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Contra gigantes ou Um elogio à loucura

Por Eliane de Fátima Camargo

(Entre passos)

Era domingo, mesmo de férias, não foi um dia para descansar. A ocasião, uma realidade sem contornos literários, me dizia: Temos uma prova para fazer.

 No celular, algumas mensagens. Em uma delas, a frase cuidadosa da amiga, Fabi:

 -“Não esqueça a máscara, leve caneta preta, documento com foto…muita sorte pra nós, vai dar tudo certo”.

O zelo da amiga me lembra uma coisa importante: o amor está além das palavras. Está no cuidado que temos com as pessoas. Não, minha gente, o amor não está nas declarações vagas ou nas frases ruidosas postadas em redes sociais. Ele está mais nosilêncio… No que é dito sem platéia.  

(Corpo parado, pensamentos em movimento)

Em frente à escola em que iria fazer a tal prova, tentando buscar uma sombra, enquanto o sol ardido do meio-dia queimava a minha pele, comecei a reparar nas pessoas, na busca de  um rosto conhecido para conversar. Atrás das máscaras, nenhum olhar me lembrou alguém.

Aproveitando que estava diante de pessoas estranhas e tomada por um ar de investigadora, comecei  a pensar sobre elas. As conversas que seguiam eram das mais variadas, desde prender o cabelo ou não para fazer a prova, até o nojo sentido pelo governador Ratinho, por seus ataques  direcionados à educação paranaense.

Me dei conta que todas as pessoas que passam em nossa vida, de algum jeito nos constroem. Algumas nos marcam mais, outras menos. Algumas nos desafiam, nos afrontam, nos afetam de um modo que é impossível sairmos ilesos. Essas, como diz Galeano, são “gente de fogo louco, que enche o ar de chispas”[1]. Outras, nem tanto, “não alumiam nem queimam”, acabam passando despercebidas. Mas não foi sobre essas últimas que meus pensamentos pairavam.

(memórias…)

Lembrei de uma pessoa que admiro, mas que há algum tempo não vejo. De modo carinhoso, eu o chamava de Rodolfo, por conta do livro: Madame Bovary, embora suas fantasias sejam mais parecidas com Dom Quixote. Sempre senti que éramos muito parecidos: nas inquietações, no modo livre de ver a vida. E, arrisco dizer; no orgulho e na teimosia. Embora sejamos diferentes em uma coisa: o seu machismo lhe favorece, o que não é meu caso, já que sou mulher.

Em uma de nossas conversas, falando sobre as contradições da vida e como elas faziam parte de nossa existência, lhe confidenciei: As pessoas me chamam tanto de louca, que já não sei mais se é um elogio ou uma ofensa. Ele, gentilmente, me respondeu: – É um elogio!  E, talvez por nós dois considerarmos a loucura um modo de liberdade, me senti tentada naquelas duas horas que restavam para o início da prova, a pensar como eu faria um elogio à loucura.

(Antes, devo dizer)

Não entendo nada da doença loucura, por isso, não foi sobre a doença que pensei. Tão pouco,  sobre a crueldade, que muitos confundem com loucura, como é o caso atribuído à Bolsonaro. Este, que tenho para mim, longe de ser louco, é cruel; psicopata. A crueldade é atributo de pessoas muito “normais”.  Lembro vocês da notícia que tomou as redes sociais, em que uma criança foi resgatada de dentro de um barril, acorrentada por sua própria família. E, enquanto ela definhava naquelas condições, se alimentando de suas fezes para não morrer, a família vivia na normalidade.  

A loucura que pensei, era boa, dessas que todos temos em certa medida, mas que a grande maioria nega; esconde, insiste em achar que é um defeito. Esta loucura, que desencaixa as pessoas dos padrões sociais e lhes dão coragem para sonhar mais alto, serem esperançosas… Aliás, se existe algo que não podemos negar é: Loucas e loucos não são fogos rasteiros, incendeiam: em suas paixões, em suas dores, em suas alegrias. Pessoas “loucas” podem até não serem compreendidas, mas, deixam marcas. Como escreve Lima Barreto:“Cada loucura traz em si o seu mundo e para ele não há mais semelhantes.” [2]

É certo, loucurar-se em um mundo que insiste em nos fazer  “normais”, ou melhor, superficiais, é um processo doloroso; por vezes solitário. A loucura, ainda que combustível de sonhadoras (es) é  irmã da solidão.

 “– É bom pensar, sonhar consola. – Consola, talvez; mas faz-nos também diferentes dos outros, cava abismos entre os homens…”[3]

Sem demora, minha investigação pousou sobre dois personagens: Dom Quixote e Policarpo de Quaresma. Ambos considerados loucos queriam inventar uma nova realidade, arrisco dizer: por não suportarem o peso de uma vida pequena e tão injusta.

(Devo confessar)

– Por vezes as injustiças se fazem tão presentes no cotidiano, que busco fugir para uma realidade fantasiosa, menos dolorosa. Assim como Quaresma, me refugio nos livros, em minhas fantasias… Minha porta de escape. Se não me apegasse tanto em meus sonhos utópicos, a luta já estaria perdida.

(Eu… O personagem)

Dom Quixote, que em seus devaneios lutava contra gigantes, cuja realidade dizia serem moinhos de vento, talvez, pudesse me entender. De fato, lutar contra gigantes não é uma tarefa fácil, ainda mais quando eles estão em nós, os nossos próprios medos.

É também gigante o fardo de sonhadoras (es): a luta, muitas vezes, não é suficiente para modificar a realidade, nem de si, nem de outras pessoas. Inventar uma realidade é o que resta para as almas inquietas, sobretudo, quando a esperança parece tão fragilizada.

Lá pelas tantas, ainda sem saber ao certo como fazer um elogio à loucura, o tão aguardado momento da prova chega. Duas horas da tarde, a moça inicia o processo de aplicação.  No alto da folha do gabarito, uma frase para transcrever:

“A chave para a criatividade é fazer conexões inusitadas.”

Depois de tantos pensamentos sem muito sentido, a frase me soou engraçada. Um sorriso leve e meio sarcástico surgiu no canto da minha boca. Chamou-me para a realidade.

Peguei a caneta, abri o caderno e iniciei a prova. Na cabeça, todas as leituras que fiz. No coração, colegas que fizeram greve de fome, para revogar um edital injusto.

De repente, me encontrei preenchida somente com uma certeza:

-Ainda há muitos gigantes a serem vencidos, mas hoje, estou maior que eles-

É minha gente, alguns dias as lágrimas salgam a nossa alma. A crueldade e os nossos gigantes nos esmagam. Mas, não são todos os dias assim. Tenhamos coragem. Não percamos a fome de justiça, o desejo de um mundo melhor.

A luta continua… Os sonhos também. Abracemos nosso lado quixotesco!

– abraço a minha loucura, por vezes, ingênua, quase sempre utópica… Mas, é a que me faz mais humana-

(Sinto falta de humanidade)


[1] GALEANO, Eduardo. O livro dos Abraços. Trad. Eric Nepomuceno. 9ª ed. L8PM. Porto Alegre, 2002, p. 11.

[2] BARRETO, Lima. 1881-1922. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Paulus,2005. Pág. 55

[3] BARRETO, Lima. Pág. 53.

Eliane de Fátima Camargo, Graduada em Filosofia e Sociologia. Mestranda em Filosofia. Feminista. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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Muitas em uma só.

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