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Quem tem medo do radical?

Por Paulo Cesar Jakimiu Sabino

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“Is we finna fight over crumbs to bite

Or make a whole muthafuckin world

Ignite?”[i]

A política é um espaço que disputa ideias, mas também conceitos. Quando esse espaço se torna muito caótico, é comum que alguns conceitos acabem perdendo seus sentidos e se tornem meros termos banalizados. É por isso que hoje o adjetivo fascista serve para muitas coisas, menos para designar aquele que possui traços do fascismo. Entre os conceitos da moda na política atual está um que chamou muita atenção nos últimos meses: radical. Esse termo parece ser não uma “qualificação” e mais uma “acusação”, porque há um claro tom negativo no debate. Longe de tentar explicar detalhadamente esse conceito, gostaria de analisar os tons de cinza em algo que muitos parecem enxergar apenas em preto e branco.

Algo que notei e é completamente equivocado: o termo é utilizado para caracterizar membros da esquerda que se identificam com o socialismo ou com o marxismo (não, também não são necessariamente sinônimos, mas deixo isso para outra oportunidade). Todavia, radical é, genericamente falando, ir à raiz ou à origem do problema. A referência a Marx ocorre quando o pensador afirmou em seu texto Crítica da filosofia do direito de Hegel que o “homem” é essa raiz: “Ser radical é agarrar a coisa pela raiz. Mas a raiz, para o homem, é o próprio homem”[ii]. Dizer que o homem é a raiz do problema é algo que exige interpretação acurada, mas, no momento, me atenho ao seguinte: não significa necessariamente o homem em si, mas as relações humanas e sociais organizadas em torno de um sistema econômico e/ou forma de governo no qual o homem está inserido. São essas relações que deveriam ser analisadas.

Entra aí uma outra associação problemática. Afirmar que o socialista é radical é um medo que gira em torno não da radicalidade, mas de uma suposta revolução, porque aparentemente radicalismo e revolução são tomados como sinônimos. Ora, se a forma como se organiza as relações humanas e sociais são a raiz do problema, fica evidente que os socialistas querem alterá-las e, para fazer isso, podem, talvez, “apelar” a um método mais agressivo. O revolucionário não quer reformas, pois as reformas não chegam à raiz do problema. No entanto, tal associação de radicalidade com revolução socialista é extremamente equivocado.

Me pergunto: será mesmo que radicalidade e revolução operem apenas na lógica da esquerda? Ora, a “Revolução Francesa” é comumente entendida por marxistas como uma revolução burguesa – embora eu tenha ressalvas quanto ao tom que essa discussão assume. Então, fazer revolução não é exclusividade da esquerda, e se a direita pode ser radical, levanta-se uma questão: se ser radical é ir à raiz, qual é essa raiz? Pois certamente a origem do problema não é o mesmo para diferentes ideologias políticas.

Além disso, quando o discurso sobre a radicalidade apela para o temor relacionado à violência que acompanha a revolução, esse medo age de formas distintas na dinâmica de afetos de cada setor da sociedade. As massas têm medo da violência gerada pela revolução – entendida como “moralmente” ruim, pois violência nunca seria entendida como algo “bom” (afinal, pobrezinha das vidraças). O curioso é que na história recente nunca chegamos perto de um fenômeno revolucionário, atingimos manifestações que podem ser qualificadas no máximo como revoltas, porque a revolução exigiria uma mobilização de uma parcela maior da sociedade. Agora, quem detém o poder, não teme a violência, mas a mudança do status quo social que beneficiam justamente a classe poderosa.

Ocorre que os revolucionários se posicionam a partir de uma crença, ou melhor, de uma descrença: a perda de confiança nas instituições do Estado. Enquanto os reformistas aderem a um posicionamento menos agressivo e mais confiante nas instituições, os revolucionários acreditam que a raiz é o próprio Estado e suas instituições que fazem perpetuar os problemas sociais. É preciso mudar, portanto, as estruturas do Estado para viabilizar soluções práticas para tais problemas. Daí que muitas vezes a ação revolucionária tende a ser inconstitucional. Afinal, não se pode destruir ou depredar propriedade privada, pois a Constituição garante o direito a esta propriedade (desde que atenda à sua função social – porque o direito constitucional não está estagnado em Roma, como parecem pensar os “anarcoqualquercoisa”). Aí entra a questão: por que raios um membro de uma esquerda que não adere aos princípios do social-liberalismo, é um radical? É por sua militância? A militância de muitos radicais nem sempre ferem algum direito, pelo contrário, lutam por esse direito. Talvez sejam seus meios de militância, mas, novamente, nada vejo de errado. Inclusive, muita militância, mesmo aquela que combate nas ruas a violação de seus direitos o faz dentro de uma dinâmica de revolta ou mesmo reformista. Em geral, eles não são violentos, violentas são as formas que o Estado utiliza para reprimir essas manifestações. Me lembro até hoje da cena em que professores entregam flores aos policiais do Paraná em uma manifestação na Assembleia. Enfim, manifestantes da esquerda parecem confiar mais nas instituições do que os da direita brasileira.

Trago isso à tona em razão de um questionamento que constantemente faço a mim: e quando a direita perde a crença nas instituições e tomam as ruas pedindo intervenção militar, ou a volta do AI-5, isso não é “radical demais”? Eles estão indo à raiz, uma pena que a raiz chega a ser a própria democracia. Recentemente a prefeitura de São Paulo tentou lidar com o “problema” dos moradores de rua encontrando também uma raiz: os próprios moradores, e com isso mandou colocar pedras pontiagudas para impedir que os desgraçados pela vida tenham um lugar para dormir[iii]. Como diabos essa ação da prefeitura não foi considerada “radical demais”? O problema é como se interpreta o problema, como se enxerga a raiz – os moradores não são o problema, mas sim a ausência de moradia. Ora, é certo que tais atitudes fogem do padrão de normalidade, cujas fronteiras cismam em determinar o que é ou não radical.

Ser radical, fugir dos “padrões” usuais é algo constante na luta política para atingir a origem do problema. Mas isso pode acontecer de ambos os lados. Então, eu me pergunto: quem tem medo dessa radicalidade da esquerda que chega ao ponto de ignorar a da direita? Certamente quem lucra com a lógica autoritária e exploratória operante. Não… isso seria incorreto.

Na conhecida fábula infantil, os três porquinhos temem o lobo mau que irá devorá-los. Os que temem os radicais querem pintar o radical de esquerda como lobo mau. Mas diferente da fábula, esses não são porquinhos oprimidos. Não! São os porcos da “Pocilga”, de Pasollini. Seres massificados que vivem no chiqueiro, mas que amam esse território sujo e malcheiroso. Eles se regozijam com a putrefação dos restos podres que lhes são servidos. Esses porcos desejam a lama e os restos deixados pelos capitalistas. São eles que lutam para evitar a mudança, pois caminham felizes engordando para o abate. Não é uma grande corporação ou um grande capitalista que sustenta nosso sistema desigual.

Esse tipo de estrutura social atingiu o seu ápice ao tornar a perda de confiança nas instituições a perda de confiança na política em si. Vivemos um momento da crise no qual apenas lamentamos em nossa inércia, pois a mudança radical parece estar distante. É o tempo de uma fábula infantil desfigurada – e há quem acredite nela, pois há quem acredite em revolução.


[i] Trecho da música “Promenade” da banda Street Sweeper Social Club, composição de Tom Morello e Boots Riley. In: Street Sweeper Social Club. Intérprete: Street Sweeper Social Club Nova Iorque: Warner Music Group, 2009, 1 Disco, Faixa 10 (2min31seg).

[ii] Citação direta de Marx em: MARX, K. Crítica da filosofia do direito de Hegel. Tradução de Rubens Enderle e Leonardo de Deus. 2ª ed São Paulo: Boitempo, 2010, p. 151

[iii] Matéria no G1: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2021/02/02/gestao-covas-instala-pedras-sob-viadutos-na-zona-leste-de-sp-e-retira-apos-acusacoes-de-higienismo.ghtml

Paulo Cesar Jakimiu Sabino, Mestre em Estética e Filosofia da Arte pela UFOP e Doutorando em Filosofia na UFPR. Entusiasta de literatura russa. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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