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Maria das desgraças

Por Bruna Gabriela Domingues

Caminhos da Alma: Maria Desgraça.

primeiras inquietações, ou, bomba de efeito mor(t)al:

A tua vontade de liberdade e direito a não ter medo,

acolhe mulheres pretas, indígenas, empregadas,

prostitutas, mendigas e transsexuais?

gostaria que o fato de ser mulher não doesse tanto.

gostaria de ser menos romântica…

gostaria que o único sangue aceito pela sociedade

fosse ser o do meu fluxo sagrado e não o da violência.

gostaria que meus versos servissem para alguma coisa,

que salvassem vidas…

[pausa]

lhes apresento maria:

maria das desgraças não tinha luz própria, nem casa própria,

na calada da noite acendia as estrelas

e o peito gritava as dores do mundo

(que ninguém ouvia!).

nome de santa, ofício de puta

por que é maria, que o povo lhe atira pedras

ao invés de ver tua luta?

maria das desgraças via gente falando de luz,

gente estudada, gente falando de cultura, de política,

de mais “amor, por favor”,

de poesia e outras coisas que ela não entendia,

mas o que ela realmente não compreendia

era por qual motivo essa gente versada e iluminada

não agia para acabar com a fome e as injustiças,

afinal, quem ouviria maria?

maria das desgraças não sabia ler e escrever,

mas sabia o valor e a importância da palavra educação,

porque para ela, isso estava ligado a palavra resistência

 herdada de outras e tantas outras marias.

maria das desgraças tinha alma escura, mas enxergava a dor dos outros,

não rezava, não meditava,

equilíbrio para ela era almoço num dia e janta no outro.

fé ela tinha de que as coisas uma hora melhorassem.

sagrada, maria das desgraças não foi para o céu,

 tentou fazer o paraíso na terra.

hoje esses versos me salvaram: meu coração é maior que meu medo.

(ah! minha querida Nina Simone: fui livre por um segundo!)

minha poesia é minha força a(r)mada!

Bruna Gabriela Domingues, Professora de filosofia da rede estadual de ensino de Santa Catarina. Graduada em filosofia. Mestre em Ensino de Filosofia (PROF-FILO/ UNESPAR). Poetisa amadora, feminista, revolucionária e apaixonada.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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