Ir para conteúdo

Entre devaneios e paixões: Noite de boêmia!

Por Eliane de Fátima Camargo

O deus Sol, com toda sua majestade, no horizonte vai se escondendo. Aos poucos a deusa da escuridão se aproxima, estendendo sua cabeleira negra e sua face cheia de ousadias. Seus contornos: uma dança provocante. Sua boca: um chamego com  palavras poéticas. Em sua molequice, quebra padrões. Vaidosa, sussurra aos meus ouvidos:

Ainda que seja tarde, é noite,

e tu não podes.

Canta como se não fosse nada.

Não é nada.[1]

A noite possui vestes mágicas. Vestes que desnudam a existência humana. Desnudam a realidade dolorosa. Qualquer lugar, o mais simples que seja, se torna inebriante, quando tocado pela deusa da escuridão. As pessoas parecem mais felizes, mais apaixonadas, mais envolventes. Não é a toa que foi esse horário, o escolhido pelas boêmias e boêmios. Aqueles que amam a vida e se aconchegam com a poesia.

Amar a vida, em meio a tanta tristeza que a pandemia trouxe, me parece um ato poético/anarquista. Mas sem romantizar ou tirar o peso tão cruel da doença e seus efeitos sociais; amar, sonhar e ter esperanças neste momento é ainda mais revolucionário. É minha gente, quantas pessoas tiveram suas vidas interrompidas por esse vírus. Por isso, devo perguntar-lhes: – o que seria de nós, sem amor, sem paixão, sem sonhos? – Sem a pretensão de criar uma resposta para vocês, respondo a mim mesma: – São eles que dão significado à nossa existência, porque a realidade nem sempre condiz com o mar de rosas que estamos tão acostumados (as)  a postar nas redes sociais. Ah! a realidade pode doer muito.-

Não é de minha vontade, estimular as leitoras e leitores ao uso do álcool, uma vez, que já senti na pele o quanto ele pode ser destrutivo, mas esta noite o corpo pediu. E, eu sem hesitar, ouvi seu chamado. Assim, ao som do meu amado Fagner, que ao longe me embalava com sua voz rouca, me coloquei a reler um livro: Noites Brancas, de Dostoiévski e ali perdida em meus pensamentos, atordoada pela cachaça e tomada pela escrita lírica do autor, me permiti aos devaneios.

De repente me vi no lugar de Nástienka, parada no alto de uma ponte, esperando alguém que não voltaria. Ao meu lado, um jovem, também solitário, se colocou a falar de suas angústias e seus sonhos. Fiquei ali, parada, sem ousar dizer uma palavra, apenas ouvindo suas lamúrias. Pela confiança de sua fala, parecia que eu o conhecia a anos.  O jovem inquieto, falava sem parar. Aos poucos, sua voz foi se perdendo em minha cabeça. Lembro vagamente que disse algo para ele, o qual me replicou: “Agora em minha cabeça ligaram-se mil chaves e preciso dar vazão a um rio de palavras para que eu não sufoque.” [2]

Já não sabia, se da sua voz saltavam palavras do livro de Dostoiévski, se eram suas lamentações ou se eram minhas as dores refletidas em seu sofrimento. Me contou de seu amor por uma pessoa, que tomou anos de sua vida e que por alguns momentos pensou que ela o amasse também. Um amor, muito diferente do que viveu até então. Que não se deu em encontros, mas em desencontros que a vida lhe trouxe. Ouvi tudo aquilo com estranhamento, me perguntando: – Como poderia existir um amor em desencontros? Não seriam nos encontros que ele se constrói?-

Ah minha gente, amor e paixão fogem às explicações racionais. Eles nos tomam sem aviso. Não têm idade ou classe social, escapam às convenções sociais. Como o personagem de Noites Brancas, que se apaixonou em quatro noites, apenas conversando com uma desconhecida, cujo os encontros, a principal condição era não se apaixonar. Ilusão! O destino é cheio de travessuras. Sentir não se condiciona, sentir, por si só, se impõe.

De  carcaça estendida no sofá e com alguém me sacudindo, fui chamada de volta a realidade. Ao longe, ainda ouvia a voz de Fagner, cantando: Retrovisor.  Aos poucos me tornava também parte da melodia, nesta letra que diz:“Alguém sentado à beira do caminho jamais entenderá o que é que eu sinto agora, sou levado pelo movimento que tua falta faz”.  De volta de meu estado de embriaguez e de minhas fantasias ficcionais, levantei e arrisquei escrever alguns versos. É com eles que termino este texto e para além dele, o meu desejo: um brinde aos sonhos, as paixões e a vida poética…

 Nó na garganta, é silêncio.

É choro que não posso chorar.

Mais um copo!

o álcool desce, rasga a garganta

Desata o nó,

Mas lembra você.

O nó é você.

Mais um copo!

Me desmancho,

Dou vexame!

É o último… é sempre o último…

A saideira, a última vez!

Não é o último, nunca é a última.

Quando terá fim?

Hoje sou isto, apenas isto

Um copo, meio cheio

E, uma alma vazia.


[1] PIZARNIK, Alejandra. Peço o silêncio. In: Os trabalhos e as noites. Trad. Davis Diniz.- Belo Horizonte, MG: Relicário,2018,p. 81.

[2]DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Noites Brancas. Trad. Robson Ortlibas. – Jandira, SP: Principis, 2019, p. 30.

Eliane de Fátima Camargo, Graduada em Filosofia e Sociologia. Mestranda em Filosofia. Feminista. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

Eliane Camargo Ver tudo

Muitas em uma só.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: