Ir para conteúdo

Como podemos combater o burnout materno em 2021?

Mães têm vida profissional impactada por pandemia (Foto: Ketut Subiyanto, do Pexels)

A psicóloga Mônica Pessanha explica que uma divisão de tarefas justa, e que contemple inclusive as tarefas invisíveis, é essencial. “Meu convite é que nos libertemos da ideia de que se não dermos conta de tudo, não seremos boas mães”.

Ufa!! Chegamos em 2021. Afinal, 2020 foi um ano desafiador. O trabalho invadiu nosso lar; rolou home schooling e aí tivemos que até ser professoras. Tivemos que manter nossos filhos focados nas aulas online, dar conta do nosso trabalho: doméstico e da empresa. Isso sem contar os milhões de “mãeeeee!!!”  que ouvimos, enquanto tentávamos nos achar em meio de outras tarefas. Tudo isso em confinamento com as ferinhas, ou seja, todo mundo dentro de casa! É ou não para ganharmos um troféu pelo ano de 2020? E olha que a coisa ainda está nebulosa, mas com lampejos de esperança. Sim, com esperança tudo fica mais fácil, porque ela nos tira do lugar do desamparo.

Tudo isso gerou uma carga mental pesadíssima para as mães. Não que isso não acontecesse antes da pandemia, mas ela acabou escancarando ainda mais o problema. Quando falo em carga mental, estou me referindo às diversas formas que ela pode ter, mas com destaque duas: trabalho invisível ou carga emocional. As coisas invisíveis a que me refiro, são tarefas que geralmente as mulheres levam e gerenciam em sua cabeça. E como elas cuidam de tudo! Essa carga mental é composta pelo gerenciamento das relações na sua casa, fora de casa, planejamento, pesquisa (nesse caso coisas que têm a ver com os filhos, casamento etc). Em suma, tudo que está por traz da mulher, não só como mulher, mas também como mãe.

Quando recebo mães no consultório que trazem como queixa a carga mental e emocional da vida, sempre procuro entender a sua história e os sentimentos relacionados à queixa. Muitas vezes não percebemos, mas a carga mental materna aumenta antes mesmo de a mulher se tornar mãe. Na verdade, ela já aparece na vida da mulher quando ela se casa, só que se intensifica quando tem filhos. Por isso, frequentemente sugiro que as mães optem por uma divisão de tarefas, sobretudo daquelas que requerem muita ação e mão na massa. Por exemplo, tem uma festa para ir: quem compra o presente? Quem coloca a criança para dormir (se a festa não é de criança)? Quem é responsável por lembrar o outro parceiro sobre a festa? Quem vai ver alguém para ficar com as crianças?

Outra situação são as férias! Onde vão passar as férias? Se for uma viagem de carro, quem vai colocar o carro na revisão? É praia? (onde estão as cadeiras de praia, guarda-sol? Tem protetor solar em casa ou acabou?)

Se tomarmos essas perguntas que coloquei nos dois exemplos anteriores que dei, notamos que se trata de coisas que encaramos como corriqueiras, mas que no fundo podem trazer muito estresse porque justamente elas têm muitos detalhes pequenos, e que, se esquecidas, podem fazer falta ou gerar estresse e consequências indesejáveis, se forem ignoradas.

O fato é que essas coisas corriqueiras vão tomando conta da nossa vida e se tornam a norma de que elas fazem parte de nossa responsabilidade como mães, e não são! Porque precisamos discutir e compartilhar essas tarefas com os parceiros. Todo esse processo de ir assumindo as tarefas invisíveis vai acontecendo muito antes dos filhos.

É preciso humanizar as mães, isso como por nós mesmas. Dividindo! Para ajudar nessa tarefa de divisão das funções, geralmente peço às mães para fazer uma lista todas as tarefas invisíveis que elas fazem. Em seguida, convido-as a iniciar o processo de divisão das tarefas, lançando mão da comunicação como estratégia. Sim, você precisa ajudar seu parceiro a ter mais ciência, entender o tanto de tarefas que você carrega e pedir a ajuda dele. As mães quase sempre não pedem ajuda, isso acontece porque a sociedade coloca a mãe ainda como um ser autosacrificante. Essa crença faz com a mãe coloque sua suas necessidade de lado e que o contrário disso é egoísta. No fundo sabemos intuitivamente dessas coisas, mas temos uma dificuldade em cuidar desse espaço. Muitas vezes relutamos em pedir essa ajuda, mas podemos nos surpreender quando o fazemos, pois pode ser que o parceiro esteja disposto a ajudar.

Para atacar o problema da sobrecarga mental materna é preciso eliminar o pensamento do tipo: “se eu não fizer ninguém vai fazer”; “eu vou ter que fazer duas vezes então prefiro que eu mesma faça” ou então, “eu não teria que pedir para ele fazer isso porque está vendo que eu preciso de ajuda”. Esse tipo de pensamento, narrativa, nos atrapalhar em delegar tarefas e pedir ajuda. E mais, eles abrem as portas do ressentimento em relação ao seu parceiro. Precisamos entender que as pessoas em nosso redor, inclusive nossos parceiros, não podem ler nossa mente! E o mais importante, nunca houve um momento mais importante para essa mudança.

Eu amo a palavra “prosperar”, que fala à experiência de uma sensação interna de bem-estar em meio a qualquer situação externa em que nos encontramos – e que, consequentemente, supera qualquer satisfação que possamos derivar do mundo ao nosso redor, ou de nossos filhos. Se há um grupo no planeta cujos espíritos precisam ser nutridos e que, portanto, precisam desesperadamente se engajar nesse cuidado interior, são as mães. Já ouvimos várias vezes antes de cada avião comercial decolar a fala: “Coloque sua própria máscara de oxigênio primeiro.” Quando ouvimos esse anúncio em um voo, não achamos que colocar a máscara de oxigênio primeiro seria egoísmo. Entendemos que podemos ajudar melhor os outros quando nossa própria máscara está bem colocada. Pois bem, assim como valorizamos a importância desse autocuidado em uma emergência, por que não valorizaríamos o autocuidado em nosso dia a dia em 2021? Eu incluo no autocuidado (que tem como pilar três coisas importantes: o emocional, físico e o espiritual) a lista de tarefas compartilhada.

Se até agora você viveu sob essa narrativa, vai levar algum tempo para mudar as coisas e colocar o seu parceiro ou a sua rede de apoio no processo, porque não dá para virar e dizer: bom agora vai ser tudo diferente, você agora é responsável por isso, isso e isso. Vai ter que ser um processo. Talvez você tenha que ser mais direta e ter uma conversa aberta, e parte dessa direção, dessa conversa aberta que já é um pedido de ajuda!

Meu convite é que nos libertemos da ideia de que se não dermos conta de tudo, não seremos boas mães. Isso tem a ver com as expectativas e sua representação do que significa ser mãe. Então converse sobre o que cada um pode fazer. Tenho certeza de que irá nos surpreender, ao descobrir que há coisas que o parceiro faz até melhor que nós.

Crescer. 9.01.2021.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: