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Entre reticências: um teto todo seu… todo nosso…

Por Liliam Beatris Kingerski

“Quem há de censurar-me?

 Muitos, sem dúvida, e serei chamada de descontente. 

Não havia como impedi-lo: a inquietação estava em minha natureza;

 por vezes, agitava-me até a dor…”[1]

Escritas de mulheres são reticências. Então, é sobre elas e com elas. 

Continuo…

Em sua adolescência passava horas a olhar pela janela… os pensamentos vagavam pelos mais variados lugares que eram só seus. Viajou muito longe, sem nem ter saído para fora de sua casa, sonhou… sonhou… conheceu muito. Era nesse espaço que ela podia ser ela mesma.

Certa vez lendo “Um teto todo seu”, de Virginia Woolf (1882-1941)​ , chamou-lhe a atenção :

As mulheres sempre escreveram sobre as mais diversas situações e condições, inclusive faziam isso reclusas em suas próprias casas sobre os olhares opressores de seus maridos; escondidas de tudo e de todos, eram extremamente sutis a ponto de escreverem debaixo do nariz desses homens, em plena sala de estar…e diante de toda a movimentação, era ali onde tudo acontecia, era nesse espaço que as pessoas viviam a maior parte do tempo, era também onde recebiam as visitas; neste espaço tumultuado, elas escreviam seus romances- a princípio essa era a escrita de uma mulher!…“Jane Austen escreveu assim até o fim de seus dias.”2​ Assim descreve Virginia, que deteve-se nesta obra, principalmente ao que se refere às condições para que as mulheres possam escrever ficção, ela escreve sobre o papel das mulheres, o que era esperado delas, o que elas podiam fazer para serem reconhecidas.

…Mas para além disso, podemos pensar que no século XIX era assim que as mulheres escreviam. A própria Virginia não chegou a estudar, autodidata, ela fez o que estava ao seu alcance; lia os livros dos seus irmãos, que estudavam em Cambridge; mais tarde se casou, tendo o apoio do marido para escrever. ​         

Mulheres como Virginia escreviam sobre o que viam, e para além do que seus olhares conseguiam enxergar.

        –    Suas escritas podiam ser livres, quando escreviam em prisões?

Havia quem duvidasse que uma mulher pudesse escrever outra coisa, afinal as mulheres só escreviam romances e poesias.

Segundo Virginia Woolf, as mulheres precisavam emancipar-se financeiramente, contando com um espaço que pudessem chamar de seu, um espaço tranquilo onde produzissem suas escritas com liberdade.

“As mulheres nunca dispõem de meia hora…que possam chamar de sua”[2]

Que mulher possui esses privilégios? Escrevemos nossos textos enquanto cuidamos dos filhos e dos afazeres de casa, enquanto estudamos, também limpamos e, não podemos deixar de lado nosso trabalho; especialmente neste período, onde a Pandemia atravessou nossas vidas, o tempo parece pouco para realizarmos tudo o que temos para fazer.

Percebemos que, no decorrer do tempo, mulheres como Virginia viveram através de suas escritas, que resistiram ao silenciamento do tempo, e suas obras foram construções para além de seus olhares na janela…foram uma verdadeira fuga para alcançar a liberdade!

Escrever foi e é uma forma de resistência! E Virginia buscou por um reconhecimento da mulher na literatura.

-Quando li Virginia, pensei na menina que aspirava sonhos através de uma janela. Quando tivemos um espaço todo nosso? Quando temos tempo para escrever o que queremos? Sem que isso represente deixar de lado algumas coisas?

Se existe uma escrita livre, lembremos que ela resistiu ao tempo e chegou até nós. A escrita não era livre, mas, aspirava a liberdade de correr pelos campos, de avistar os pássaros. As mulheres escreviam o que queriam alcançar e alcançaram as paisagens mais distantes. Escrever tratava-se de ir até onde a falta de liberdade não lhes permitia.

Virginia estava certa, ao almejar essas condições. Mesmo quando, em meio à correria do cotidiano, o que nos basta, por vezes, é apenas um papel em branco e uma caneta…

Esse teto, nos diz muito sobre as condições que uma mulher deveria ter para se entregar a sua escrita. – Que teto é esse? Não é apenas um espaço, visto que muitas mulheres escreveram aprisionadas entre quatro paredes, sobre as vistas acirradas do machismo, em companhia da solidão, apesar da sala de estar, sempre cheia de pessoas, de visitas…

Esse teto diz respeito a tudo, além de um teto… onde as mulheres encontrariam seu verdadeiro refúgio: a liberdade de sermos nós mesmas!

A escrita precisa nos abraçar! Ela grita: seja verdadeira!

Em frente à janela, era o lugar preferido dela. Minha vó. Era ali, no silêncio da sala que ela fazia seu crochê, onde muitas vezes só,  ela lia e escrevia suas orações, suas simpatias e suas lembranças em papéis que guardava sempre com ela. Era pela janela que ela via o mundo, sempre amável e feliz, como alguém que tudo podia.

Mas ela tinha seus obstáculos, foi uma mulher admirável, que sofreu muito, não podia movimentar as pernas com destreza devido ao reumatismo, que a acompanhava, e devido a isso não saía muito de casa, fazia tudo o que podia, da maneira que podia. Sempre queria ajudar!

É assim, que me lembro dela, mulher apaixonada por tudo o que fazia e, apesar das dificuldades nunca deixou de sorrir. Minha avó foi o meu teto por muito tempo. Com seus 92 anos ela lia e escrevia, a paixão estava em seus olhos e, isso ela me deixou, o amor pela escrita, a paixão pelos livros. Fazíamos a leitura de livros de História, que ela tanto gostava, juntas.

Dela, agora só resta a lembrança de alguém que demonstrou que não é preciso muito para ser feliz… que é preciso uma caneta e um papel e, com o pouco que se tem é possível fazer o que precisamos fazer. 

Quando eu estava com problemas, ela falava com determinação: seja forte!

Devia ter dito que a amava. Agora, olhando pela mesma janela, vejo o quanto dela permanece vivo dentro de mim e em minha escrita.


[1] ​WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. São Paulo: Círculo do Livro S.A. 1928.p. 86. 2 ​WOOLF, Virginia. p.84.

[2] ​WOOLF, Virginia. p.83.

Liliam Beatris Kingerski é professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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Professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural.

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