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As lembranças mais suaves são afagos no agora

Por Gisele de Souza Gonçalves

Artista ilustra as doces memórias de sua infância e o resultado vai te  emocionar | Hypeness – Inovação e criatividade para todos.

Estar em 2021 me faz pensar sobre como imaginávamos que esta década seria. É um tanto decepcionante pensar nas nossas expectativas quando criança em relação a isso. Eu gosto de visitar o passado e imaginar o que os mais velhos daquela época diriam sobre o que estamos vivendo, caso fosse possível tal viagem no tempo.

Então eu escolhi relembrar minhas memórias e pensei em alguém que marcou minha infância: a irmã do meu avô paterno. Eu gosto de me lembrar dela, do seu sorriso e de sua maneira acolhedora de agir. Mas quando voltei às memórias mais suaves com ela, não quis contar o que está acontecendo. Ela ficaria decepcionada também.

Recordo que, quando fomos morar na mesma rua em que ela morava, eu devia ter um pouco menos que seis anos completos. Depois de um tempo, ela foi morar em outra cidade. Íamos algumas vezes visitá-la durante o ano, nem sempre minha família podia fazer esta viagem que não durava mais que três horas com o Fiat 147 que meu pai dirigia. Quando eu tinha 12 anos, ela se foi. Enfim, não tivemos a sua presença pelo tempo que eu gostaria que fosse, mas enquanto estávamos juntas, eu vivi o suficiente para não esquecer.

Lembro-me de seu quintal cheio de árvores e flores, lá tinha uma gata branca também. Nós – eu, minha irmã, meu irmão, meu primo e qualquer outra criança da vizinhança – brincávamos imaginando que lá fosse uma floresta e que Bichana, a gata branca, fosse uma onça.

Aqueles momentos eram as tardes gostosas por que esperávamos chegar, aquelas que, logo no início do dia, eram solicitadas à nossa mãe. Sua casa e a nossa eram separadas apenas por um terreno vazio e murado. Era ele que separava nossa casa do lugar que chamávamos “casa da tia”. Isso bastava. Para mim, até hoje essa expressão tem cheiro, tem umidade, tem alegria. É impossível falar dela sem surgir na lembrança aquele quintal e lá no fim dele a expressão da tia, sempre sorrindo quando nos via. Ela dizia “Deus a abençoe, minha filha”. Dava um abraço que guardo nas minhas lembranças com o cheiro bom e a textura de sua pele cheia de rugas e aquele olhar de solidariedade como se ela não sentisse raiva de nada nunca. No máximo, tristeza.

Quando eu fazia perguntas, ela sempre respondia. Ela nunca pedia para que eu me calasse, nem desviava suas respostas. Quando eu perguntava algo muito inesperado, ela ria e dizia “isso não sei, minha filha”. Ela era cheia de paciência e humildade. Eu tinha vontade de chegar lá sem que ela nos visse para saber como ela era quando não estávamos. E percebia que mesmo sem ligar (nós não tínhamos telefone), sem avisar que iríamos, ou chegando na hora de costume ou não, ela era sempre a mesma.

Eu ficava surpresa com a bondade dela. Com seu jeito de ouvir a cada um de nós quando nos desentendíamos. Como assim ouvir as crianças? Era muito diferente experimentar que fôssemos escutados, porque, na maioria das vezes, quando entrávamos em algum conflito durante uma brincadeira, no melhor dos cenários, recebíamos duras broncas. Mas com ela era diferente, ela nos acalmava ouvindo nossa braveza e quando nós mesmos ouvíamos uns aos outros, percebíamos que nem era para tanto o alvoroço e voltávamos a brincar.

Por isso, quando eu voltei ao passado nas minhas memórias, não quis contar a ela como está o mundo. Imaginem a minha tia, que nos ouvia, descobrir que quase não se ouve mais. Imaginem eu dizer que muita gente diz “bandido bom é bandido morto”, quando, na década de 80, ela já admirava a Pastoral Carcerária. Imaginem eu dizer que mesmo sem termos o número de analfabetos de antes, as pessoas não querem ler, mas compartilham fofocas virtuais chamadas fake news. Ela ficaria decepcionada. Então eu só quis sentir o seu abraço e ouvir sua voz acompanhada do sorriso de sempre.

Ela era uma tia avó que não exigia respeito, o respeito era ela, nós só retribuíamos. Ninguém precisava pedir que disséssemos “boa tarde”, era logo um abraço emendado em um colo cada vez mais baixo porque ela sentia o nosso peso conforme crescíamos e ela envelhecia. Ela é a imagem da velhice que pretendo praticar e que me desafia já: ouvir, conversar, não exigir afetos, mas construí-los. Em tempos como estes, eu sinto mais saudade dela: uma mulher nordestina cheia de amorosidade.

Eu precisava registrar tudo isso para me dar um afago e compartilhar algo gentil em tempos assim. Que minhas palavras possam abraçar a todas e todos que gostariam de conhecer minha inesquecível e incrível tia.

Gisele de Souza Gonçalves. Professora e Doutoranda pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Mãe.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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