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A matemática ocidental e as contas de 2021: é tempo de amarelar para vencer na vida

Por Maicelma Maia Souza

Conta o mito Yorubá que Oxum, Orixá regente das águas doces, apaixonou-se por Xangô, Orixá da justiça. Mas ele sempre muito vaidoso e cheio de si, não se permitia ao contato com ela e sempre que podia a rejeitava. Oxum era muito bonita, rica, tinha muitas joias e pertences, de tudo fazia para conquistar o alabê. Até que um dia conseguiu uma noite de amor, ardente e inesquecível, mas Xangô seguia em seu desdenho por ela. De tanto esbanjar, Xangô ficou pobre e foi se esconder envergonhado, mas Oxum seguia sua paixão e o cobria com todas as riquezas que possuía. Ela o agradava com presentes e conforto em nome do amor e do prazer, e ele continuava a não se importar. Sem perceber, Oxum foi se desfazendo de tudo que possuía, até que só lhe restou um vestido branco. Todos os dias, ela ia até o rio para lavar o vestido, seu único vestido. De tanto lavar, o vestido ficou amarelo. Desse dia em diante, Xangô a amou profundamente.

Adoro esse mito. Sempre que me pego observando as relações (as minhas também), eu o leio e fico procurando o objeto usado para disputa do poder de controle. Xangô usa seu charme e sabe de sua ardência sexual, Oxum, sua riqueza. E é quando os dois não têm mais nada, que eles têm um ao outro, com as águas pelo meio.

Quando éramos crianças, painho e mainha levavam a gente pra passar o domingo na Barragem de Pedra, armávamos acampamento embaixo do umbuzeiro e passávamos o dia inteiro entre nós, e embaixo d’água. (Tive umas 5 chances de morrer afogada, mas acho que não bebia água o suficiente. Painho sempre me tirava antes.) Voltávamos pra casa pretinhas de Sol, carregadas de umbu, e com uma sensação enorme de felicidade.

Crescemos no espaço urbano, mas sempre que podíamos, era no meio dos matos que a gente cultivava a paz. Talvez por obra da Natureza, inclusive a nossa, o sentimento de pertença era mais forte ali. O gosto da água, o cheiro das folhas, a firmeza da terra, a sombra do umbuzeiro… tudo nos devolvia ao nosso melhor: sensação de humanidade. Ali, nos olhávamos como seres humanos em nossa riqueza.

Em 2019 fui à Luanda. Na visita ao Museu Nacional da Escravatura, nos foi mostrado dois alambiques, onde eram feitas as cachaças para embebedar os africanos mais fortes e, assim, serem dominados pelos portugueses com mais facilidade. (Esse é o momento em que você já pode jogar fora aquela conversa de que as pessoas africanas e indígenas foram passivas, ou aceitaram a escravização tranquilamente em troca de espelhos). O Museu fica situado no mesmo porto onde se faziam as embarcações do tráfico de escravizados para o restante do mundo. Dados deste Museu indicam que o país que mais recebeu influência da cultura angolana foi o Brasil. Cerca de 68% da população escravizada aqui, era de Angola no século XVIII.

Atravessamos o Oceano e damos de cara com os sonhos e o cotidiano de Carolina de Jesus publicados a partir da década de 1960. Ela narra em vários capítulos de seus escritos que, se fosse um homem, não iria beber pinga. Carolina cresceu vendo o desprestígio de pessoas embriagadas na favela. Contou que sentava ao lado de seu avô para ouvir as histórias da escravatura. Seu avô, como ela dizia, era um preto lindo, descendente de africano, foi da última remessa de angolanos que veio no navio negreiro. Os negros Cabindas (região Norte de Angola), os mais bonitos e mais inteligentes. Ele não bebia pinga e falava bonito. Nunca foi preso. Não era de briga. Dá pra ver o brilho nos olhos de Carolina quando ela fala com orgulho do avô, ele era seu exemplo. Se ela fosse homem “seria um homem correto e não iria beber pinga, porque o bêbado não açambarcava o respeito da população.”*

A colonização europeia em seu processo de dominação, não se contentou em roubar territórios e riquezas materiais, era preciso, também, retirar o respeito pelo povo africano e seus descendentes, criar, no imaginário social, a noção de incapacidade intelectual**, a imagem de uma natureza preguiçosa, portanto, malandra/vagabunda/vadia e a condição animalizada de existência, além de diminuir nossas forças vitais, nos afastando do contato sadio com as demais espécies e destruindo os recursos naturais do planeta. Tem fogo na Amazônia; ainda tem óleo no mar do Nordeste; tem sangue de inocentes na demarcação de terras indígenas e quilombolas; tem mais venenos nos alimentos em torno de mais lucro do agronegócio.

No contato direto com outros humanos, tem um ‘macaco’ no vocabulário colonial pronto para ser jogado em qualquer pessoa negra do caminho; tem mais de 200 mil pessoas enterradas pelo desdém de “uma gripezinha”; tem prédios com um elevador de serviço esperando um corpo que não pode se misturar; tem uma empregada doméstica criada desde criança como “gente da família”, só que por 38 anos sendo feita de escrava; tem histórico de alcoolismo em toda família empobrecida; tem solicitação de “boa aparência”, (leia-se pele clara e cabelos lisos) em toda vaga de emprego; tem maioria de presença negra nos índices de pobreza, violências e vulnerabilidade social do Brasil… tem um sistema colonizador preparado para minar nossa força há mais de 520 anos.

Todos os dias, é muito difícil encarar a vida com otimismo e autoestima equilibrada. A vida, essa com aparência de progresso e de felicidade, parece-nos estranha. Nos desligaram de nossa potência existencial e querem que, pelo caminho do esforço sobre-humano, alcancemos o mérito de vitória das exceções. Por aí, as contas já mostram que vão bater errado. Na matemática ocidental, se a gente somar racismo mais patriarcado e multiplicar pelo capitalismo como meios de colonização, o resultado nunca será vencer na vida. Usaram cachaça como recurso para dominação dos povos. A ciência já confirma uma predisposição genética em pessoas com dependência alcoólica. A dose de pinga produz falsa sensação de felicidade, aciona o que reprimimos no inconsciente e é mais barata que feijão. Na difusão dos valores coloniais, a bebida é romantizada pelos enriquecidos, mas é recurso de sobrevivência para os empobrecidos. Entretanto, “o bêbado não açambarcava o respeito da população.”  

É início do novo 2021, quem, no fazer ocidental, vai nos ensinar como acertar essa conta ‘de mais’: existir sendo tratado como um animal incapaz e conseguir vencer na vida? Nessa matemática, os instrumentos oferecidos para vencer na vida, divide ou multiplica o nosso poder existencial? Nossos corpos estão conectados com quais verdades?

Não se trata aqui de abominar a cachaça (afinal, para uma sociedade de corações adoecidos, qualquer coisa vira veneno); nem é sobre se alegrar ou lamentar por sua experiência de família; não é sobre abrir mão de conquistar bens materiais e fazer apologia à pobreza do povo preto; não é sobre esperar que consertem os erros do colonialismo… é sobre caminhos para acessar o próprio poder Agora. É consenso nos estudos acerca das sociedades, que as relações de poder*** são o que rege o controle dos corpos. Essa disputa, afastada de uma educação libertadora, pouco tem produzido resultados substanciais para vida do povo em geral. Sim, os movimentos sociais e as revoltas populares alteram muito a dureza da realidade. Isso é fato inegável. Mas ainda há muitas mudanças esperando por nossas mãos, juntas. Nesta disputa, em meio a suor, sangue e privilégios, as instâncias de poder político promovem repulsa e desejo. É certo que controlar corpos gera status, mas, neste sistema, para quem se enxerga como comunidade negra, é o possuir a si mesmo que gera autoconfiança, alegrias, sensação de pertença e conquistas, pessoais e coletivas.

Todes nós temos poder. Xangô amou Oxum quando ela ‘amarelou’, quando nada mais poderia ser usado como poder de controle, afinal era uma relação entre iguais. Amarelar, nesta perspectiva, é seguir seu propósito de vida, sem subestimar o poder de outrem. Nosso corpo é todo uma Natureza de potência amorosa e realizadora. Precisamos nos entregar ao caminho que nos devolve o sentimento de humanidade, de nossa humanidade. É este sentimento que nos liberta para a vida. O pensar colonizador se incomoda com nosso riso e não aceita nossa leveza, ignora até a nossa condição natural de ser gente, de amar as flores, de brincar com as águas e de dançar com a chuva… Eu não posso viver para essa civilização doentia, por isso, eu me volto para o caminho espiritual do amor, e eu não paro de falar de amor… eu não paro de fazer amor.

Em 2021, eu só faço contas com a ancestralidade.

*As referências citadas nesse texto são facilmente encontradas em domínio público. Há livros de Carolina de Jesus em pdf e disponíveis para compras. Essa citação foi retirada de “O diário de Bitita”.

**Os estudos sobre Teorias Raciais do século XIX apontam essas conclusões, que, posteriormente, foram superadas pelo avanço dos estudos Antropológicos e das Ciências Humanas no campo das Relações Étnico-Raciais, como também, com a síntese do Projeto Genoma, no início dos anos 2000.

***Diversas perspectivas filosóficas e sociológicas desenvolveram análises sobre as relações de poder. As que faço menção neste escrito estão localizadas em Karl Marx, Paulo Freire, Michel Foucault, Achille Mbembe.

Maicelma Maia Souza é Professora, Psicopedagoga, Pedagoga. Mestra e Doutorando em Educação. Coordenadora do Programa de Extensão CAfUNé – Cozinha dos Afetos para Universitárias Negras. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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