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Luminescência: vamos falar do sujeito amoroso ou de Clarice Lispector?

 Por Karine Bueno Costa

UNICAMP] Análise do conto “Amor“, de Clarice Lispector

O amor inicia com uma vírgula e termina com dois pontos: é um  “encontro consigo mesmo em face do outro”. Uma busca interminável e incessante. Dessa maneira,  é Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres,  de Clarice Lispector, ao iniciar com vírgula e terminar com dois pontos, aliás, assim é a leitura de qualquer texto dela, uma intermitência: uma luminescência. 

O primeiro livro que li de Clarice foi A hora da estrela, comecei pelo fim, pelo último escrito dela,  um choque de experiência, de reflexão,  que me fez perceber o quanto a escrita ultrapassa nossa  vã filosofia. Depois, ainda na adolescência,  veio Felicidade Clandestina, para mim, de total epifania, mas, um dia,  Água Viva chegou em  minhas mãos, aí sim eu não era mais uma menina com um livro, era uma mulher com seu amante.  Desde então,  passei a devorar tudo que remetia à Clarice, foi, então, no meu “amadurecimento literário”, que me senti preparada para a aprendizagem, enfim,  para  Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. Literalmente,  um mergulho na liberdade humana.

 A priori, Roland Barthes, em 1977, disse que o discurso amoroso era  de extrema solidão, isso teorizado décadas atrás. Para ele, Werther era o puro discurso amoroso, afirmação antes da era de aplicativos de encontros e redes sociais. Hoje, talvez os apontamentos seriam ainda mais drásticos, similares como os de Zigmunt Bauman, em O amor líquido. Ou seja, a fluidez nas relações modernas tornam tudo rapidamente descartável e por serem rasas e superficiais,  nada é profundo e, com o tempo, facilmente deletável. Em contrapartida, há uma necessidade profunda do ser humano ser e se sentir amado.  Não se sabe explicar como acontece, se por genética, química ou, quiçá, destino astrológico, mas a paixão surge no momento de maior descuido, na distração do acaso. Assim,  somos Werthes, contudo, na era da liquidez, não há profundidade nas relações humanas, porque entre liberdade e segurança, como diz Bauman, optamos sempre pelo seguro de uma tela, pelo raso e imediato, desse modo, não se vive mais o amor em estado de solidez, porque seria abrir mão de todas as outras possibilidades fluidas.  

A posteriori, Clarice, deixou um tratado filosófico sobre como se desfazer dessa liquefação. Lóri e Ulisses são personagens que nos apresentam as maiores fragilidades humanas e como sobreviver  à modernidade líquida.  Nesse sentido, nada no mundo  tem um início e nem um fim, nesse prima, uma vírgula aponta  início, como uma triqueta celta, há um gatilho, mas não se sabe onde. Assim, inicia-se a trajetória de Lóri, personagem que vai viver uma travessia e descobrir o sentido da liberdade e do amor, mas, para isso, necessita estar pronta e só o tempo, o  silêncio e a solidão  lhe ofertarão isso, coisas quase  impensáveis para as relações modernas.

Quando conhece Ulisses, ele parece uma espécie de mestre, pois já está no caminho da travessia, contudo, Lóri possui um obstáculo para prosseguir, ela mesma:

Ulisses estava atento, imóvel. Lóri continuou:

— Parece tão fácil à primeira vista seguir conselhos de alguém. Seus conselhos, por exemplo. Já agora ela falava sério:

— Seus conselhos. Mas existe um grande obstáculo para eu ir adiante: eu mesma. Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho. É com enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma.

Ela jamais falara tantas palavras em seguida. Por isso queria evitar o principal. De repente porém notou que se não dissesse o final, nada teria dito, e falou:

— Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes, por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece (LISPECTOR,  1998, p. 53).

À guisa dessa reflexão, viver é um ciclo interminável: “Sei que não começamos pelo começo, já era amor antes de ser”. Portanto, a experiência de Lóri é a busca de si  mesma e Ulisses é a luz que a guia nessa travessia cíclica.  Não se sentem prontos para serem um do outro, são seres inacabados, que precisam aprender, primeiramente, a serem só, por isso o discurso amoroso barthesiano é de extrema solidão. Lóri mergulha profundamente no seu ser para responder às suas perguntas existenciais: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Enfim, um grande processo de aprendizagem, em que Ulisses, professor de filosofia,  será o mentor, e o tempo construirá entre eles a intimidade e o amor, apesar de: “E umas das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente” (p.26). Na travessia de preparação, o momento epifânico chega, quando Lóri resolve encontrar o mar e mergulhar em sua liberdade de ser: encontrar a si mesma. 

Ao invés de encontrar-se com o mar, bebe a água salgada originária e bebe os dois, faz a travessia e está pronta. Depois disso, consegue afirmar a Ulisses:  “Não encontro uma resposta quando me pergunto  quem sou eu? Mas acho que agora sei: profundamente sou aquela que tem a própria vida e também a tua vida. Eu bebi a nossa vida” (p.158). E, Ulisses  a adverte a não ousar fazer essas perguntas,  com uma pergunta ainda mais significativa ao humano:

  • Amor será dar de presente a própria solidão, pois é a última que se pode dar de si, disse Ulisses. 
  • Não sei, meu amor, mas sei que meu caminho chegou ao fim: quer dizer que cheguei à porta de um começo.
  • Minha mulher, disse ele.
  • Sim, disse Lóri, sou mulher tua (p.158).

Por fim,  em atmosfera de milagre, para Lóri e Ulisses sofrendo de vida e amor, há o fim e o começo, os dois pontos (:) como final, um laço humano, possível  na entrega da própria solidão, como a Psique, em uma liberdade maior, para entregar-se a Eros. Um encontro consigo mesmo, com força tântrica e  epifânica,  em face do outro: luminescência. 

Karine Bueno Costa

Professora de produção textual no Colégio São José-PU. Graduada em Letras: Português/Espanhol. Pós-graduada em Língua Portuguesa e Literatura. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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