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O que você faz com aquilo que fizeram com você?

Por Illyana Magalhães

Há mais de duas semanas revisei a biografia de um personagem que agora não lembro o nome. Ultimamente – principalmente durante esse período de extremo lockdown na Inglaterra – tenho procurado me informar acerca de praticamente tudo e eis o motivo pelo qual me peguei lendo uma biografia em plena madrugada no inverno Londrino. Fiquei fascinada com o fato de o personagem lembrar de praticamente toda a sua infância. Ele se lembra de praticamente tudo o que lhe aconteceu nos primeiros anos de vida.

Eu não sou assim. O pouco que consigo lembrar é apagado por borrões (in)voluntários. Tive uma infância bizarra e imprevisível, criada por uma mãe e um padrasto que cometiam as piores atrocidades possíveis. Ao que me parece, ambos não tinham condições emocionais de lidarem comigo, principalmente por que eu sou fruto de um relacionamento esporádico de um período na qual minha mãe sequer gosta de lembrar. Na época eu tinha cinco ou seis anos. Os únicos e poucos eventos que consigo me lembrar envolvem agressões, orfanatos, fugas, hospitais e depoimentos. Muitos depoimentos. Talvez por isso os borrões sejam um “plus” cerebral para que eu não me recorde de eventos piores.

O personagem principal consegue detalhar toda sua infância com uma riqueza de detalhes incrível, em um panorama quase ininterrupto. A minha é um espaço nebuloso, onde as lembranças são vagas e brotam como árvores solitárias. O tipo de memória que você agradece por não conseguir evocar.

O texto que segue não tem a intenção alguma de servir como auto-ajuda. Quem me conhece sabe que não sou adepta a discursos motivacionais e que a minha historia é apenas mais uma dentre milhares de outras. É, na verdade, uma espécie de confissão com um misto de liberdade, minha tentativa de mostrar como as pessoas conseguem se reerguer de qualquer desgraça independente das circunstancias. Eu não sou mais especial do que ninguém e acredito que você também não seja.

Mesmo diante de todo esse espaço em branco na minha memória com apenas algumas faíscas de alegria, nunca deixei de sentir fé. Foi essa mesma fé que me impulsionou a pedir ajuda e ser resgatada. Ultimamente tenho notado como as pessoas perdem a esperança por dias melhores por tão pouco. Tornam-se queixosas, deprimidas e – não tão raras às vezes – pensam em retirar a própria vida. Não estou falando do estado deprimente fruto de desordens cerebrais químicas, obviamente. Estou falando daquele estado em que o próprio sujeito se coloca voluntariamente e não quer mais sair. O sujeito se entorpece de suas próprias mazelas.

Eu mesma já estive nesse estado, mas a minha infância foi tão deprimente que eu me recusava a perder a esperança por coisas tão banais como a perda de um emprego, o fim de um relacionamento e, pasmem, até mesmo a perda de um ente querido. Eu soube aproveitar ate onde podia – ou fui condicionada a aproveitar -, o emprego, o relacionamento e a pessoa querida enquanto estiveram comigo. Citei exemplos mais comuns que levam as pessoas a se sentirem deprimidas, o que não exclui nenhum outro. 

Foi assim que aconteceu comigo e nada mais. Um processo desconjuntado de crescimento, sorte, resiliência e um pouco de força de vontade; nada alem disso. De varias maneiras minha mãe e meu padrasto estavam me preparando para a vida. Depois que você dorme em um estrado de madeira e fica intermináveis horas presa em uma cadeira sem poder se alimentar ou ir ao banheiro, tanto demissão quanto fim de relacionamento fica bem menos aterrorizante.

Bem, deu para notar que minha historia não e uma das melhores. Vez ou outra me pego pensando em como seria minha vida se tivesse tido uma família estruturada e em como essa infelicidade repercute em alguns de meus atos ate hoje. Entretanto, fiz do pior o melhor que pude. Antes mesmo de ter contato com a filosofia de Sartre quando este diz que “não importa o que fizeram contigo, mas sim o que voce faz com aquilo que fizeram com voce” eu já sabia que não haveria outra escolha. Era isso ou isso.

Sei que pode parecer clichê, mas não há outra saída. No final das contas, fazemos dos amigos nossos familiares, dos nossos amigos os nossos irmãos. Fazemos muito do pouco. Por experiência posso dizer que lamentar o passado apenas prejudica o nosso presente. Com sete bilhões de pessoas no planeta e um mundo tão vasto acho quase impossível não termos novos amores, novos empregos e construirmos uma nova família.

Reinvente sua historia. Supere-a. Ninguém sairá ileso do cenário da vida. Todo dissabor tem uma alegria, acredite.

Illyana Magalhães é advogada, aspirante a filósofa e escritora. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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