovado, cientificamente, pela teoria da relatividade, porque a verdade é relativa, ou seja, o que vemos e lemos  também. Nessa perspectiva,  o que realmente dá sentido é o olhar do leitor, porque é para este que o poeta escreve: “É para você que escrevo, hipócrita. Para você – sou eu que te seguro os ombros e grito verdades nos ouvidos, no último momento. Me jogo aos teus pés inteiramente grata”, conclama Ana Cristina Cesar, em um intertexto com Baudelaire, em o poema intitulado “Ao leitor”: “É o Tédio! – O olhar esquivo à mínima emoção/ Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado./ Tu conheces, leitor, o monstro delicado/ – Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!”. 

Nas divagações, percebo que a poesia é além de arte, um momento filosófico e intimista, porque senão desperta no leitor, senão ganha vida com este olhar, não passa de um amontoado de areia, de palavras ao vento, sem sentido, mas, se com olhar astuto, de filósofo questionador, de sonho e esperança, de medo e tristeza, vê nas palavras, a visão do artista e sente o que sentia quem escreveu a poesia, e mesmo que seja em fingimento,  passa a ser real, ocorre uma metamorfose,  um despertar catártico. Nesse viés, a poesia torna-se, portanto,  uma miragem, uma esperança num deserto de horror. Tenho, para mim, que o mundo moderno nunca precisou tanto de poesia como agora, porque faz pensar, sentir e, principalmente, é uma válvula de escape da realidade desértica e solitária, em tempos pandêmicos e de  isolamento.

Respondendo ao questionamento inicial, a poesia é de fato  uma miragem, que nos tira do prumo e que nos faz velejar mar adentro, com coragem ao desconhecido: “Valeu a pena? Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena./ Quem quer passar além do Bojador/ Tem que passar além da dor./ Deus ao mar o perigo,/  e o abismo deu,/ Mas nele é que espelhou o céu” (Fernando Pessoa).  Em suma, olhar para a folha do poema é mergulhar no encantamento de nossa imagem, do nosso olhar, do olhar inicial de Narciso e ver além do que os olhos veem. Como numa floresta de ecos e espelhos: “te livrando/ castillos de alusiones/ forest of mirrors/ anjo/ que extermina/ a dor/”. Guiados pelo fio de Ariadne,  em um labirinto aquático, mergulhamos profundamente no nosso eu, guiados pela voz do espelho em  nossos olhos, parafraseando Ana C. , lemos e nos vemos, na voz do poeta, na imagem refletida no espelho/página, como aponta Leminski, em Metaformose:   “Somos o mesmo! Não me iludo mais com a minha imagem. É por mim que ardo de paixão e sinto e ateio ao mesmo tempo esse fogo (LEMINSKI, 1994, p. 61). Poesia é isso, a minha miragem, na imagem construída pelo poeta, um olhar de Narciso, ígneo, uma transformação de metamorfose, “metaformose”, assim, entender  e ler poesia é perseguir vertigens, na voz espelhada,  desabrochar em flor: Narciso.

Professora de produção textual no Colégio São José-PU. Graduada em Letras: Português/Espanhol. Pós-graduada em Língua Portuguesa e Literatura. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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Karine Bueno Costa-
Professora de produção textual no Colégio São José-PU. Graduada em Letras: Português/Espanhol. Pós-graduação em Língua Portuguesa e Literatura.
Karine.costa@hotmail.com
42- 999591893

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