Ir para conteúdo

Ler mulheres é resistir! Um diálogo com Mary Wollstonecraft

Por Liliam Beatris Kingerski

Lembro de quando era criança e escutava minha mãe dizer que meu pai sempre quis ter um menino, essas palavras ressoavam aos meus ouvidos e, era como se estivesse ocupando um lugar que não era o meu; minha mãe sempre me dizendo que queria que eu usasse saia e vestidos, ou então que eu brincasse de bonecas, quando o meu interesse era  jogar futebol,  brincar de carrinho e brincadeiras que meninas “não brincavam”. Percebia-me como culpada por aquilo que meu pai sempre desejou, (ainda que não fosse) também queria muito que meus pais compreendessem que não havia nascido o tão desejado ser do sexo masculino do qual eles haviam tanto sonhado, mas que sim, eu era uma mulher que podia tudo, que podia ser tão forte quanto qualquer homem.

Minha mãe não tinha muito tempo para me dar atenção, ela era costureira e trabalhava em casa até altas horas. Levantava sempre muito cedo e odiava quando eu chegava perto para pedir alguma coisa (ela fazia o que podia). Costurava enquanto fazia o almoço, depois tratava de limpar a casa e me ensinar a fazer a mesmo – essa não é somente a minha história, mas a de tantas outras mulheres –  Enquanto crescia, percebia que ser mulher parecia tão difícil, eram tantas cobranças. Era como se; ser mulher me direcionasse a destinos que eu não queria para mim.

                “Não se nasce mulher, torna-se mulher”

Esta frase da filósofa francesa Simone de Beauvoir, assim como toda sua filosofia que se constrói no livro: Segundo Sexo, sugere que a mulher nunca é vista pelo que realmente é, mas pelos olhares dos outros, dos homens… Não nascemos “as mulheres”, cuja sociedade espera que se tornem boas mães e esposas, não que isso seja ruim, mas nossas essências estão para além destas funções que a sociedade patriarcal nos impõe e nos define. Podemos ser ou não: esposas, mães, desde que esta seja a nossa escolha e não como um destino que não podemos fugir. Afinal, esta “essência” que a cultura hegemônica diz que temos, só serviu  para que os homens ao longo da história controlassem as mulheres,  escrevessem por elas, tornando-as submissas e invisíveis para a sociedade.

Sim! As mulheres, por muito tempo foram vistas sob olhares predominantemente masculinos. Olhares que buscaram silenciar suas palavras de angústias. Não tem como tratar do tema referente às mulheres, sem lembrar que elas são as vítimas de uma opressão que se mostrou mais clara e cruel durante a pandemia; esse outro vírus que afeta  nossa sociedade, considerando que  os casos de feminicídios cresceram 22% no Brasil e, as mulheres ainda são vítimas da violência dentro de suas próprias casas.

Se, ainda hoje ser mulher e escrever parecem coisas tão distantes… Imagine então no século XVIII, onde as mulheres não tinham nenhum direito de voz, onde pensadores tão brilhantes como o pensador iluminista Jean-Jacques Rousseau descrevia as funções de uma mulher da seguinte forma:

“Toda a educação da mulher deve ser relacionada ao homem. Agradá-los, ser-lhes útil, fazer-se amada e honrada por eles, educá-los quando jovens, cuidá-los quando adultos, aconselhá-los, consolá-los, torna-lhes a vida útil e agradável – São esses os deveres das mulheres em todos os tempos e o que lhes deve ser ensinado desde a infância.”

As mulheres deveriam aprender a serem boas mães e esposas. Essa é a lei da natureza, defendida por Rousseau. Reclusas ao mundo e distantes da liberdade, a mulher deveria  ser ensinada desde muito pequena a gostar de cuidar da casa  e se dedicar a isso com fervor. Para os iluministas, as mulheres não eram inferiores apenas fisicamente, mas intelectualmente.

Mas, existiram mulheres que discordavam de homens como Rousseau, e questionaram suas ideias sobre a educação das mulheres, Mary Wollstonecraft foi uma dessas mulheres. Uma intelectual  inglesa, que enfrentou os percalços de seu tempo, se apaixonou por um homem casado, foi abandonada pelo parceiro e se tornou mãe solo. Suas ideias superaram as barreiras do silenciamento; foi escritora e filósofa do período, considerada também a precursora do Feminismo. Teve de enfrentar as dificuldades de ser mãe e escritora; Tendo que dividir a escrita com seus outros afazeres, próprios das mulheres de sua época; Ficou conhecida por escrever a Reivindicação pelos direitos da Mulher, em 1792,  contestando a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, documento que embasou a Revolução Francesa, onde percebeu que as mulheres não estavam inseridas.

Mary “reivindicou” no sentido mais profundo que essa palavra nos traz, o direito da educação das mulheres, o direito ao voto e a igualdade no casamento, em particular o direito das mulheres casadas a dispor de suas propriedades. Afinal, para Mary, as mulheres eram “Levadas por sua situação de dependência e suas ocupações domésticas a estar mais em sociedade, elas aprendem aos poucos e, como para elas, em geral, o aprendizado é algo secundário, não se dedicam a nenhuma disciplina com o ardor e a perseverança necessários para dar vigor às faculdades e clareza ao julgamento.” 

Fazendo as atividades domésticas nem percebemos o tempo passar e quando nos damos conta, estamos ocupadas todos os dias com as mesmas atividades e, elas nunca terminam. Pelo contrário, se não interrompermos nossos afazeres para lermos um livro, por exemplo, nunca o faremos. Mary clamou por uma educação igualitária entre homens e mulheres, uma educação que tornasse as mulheres donas de seus destinos, seres independentes, capazes de pensar com autonomia:

“Não desejo que as mulheres tenham poder sobre os homens, mas sobre si mesmas”

Pensar por si mesmas era o que a filósofa reivindicava para as mulheres em pleno século das luzes, contrariando a ideia retrógrada de Rousseau em relação às mulheres. A autora trata em sua obra da necessidade do exercício do esclarecimento na formação das mulheres, quando vivenciava um período que relegou as mulheres apenas suas fragilidades e sensibilidade, ela associa às mulheres a racionalidade tão almejada:

“É assim, por exemplo, que a demanda por educação tem por objetivo exclusivo permitir o livre desenvolvimento da mulher como ser racional, fortalecendo a virtude por meio do exercício da razão e tornando-a plenamente independente”.

No decorrer do tempo comecei a compreender que a vida de minha mãe era apenas o reflexo do que uma sociedade inteira deseja para as mulheres e, que as mulheres pareciam por muitas vezes aceitar suas condições, em vez de refletir sobre o que representava ser mulher nessa sociedade que tanto nos aprisiona, elas decidiam fazer o mesmo com as suas filhas e educá-las para fazerem parte dessa sociedade. (como se pensar e questionar a respeito fosse muito contraditório) Posso dizer que minha mãe fez algo diferente, ela sempre valorizou a educação, frases como: –“Você não pode parar de estudar” sempre ecoaram pelos cômodos de minha casa,  ela sempre me falava que eu deveria estudar, pois não queria que eu fosse costureira como ela.

Muitas de nós vivem silenciadas por discursos masculinos, afinal é isso que vemos quando temos contato com a literatura feminina e também feminista; percebemos que as mulheres sempre falaram, sempre escreveram sobre suas angústias, sobre ser mulher e seus enfrentamentos. Por isso, sinto a necessidade de torná-las visíveis, pois sou mulher e me enxergo nas suas escritas.

Ainda hoje lutamos pelo direito das mulheres de serem elas mesmas, reivindicamos por espaços, por vozes, por leituras e escritas… Enquanto educadora penso que levar escritas de mulheres como a Mary para a sala de aula, é um ato revolucionário, ato de revolta e indignação, ao mesmo tempo em que também é sensibilizar, pois todos deveriam ler mulheres e compreender esse universo de possibilidades que essas leituras nos oferecem.

Não sou costureira, mas minha mãe me ensinou que deveria tecer e alinhavar meu próprio caminho pelas linhas turvas de minha existência… Me ensinou que deveria ser forte e jamais ser o que os outros esperavam, mas ser eu mesma.

Ler mulheres como a Mary é um grande aprendizado, é como ver em sua escrita forte, argumentos que nos fortalecem e nos fazem também refletir sobre o papel da mulher na atualidade. Ler mulheres é lutar contra a opressão do machismo, sexismo e a violência tão presentes em nosso cotidiano. Ler mulheres diz respeito a muito mais, diz respeito ao mundo que queremos…

E, é assim que termino este texto: com vozes que não são pontos finais. São reticências… Nossas escritas continuam…

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

WOLLSTONECRAFT, Mary. Reivindicação dos direitos da mulher. Motta, Ivania Pocinho. São Paulo: Boitempo, 2016.

hooks, bell. O Feminismo é para todo mundo.

ROUSSEAU, Jean-jacques. Emílio ou da educação. 2 Emílio ou da educação ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1973.

BOND, Letyci. Casos de feminicídio crescem 22% em 12 estados durante pandemia.Agência Brasil, São Paulo , 01 de junho de 2020.

Liliam Beatris Kingerski é professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

liliambeatris Ver tudo

Professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: