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Sobre um mundo que já não está mais lá

Por Paulo Cesar Jakimiu Sabino

Capacidade de Mudança Organizacional - Blog Prosci no Brasil

Companheiro, não se assuste

Muda seu querer, muda seu pensar

Seu jeito de ser, seu jeito de amar[i]

O ano de 2020 foi, sem dúvida, um tempo de mudanças. Tivemos de nos adaptar a uma série de novas circunstâncias, abdicando de um estilo de vida “normal” – embora, para alguns, a pandemia pareça ter acabado. No entanto, isso não invalida a premissa básica de 2020: mudar é preciso!

Assim é, assim foi 2020. Ora, se isso é verdadeiro, então me pergunto: por que não adotamos a mudança como uma característica elementar de todo ser humano? Mudam-se regimes políticos, sistemas econômicos, a moda, as formas de entretenimento, as regras de um jogo, em suma, mudam-se pessoas. Qual o motivo de tanta insistência em permanecer fiéis a algum princípio, a algum estilo ou forma de pensar? Mudar sempre foi preciso, o mundo só é o que é em decorrência da mudança. Essas transformações obrigaram a humanidade a criar e a se reinventar constantemente, dia após dia. Foi assim que enfrentamos, ou melhor, estamos enfrentando esse ano tão penoso. Continuamos aqui, sobrevivemos, vivemos.

Caro leitor, se a premissa é verdadeira, qual motivo de querer ser o mesmo? Seja outro, reinvente-se, e verá que a mudança é bem menos dolorosa. O sabor é doce e permite rejubilar-se no devir. Para mudar, entretanto, é necessária uma condição. Sempre falamos sobre “pensar diferente”, o que não se fala é que o pensamento não muda pelo pensamento. A lógica do pensar não se transforma através da aplicação de uma nova teoria. Apenas a experiência de um profundo sentimento pode provocar a transformação. Se quiser pensar diferente, antes é indispensável sentir diferente. Aqui está o meu ponto: não mudamos por medo, pois esse é o sentimento norteia nossa vida atualmente. O medo de não pertencer mais a um espaço privilegiado, de disputar algo que antes era tido como certo. Medo do que irão pensar de mim, do que irei pensar de minha pessoa. É o medo de arriscar viver.

Ao invés do medo, insisto na coragem. No desapego dos valores ultrapassados. Durante os últimos anos nós presenciamos o levante de grupos que antes estavam – ainda estão – à margem da sociedade. As assim chamadas “minorias”. Sentimos o status quo social ser abalado, pois, agora, precisávamos não mais “conviver” com essas pessoas, isso já fazíamos. Era preciso aceitar que estes ocupariam o mesmo espaço, gozariam dos mesmos privilégios que antes eram reservados a nós. Os grupos LGBTQ+, mulheres, povos nativos, e todos os oprimidos resolveram se levantar, resolveram gritar, resolveram lutar. Essa ação, vejam só, transformou o mundo. A mudança é um processo que não se encerra. Cabe a nós reprimir o mal-estar gerado pela “perda”, ou nos alimentar desse processo criativo, nutrirmo-nos com o que essa mudança trouxe de bom. Ser outro.

Devo adverti-los: o contrário não é bom. O mal-estar nos corrói por dentro. Causa sofrimento físico e psíquico. Fomenta o ódio. Será a estirpe daqueles que dominaram tão limitada? Incapazes de abandonar um padrão? Não se trata aqui de querer manter as coisas. Obviamente isso é mais cômodo. A questão é totalmente outra: não se pode escolher mudar, pois o devir não pede permissão para atuar. Logo, as opções não são mudar ou não mudar, mas sofrer ou não sofrer.

É preciso cumprimentar o eterno vir-a-ser das coisas. Querer manter a chamada sociedade “patriarcal, branca e héteronormativa” é tentar cessar uma forte correnteza que destrói e está destruindo valores. O medo é, inicialmente, normal, mas depois é apenas sustentado por um sentimento nostálgico, sobre um “mundo que era melhor”. A nostalgia, apesar de um alimento interessante ao espírito, é extremamente perigosa e infrutífera. Afinal de contas, se o mundo era melhor, era melhor “para quem”? Alguém poderia encontrar aí uma explicação: o homem branco e hétero tem receio de sofrer as mazelas antes restritas aos oprimidos. Algo insustentável, a mim parece, pelo menos. Muito mais razoável é admitir que o medo não é em sofrer as opressões, mas em perder o domínio – dominar causa prazer, e é sempre bom sentir o prazer.

Esse domínio está ultrapassado. Muito melhor é o conflito sempre atuante no jogo da vida que não aniquila o outro, mas que nos permite partilhar as experiências. Há outras formas de prazer. Existem outras possibilidades. Por isso, caro leitor, gostaria que esse texto fosse encarado como uma experiência, não como um ensinamento – afinal, o que tenho eu para ensinar. Este é meu convite a algo novo. Perca o medo, deixe de sofrer por algo que não se pode evitar. O “novo mundo”, proporcionado por todos aqueles que estavam cansados do estado atual das coisas não é ruim, ele só é diferente. Mas acostumamo-nos a tudo e fazendo isso não estaremos tentando impedir uma luta digna e válida – me parece uma atitude mais digna.

Chega de tentar resgatar um mundo que se foi. É preciso escolher quem seremos: um agente do medo, um refém do medo, ou um vivo – que vive, que muda. Ora, viver é experimentar, é arriscar. É ter a certeza que o amanhã será diferente do hoje, é querer que seja diferente do hoje.

Viver é isso aí.


[i] Trecho da música “Reggay” do grupo de reggae Akundum, composição Mongol e José Alexandre. In: AKUNDUM. Intérprete: Akundum. Rio de Janeiro: MZA Music, 1996, 1 Disco, Faixa 2 (3min43seg).

Paulo Cesar Jakimiu Sabino, Mestre em Estética e Filosofia da Arte pela UFOP e Doutorando em Filosofia na UFPR. Entusiasta de literatura russa. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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