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Novembro Negro para fazer ouvir e mais 11 meses para falar!

Nesta terça, às 19h, tem reunião para preparar as atividades do Novembro  Negro do Sintrajufe/RS

– Eu escolhi esse curso porque já tenho experiência em cuidar de criança, amo muito, e imagino que vai ampliar meus aprendizados e meu campo de trabalho. Quero poder ajudar minha família a ter uma vida melhor.

– Ah que legal!! E você trabalha onde?

– Em casa de família, sou babá.

E naquele momento eu ressignifiquei o conceito de “Universidade”. Eu estava diante de várias estudantes negras, todas com sonhos e experiências pessoais, dispostas a enfrentar o mundo para abrir sorrisos em abraços com lágrimas. Sendo professora dos cursos de licenciatura, numa universidade em que 83,4% do corpo discente se autodeclara negros e, 63%, do sexo feminino, a minha tarefa é, antes de qualquer debate teórico, ouvir. São vozes silenciadas socialmente há mais de 500 anos.

Não há teoria educacional que se sustente se a escuta dos sujeitos não for o ponto de partida da prática docente. Não há uma teoria melhor do que aquela encontrada no interior de nosso cotidiano. Se não tomamos cuidado, perdemos o exato instante que a magia se une com a ciência para produzir o encantamento da nova aprendizagem. Sim, podemos nos dar conta mais tarde… se nos afetou, está registrado na memória. Mas… levanta a mão quem nunca viu aquela lâmpada se acender, acima da própria cabeça, no momento em que ouve uma resposta/frase que impacta todas as verdades que você jurava que já sabia?! Pois, é isso, estou pensando nesses instantes que tenho quando ouço mulheres negras. A cada escuta que me toca, minha cabeça entra em ebulição.

Na primeira vez que ouvi uma companheira feminista negra contar sobre sua vida, ela dizia: “eu aprendi que o racismo no Brasil é velado e sutil, que a gente não percebe. Mas comigo ele sempre foi doloroso, nunca foi velado, eu sei identificar todas as vezes que ele me machucou.” Naquele dia, ouvir sua história me ensinou um novo conceito de racismo e ressignificou a máxima “pra falar de mim, primeiro calce meus sapatos e ande por onde andei.” O racismo é sentido. Nossas emoções, diante de situações (a)diversas, mandam mensagens para todo o nosso corpo e, este, registra sentimentos, crenças, reações e escolhas (dentro do que é possível escolher). De modo geral, podemos não saber falar de elaborações e sínteses acadêmicas sobre o conceito e funcionamento do racismo, mas isso não é a mesma coisa de não saber falar sobre o que sentiu diante de práticas racistas.

Uma sociedade estruturada sob os moldes coloniais vai imprimir no interior de suas micro relações, valores que perpetuam a hierarquia racial. Todas as pessoas aprendem a se sentir com o racismo. Se seu corpo é negro, ao longo de sua vida você vai sentindo onde não deve estar, ao mesmo tempo que, se seu corpo é branco, você vai sentir, ao longo de sua trajetória, como é possível estar em qualquer lugar. Inferioridade e superioridade são sentimentos elaborados pelo sistema de crenças que nosso corpo registra ao longo de nossas experiências afetivas (aquilo que nos afeta).

Nesse período de pandemia, mainha começou a ler o livro “Eu, empregada doméstica” da Rapper e Professora de História, Preta Rara. Esses dias eu estava preparando o almoço e ela chegou pra comentar: “Eu ‘tô’ lendo a história da Professora, ex-empregada doméstica e lembrando da minha. Quando eu percebia que o patrão queria abusar de mim, eu logo inventava uma desculpa pra sair do emprego. A mesma coisa era quando eu trabalhava de garçonete, a gente ganhava pouco e só recebia gorjeta no dia do pagamento se fosse receber o dinheiro pessoalmente, porque ele queria mais coisa. E assim fui mudando de trabalho, tendo que inventar história para as patroas, porque se eu contasse a verdade ainda teria a coisa de ouvir que fui eu quem me ofereci. E tinha a fama de que não ficava em casa nenhuma, que reclamava de todo patrão, até eu passar em um concurso e mudar de cidade.”

Eu ouvia e explicava como isso é muito da lógica colonial enraizada na nossa mentalidade, que classifica os corpos negros como corpos inferiores, portanto com menos valor, e se são mulheres, aí é que vão ser exploradas para além da força de trabalho. O patrão sempre acha que é um favor sub-empregar uma menina negra que, no seu imaginário, já está perdida na vida (só por ser negra), então o abuso sexual faz parte do “agradecimento”. As pessoas não problematizavam essas explorações, mas reforçavam o discurso de ‘negra preguiçosa’, ‘não gosta de trabalhar’, ‘quer boa vida no mole’ etc quando veem a mudança constante de trabalho. E mainha fechava com chave de ouro: “E tu quer saber? A gente fala a mesma coisa quando vai colocar alguém pra trabalhar dentro de casa.”

Susto? Não! Só está aqui a atualização do conceito de racismo estrutural. Se a gente não ouve a voz dos povos colonizados, a narrativa do colonizador vai ser sempre a reproduzida como a verdadeira, entre nós também. É o que Chimamanda Ngozi Adichie alerta sobre o perigo da história única. Ela se repete na escola e na igreja, no partido político e na mídia inclusive. Mainha precisou ouvir/ler uma outra igual para perceber como reagimos, involuntariamente, aos processos de regime trabalhistas. Precisou se vê nas fontes de conhecimento sistematizado para localizar a si e os contextos de reprodução estrutural do racismo. Nos ouvir ou ler nossas narrativas inauguram a escrita politicamente acadêmica em primeira pessoa, o que, concomitantemente, denuncia que falar em terceira pessoa nunca foi neutralidade no campo científico.

Não há debate de classe social que se sustente se não tocar no que as mulheres negras vivem sobre o efeito do capitalismo-colonial. Grada Kilomba explica em Memórias da Plantação, que ficou por 5 anos na universidade sendo a única negra no departamento de Psicologia. E por vezes, emaranhada nos conflitos que envolviam intelectualidade, competência e instituições brancas, sondava a sua cabeça a vontade de desistir do projeto de tese, como fizeram outras pessoas negras de sua época. Crescemos em um mundo em que não nos vemos com tranquilidade PARTICIPANDO das instituições sociais (diferente de representando). Atualmente, de acordo com o IBGE/2019, 56,10% da população brasileira tem conseguido ver seus iguais em Instituições de Ensino Superior porque elas estão interiorizadas e, também, porque cumprem a Lei de Cotas Raciais. Isso gera desconforto e esperança (o modo racista de o Brasil ser democrático).

Carolina de Jesus foi até à mãe pedir o endereço de Deus porque queria reclamar a Ele um mundo só para os negros, já que esse era dos brancos. Ela percebeu desde cedo que a branquitude não soube organizar a sociedade respeitando às diferenças. Eu, na tarefa de afiar o cotidiano com sensibilidade, repito que é do encontro com as mulheres negras que reorganizo melhor o contato com os uni-versos. Minha sobrinha vive me perguntando: “Titia, qual é o seu maior sonho? O maior de todos, maiorzão…” Eu sempre fico pensando, pensando, sem resposta… brinco e falo que é o de padaria com recheio de creme, mas não por falta de sonhos, é por não saber eleger a prioridade que me faz sorrir. É tudo tão bem costurado em nossas órbitas. Não quero ter uma cartilha ou escola teórica para seguir, não quero me integrar. Sou professora para aprender. Quero existir junto com o sorriso das pequenas, com a paixão das mais jovens, com a coragem de minhas mais velhas… porque somos tantas e de todos os jeitos, nos ensinamos a sonhar o tempo todo. Na oportunidade dessa escrita deste Novembro Negro, quero me sentir no direito de fechar os olhos sorrindo sob o toque das mãos carinhosas, essa paz me contempla.

Maicelma Maia Souza é Professora, Psicopedagoga, Pedagoga. Mestra e Doutorando em Educação. Coordenadora do Programa de Extensão CAfUNé – Cozinha dos Afetos para Universitárias Negras. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

Um comentário em “Novembro Negro para fazer ouvir e mais 11 meses para falar! Deixe um comentário

  1. Um texto potente e necessário!. Que narrativa maravilhosa. Suas reflexões nos tiram do lugar comum e nos lançam em águas profundas do conhecimento. Parabéns pela maestria na condução de argumentos e experiências/vivências tão fortes. Abraço!

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