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A chuva, as histórias e o tempo

Por Gisele de Souza Gonçalves

E, quando de mim uma lágrima se faz mais rápida do que o gesto de minha mão a correr sobre o meu próprio rosto, deixo o choro viver.

                  Conceição Evaristo

Começo a escrita citando as palavras de Conceição Evaristo ao apresentar suas “Insubmissas Lágrimas de Mulheres”, livro de contos em que esta grandiosa mulher nos traz reflexões, saberes e emoções. Suas insubmissas lágrimas, contadas no livro, me acompanharam, em janeiro, como as chuvas que marcaram presença na minha cidade.

Aqui, o mês de janeiro chorou todas as lágrimas de 2020. Desde as angústias de um confinamento (que acontece para apenas alguns poucos) até as dores por quem se foi com a pandemia. Não somente pessoas foram com ela, muitas vezes, foram também nossos melhores sentimentos sobre a humanidade de que fazemos parte. E, além de chorar, janeiro mostrou como há gente incrível nas universidades, nas pesquisas e quanto o SUS merece ser reconhecido por meio de uma palavra que representa muito neste momento: vacina. Todavia, o primeiro mês do ano mostrou também a frieza, o descaso e a irresponsabilidade de quem não entende ou faz questão de não entender o que representa esta pandemia. Pensando bem, janeiro chorou pouco. Quanta chuva para um mês, quanta dor para menos de um ano.

Parece que cada vez que falamos, escrevemos, lemos ou ouvimos sobre as angústias da pandemia, somos repetitivos, mas, contrariamente ao que parece, quando poucos alguéns nos ouvem ou por nós são ouvidos a respeito disso, nos abraçam com palavras e dizem se sentir abraçados. Sabe o que eu penso sobre isso? Que, afinal, embora as tristezas desse tempo tenham deixado marcas imortais, elas nos ensinaram que podemos dizer o que sentimos a poucos, e eu também percebo que digo e escrevo muito menos do que penso sobre tudo isso. Com a chuva que caia tão insistentemente, meus pensamentos criaram ânimo na contemplação da água que escorria da janela, mas ficaram no meu interior como a água que a terra absorveu. Afinal, a quem podemos confiar nossos pensamentos mais sinceros? Se você pensou em alguém, tenho certeza de que esta pessoa é acolhedora e digna, é gente humanizada. Deve ser uma daquelas que nos fazem tão bem que, mesmo em dias tristes, nos transmitem aquela energia para levantarmos e querermos fazer o melhor que podemos.

É fevereiro e, enquanto escrevo, a chuva volta para me dizer “continue a pensar, sinta seus sentimentos, quando não puder dizer para alguém, pense por que não pode, entenda-se”. Estes dias chuvosos me lembram os versos de Alberto Caeiro que vê na simplicidade da natureza a beleza do mundo: “Toda a paz da Natureza sem gente/Vem sentar-se a meu lado./ Mas eu fico triste como um pôr-do-sol[i] e os versos seguem como alguém que nos dá a mão para conhecer um novo caminho.

E há tantos caminhos novos a conhecer, teremos tempo? Qual deles seguir? O mundo quer voltar a uma normalidade que de normal pouco se tinha, afinal como normalizar a desigualdade, a exploração, o egoísmo, as injustiças? Há uma certa negação em assumir que a pandemia ainda não acabou. Vacinas já existem, mas quando chegarão a todos nós? Em contrapartida, o vírus se modifica, adapta-se melhor que muitos de nós, e, com isso, vai se fortalecendo e nos desunindo. Como Boaventura de Sousa Santos, em seu livro “O futuro começa agora: da pandemia à utopia”, escreve “pouco a pouco, percebi que o vírus ia mais longe do que eu jamais fora em minhas análises da sociedade” (SANTOS, 2021, p. 16). Assim, Boaventura compartilha conosco a percepção de nossa impotência neste momento. Como a chuva que não controlamos, está aí a vida sem que possamos controlar.

E esta chuva que para mim tem um sentido, para cada um de nós traz memórias, pensamentos e sentimentos, de acordo com o que temos vivido. Quando éramos crianças, ao começar a chover, eu e meus irmãos tínhamos a tarefa de colocar, pelo chão, panelas, baldes e o que fosse possível para receber as goteiras que o telhado permitia, eram tantas que a gente fazia uma grande brincadeira para ver quem conseguia identificar mais delas. Essas chuvas de agora me fizeram lembrar das chuvas de antes e de como nós também mudamos.

Quando, em algum dia de chuva, li Carolina Maria de Jesus, pensei no que a aquela possibilitava a esta: a escrita. Afinal coletar lixo não era possível em dias chuvosos, em seu diário ela conta: “Continua chovendo. E eu tenho só feijão e sal. A chuva está forte. Mesmo assim mandei os meninos para a escola. Estou escrevendo até passar a chuva…” (JESUS, 2014, p.30). Este registro é de 13 de maio de 1958, Carolina teve seu livro publicado em 1960, que normalidade, afinal, tínhamos antes da pandemia? A pobreza entre muitos existe há tempos e parece aumentar, beneficiando alguns poucos que têm sempre mais. Como é possível sabermos que uma mulher como Carolina Maria de Jesus viveu por anos em seu “quarto de despejo” torcendo para que um dia pudesse oferecer melhores refeições a seus filhos e ainda sugerirmos que existiu alguma normalidade antes desta pandemia? Esta só destacou um pouco mais a não normalidade que há tempos existe e, apesar disso, ainda há muitos querendo acobertá-la.

Se eu pudesse, queria conversar com a chuva, talvez ela contasse o que tem presenciado em todo lugar com tanta gente, provavelmente eu choraria como um intenso janeiro. A chuva trouxe outros significados nesta insistente quarentena. Que estes façam de nós pessoas que possam reconstruir este mundo que dizem ser normal.

Referências

EVARISTO, Conceição. Insubmissas lágrimas de mulheres/ Conceição Evaristo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Malê, 2016.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada/Carolina Maria de Jesus; ilustração Vinicius Rossignol Felipe. 10ª ed. São Paulo: Ática, 2014.

PESSOA, Fernando. Poemas de Alberto Caeiro: obra poética II/Fernando Pessoa; organização, introdução e notas Jane Tutikian. Porto Alegre, RS: L&PM, 2011.

SANTOS, Boaventura de Sousa. O futuro começa agora: da pandemia à utopia/ Boaventura de Sousa Santos. 1ª ed. São Paulo: Boitempo, 2021.


[i] Versos do poema “O guardador de rebanhos”, de Alberto Caeeiro – um dos heterônimos de Fernando Pessoa (Pessoa, 2011).

Gisele de Souza Gonçalves. Professora e Doutoranda pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Mãe.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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