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O balanço ia e vinha no galho da macieira

Por Marcela Wengerkiewicz

Balanço infantil: Qual o melhor modelo em 2020? | REVIEWBOX

O balanço ia e vinha no galho da macieira.

Observava a criança a correr solta naquele parque, construindo castelos de areia imaginários.

Infinitas possibilidades a trilhar naquele par de pés descalço.

A vida ainda lhe sorria de volta.

Observava e lembrava-se dela mesma naquela idade.

Alguma vez sentira-se tão livre?

Da criança que foi recordava-se confundida, pela implacabilidade do tempo, pelos sussurros das memórias já desconexas e tingidas pela experiência. Lá, quando pequena, falava sozinha e, às vezes, ouvia as respostas que remontavam a mundos de fábulas. De fadas. De distâncias percorridas em apenas um pulo. Da varanda via o mundo, e o invertia, desconstruía o tempo, a gravidade, nos pés de laranjeiras que testemunhavam os segredos e os gestos e as lembranças. Desinventava objetos. Criava palavras em seu próprio idioma. Ouvia o ruído permanente de sorrisos. As cores e aromas eram expandidos. Tudo tinha gosto de novo. A infância tinha cheiro de grama, de bolo de chocolate saindo do forno, de manhã de sol na casa da avó.

Fora plena na criança que foi.

Voltou a si.

Céu aberto.

A pequena brincava agora em poças de água. Parecia delirante. Imersa da satisfação que a simplicidade em espirrar água trazia.

Em si, o que vivia agora, calava. Não soube se defender de palavras, de mágoas. Não pode dizer coisas amáveis. Comedida. Quantos epitáfios líricos já deixara a si mesma em vida. Não conseguia precisar o perder do fascínio e o início de todo o resto. Não achava significado para propósito. É isto e nada além: um dia, certo dia, seja de vento sul, seja em uma quente tarde de dezembro, pedaços de nós se desvanecem. Pessoas morrem na gente. Nós nos deixamos ir. E simplesmente esquecemos promessas de nunca esquecer, que um dia o junto foi de verdade, que foram compartilhados versos e gestos sinceros. Esquecemos de nos sentir.

Seguimos.

Ah se aquela vida recém-iniciada apenas soubesse…

Sua saia balançava ao vento, seu cabelo desafiava todos os olhares. Vivia. Sentia. Permitia-se.

Resista, pequena.

Marcela Wengerkiewicz é Graduada em Letras português/inglês pela Universidade Estadual do Paraná, Campus de União da Vitória. Servidora do Ministério Público do Estado do Paraná. Contista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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