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Um Sopro de Vida

Por Pâmela Bueno Costa

É necessário ter o coração em chamas para manter os sonhos aquecidos.

Acenda fogueiras. [1]

As estrelas são butucas que, da imensidão,

piscam e alumiam os sonhos da aldeia.[2]

escreverei aqui em direção ao vento…

É quase final de dezembro, de um ano marcado por muitas tristezas e luto. Luto também em sentido de verbo, pois a luta foi constante. Estamos encerrando um ciclo, mas o que esperar do ano que vai iniciar? Olhos marejados, lembrando de todas as coisas que aconteceram este ano. A vida continua, apesar de tudo. Mesmo que os azuis não estejam presente, precisamos lembrar que: “sei que além das cortinas são palcos azuis e infinitas cortinas com palcos atrás”, nessa canção Vida, de Chico Buarque, aprendemos que a vida é mistério e sempre há algo para ser descoberto e experimentado, no entanto, sempre  fica algo  que nos escapa.

Certo ditado diz: “ a vida só é bonita porque acaba”? Será que ela acaba?

O que esperançar?  Não podemos perder a esperança por dias melhores, embora olhando para o mundo real – que não podemos trocar de canal; o desespero surge. Vida, pisa devagar”! Fomos pisoteados, amassados, mas ainda podemos respirar. Olhamos para a realidade e vivenciamos o olhar de ódio, violência, racismo, sexismo, uma sociedade marcada pela banalidade do mal, como conceituou Hannah Arendt, no século XX, analisando o caso de Eichmann, em Jerusalém. Essa banalidade virou uma boçalidade do Mal, parafraseando Hannah, Eliane Brum afirma que graças ao fenômeno da internet podemos acessar o que os outros pensam e é aterrador saber que os vizinhos, com os quais trocamos amenidades no elevador, na rua, no mercado são a favor do linchamento dos homossexuais, são racistas, xenófobos, sexistas e a lista é grande.  Estamos vivendo em um espiral de ódio!. Como acabar com todo esse ódio ao outro? Como fazer o amor viver novamente?  Como acabar com as amarras do desencanto?

Não é pessimismo dizer que são tempos sombrios.  Não sabemos em quem confiar e o que esperar do outro. Estamos sempre diante de um mistério que não pode ser revelado.

Como escreve Clarice, “isso não é um lamento, é um grito de ave de rapina” (LISPECTOR, 1999, p. 13). Por que escrever? A vida é uma loucura, mas escrever é como um alívio imediato, chover em palavras é, de alguma forma tentar desabrochar, sentimentos não vão para o papel, mas: “eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida” (LISPECTOR,1999, p. 16).  Viver é mágico e inteiramente inexplicável. Temos em nós um sopro. E aqui, neste momento,  convido você, caro leitor, a mergulhar e ver outros azuis na cena, da  história do sopro de vida, voando em outros céus… Voando em

paraquedas coloridos:

“vamos pensar no espaço não como um lugar confinado, mas como o cosmos onde a gente pode despencar em paraquedas coloridos”[3]

Uma pausa. Você sabe quem é Iku?  Um dos mais belos orixás, de beleza inebriante, mas que ficou com uma tarefa difícil. Ele ficou encarregado de finalizar a vida retirando o emi. Reza a lenda, que Olodumare, o deus maior, deu a Obatalá uma tarefa – a da criação. Ficou  dito que deveria povoar o Ayê – o mundo visível. Diante de tal tarefa, pensou e assim projetou, criou os seres humanos, a partir do barro primordial, pedindo a autorização da orixá mais velha, Nanã. Portanto, depois de serem moldados, faltava algo, e  para finalizar a criação, receberam o emi – o sopro da vida.

A vida é tão rara – um ciclo, “ porque a própria vida já vem mesclada ao erro” (LISPECTOR, 1999, p. 19). Viver nos deixa trêmulos? E, esse tremor que desperta o espanto e o pensamento encantado. Na crença dos Iorubás, a vida é aprendizagem e a morte faz parte do ciclo de crescimento espiritual. Se a vida é ciclo, nessa forma de cosmovisão, podemos perceber os ciclos de passagem pela  vida –  vida essa que não acaba, pois as pessoas não morrem, ficam encantadas. Para o processo de travessia do plano visível para o invisível, Iku, ficou encarregado de manter o ciclo da criação, assim, “Iku vem todos os dias ao Ayê para escolher os homens e mulheres que devem ser reconduzidos ao Orum” (SIMAS, 2019. p. 64). Nesse sentido, não podemos deixar a vida escassa. Isso quer dizer que precisamos compreender os ciclos e romper com a vida ensinada, que reivindica a marcação de um tempo único. Não queremos uma vida marcada pela invisibilidade das matas, dos rios, dos quintais, dos becos, vielas, da ginga e euforia das crianças. Isso significa dizer que não queremos uma vida desencantada: “a vida aprisionada no humano e a natureza como mero recurso” (SIMAS, RUFINO, HADDOCK-LOBO, 2020, p.91). Essa é a lógica dominante de séculos. Mas,  ainda há tempo de recuperar os sonhos perdidos, sonhar é preciso, e fazer valer nosso sopro.

sonhar, pois é preciso!

Na margem, em travessia, reconhecer o significado de ser – e estar sendo.  Temos a tarefa com o nosso sopro vital de pintar céus coloridos e outros sentidos possíveis,  alargando as subjetividades e, como menciona Luiz Rufino: “frear o desencanto”. Dessa forma,  para que a chama dos sonhos permaneça acesa, precisamos esperançar, é uma necessidade do nosso tempo, marcado por tanta tristeza e desencanto. Rechaçar a má sorte! Aprendizagem de um outro tempo. É preciso desver o mundo, para transver um novo mundo!  Assim, nosso sopro de vida, canto – encanto será marcado por: “ um sorriso no rosto e os punhos cerrados que a luta não para”(VAZ, 2011, p.15).

REFERÊNCIAS.

LISPECTOR. Clarice. Um sopro de vida. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

SIMAS, Luiz. Pedrinhas Miudinhas: ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros. Rio de Janeiro: Mórula, 2019.

SIMAS, RUFINO, HADDOCK-LOBO. Arruaças: uma filosofia popular brasileira. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020.

VAZ, Sérgio. Literatura, pão e poesia. São Paulo: Global, 2011.


[1] Sérgio Vaz, Literatura, pão e poesia, 2011.

[2] Luiz Rufino, Arruaças, 2020.

[3] Ailton Krenak, Ideias para adiar o fim do mundo, 2020.

Pâmela Bueno Costa, professora de filosofia na rede estadual e particular de ensino – SC. Graduada em Filosofia. Pós-graduada em Ensino da Filosofia. Mestre em Ensino da Filosofia PROF-FILO. Cursando terceiro ano de Letras: Português/Espanhol (UNESPAR). Ilustradora amadora e aprendiz de aquarela. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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