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Encontros virtuais de leitura: palavras que aproximam

Por Gisele de Souza Gonçalves

Clubes de leitura on-line e lives reúnem amantes das letras na quarentena

Dezembro chegou, está aqui para confirmar a dimensão da pandemia que muitos duvidavam ou ainda duvidam. E que ano para aprender: 2020 foi o ano que nos surpreendeu. Mas nem quero dizer sobre tudo que 2020 significou, porque foi intenso demais para relatar em um breve texto e, além disso, é cedo para percebemos o que de fato estamos aprendendo. As nossas memórias serão mais fiéis ao que estamos vivendo do que as minhas prematuras palavras.

Quero aqui dizer sobre o “encurtar distâncias”, que a pandemia mostrou ser capaz de acontecer, embora fosse possível mesmo antes dela. Antes deste período, nós pouco usávamos este encurtador: a tecnologia digital para encontros remotos. Se aulas remotas têm suas desvantagens, exaustão e exclusão; encontros virtuais menos formais alcançaram uma dimensão bem mais simples: encontrar gentes boas distantes por algumas extensões. E é sobre isso que aqui escrevo, considerando as experiências que tive: encontros virtuais de leitura.

As rodas de leituras – não mais em rodas – mostraram o quanto a literatura é uma parceira neste período, mas não só ela, como também a leitura e conversa sobre os textos. Geralmente esses encontros virtuais começam com mais participantes do que terminam, afinal, o formato remoto tem cansado a rotina atual. Aulas e reuniões de trabalho exigem foco maior, considerando que, em casa, há um mundo de sons incontroláveis, como latidos, miados, “mãeeee”, “paiiii”, carro de som, buzinas…, onomatopeias que nem preciso escrever, porque cada pessoa lembrará de momentos em que o microfone aberto permitiu identificar os mais diversos sons do nosso e do ambiente do outro. Tem ainda a necessidade da atenção redobrada porque outros fatores de compreensão que o emissor e o interlocutor utilizam em situações presenciais são reduzidos à distância: um olhar, um sorriso e variados gestos já não são mais tão perceptíveis como eram antes das atividades remotas.

Mesmo assim, a literatura – por meio desses encontros – fez uma diferença na vida de quem pôde participar de “rodas” de leituras e contar suas experiências e memórias ali trazidas e compartilhadas. Gente do campo e da cidade, de norte a sul do Brasil, homens e mulheres, muitas vezes, participando com o filho no colo. Gente que aprendeu com o outro, que chorou, que sorriu, que compartilhou. O ser humano – especialmente aquele em distanciamento social – encontra meios de se encontrar ainda que não integralmente. Nesses grupos de leitura de formato remoto foi possível encontrar pessoas cujas afinidades foram identificadas, angústias compartilhadas, autores e autoras descobertos e leitoras e leitores potencializados. Enquanto estamos em pandemia, para alguns, é uma opção de conhecer outras vivências, compartilhar leituras, sugerir obras, emocionar-se, não estar sozinho e encontrar pessoas que, mesmo depois da pandemia, manterá contato. Acredito que muitos de nós têm sentido falta da comunicação presencial e dos momentos com gente que traz um café para a/o colega, sorri, compartilha risadas sem muitas explicações e abraça ao chegar. Gostamos dessa presença, especialmente quando a reunião é uma “aula”. E, aproveitando o saudosismo, que saudade de aglomerar em sala de aula! Mas essa é uma vontade que pode esperar.

Muitas vezes, sentimos uma certa decepção com a realidade, especialmente, neste período pandêmico em que as mais tristes realidades são descortinadas, o fato de conhecer algumas pessoas maravilhosas, em encontros remotos semanais e/ou mensais, fez um bem para os meus dias. Em alguns momentos, parece que a humanidade nos decepciona, talvez a pouca diversidade de pessoas que temos em nossa convivência favoreça esses momentos de decepção, porque esquecemos que, no mundo, há gente “do” bem e não é pouca, é gente que antes nós não conhecíamos e que, muitas vezes, também pensa que está sozinha. O mundo é diverso e falta só atravessarmos as pontes, quebrarmos os muros e ouvir o que as pessoas têm a dizer, seja nos livros ou nas “rodas” remotas que, mesmo não sendo rodas no sentido do formato, são círculos onde podemos dizer sendo respeitados, o que nem sempre os muros imaginários nos permitem.

O momento nos deixa mais sensíveis, em alguns desses encontros de leitura, depois de ouvir o relato, o conto, a carta ou a poesia, era comum todos se emocionarem e depois contar o porquê daquele riso ou choro. Tempo curto, espaços distantes e conectados, essas salas virtuais de leitura fizeram a diferença para aqueles que puderam vivenciá-las. Para quem não participou, se puder, é uma boa experiência. Ler faz bem, ouvir alguém ler faz bem demais, pensar sobre o que está escrito é maravilhoso e a humanidade pode nos surpreender, mesmo vivendo momentos em que nos decepcionamos com algo.

Quero relatar aqui uma noite em que acessei ao link de um desses encontros e a mediadora começou a leitura, que sensação boa. Sua voz tão marcante foi ganhando não apenas a minha atenção. O marido acompanhou, a filha veio do quarto seguindo aquela voz que esteve em nossa casa por algumas noites, trouxe palavras e um alívio bom de quem prestigia a beleza da vida. O texto era tão belo que a própria leitora se emocionava mesmo conhecendo tão bem aqueles trechos já lidos antes. A humanidade tem sim sua beleza, mas precisamos olhar para o lugar que nos proporciona tal encantamento, assim quando tivermos momentos de desencanto, saberemos que estes não a representam por completo.

Sigamos, porque o ano acaba, mas a pandemia continua e é preciso cuidar da gente. Feliz “um dia de cada vez” pra todas e todos nós!  

Gisele de Souza Gonçalves. Professora e Doutoranda pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Mãe.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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