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Oito coisas que nos parecem muito modernas, mas que os romanos antigos já faziam

O Imperador Augusto, representado com o véu de pontífice máximo, em uma estátua do Museu Nacional Romano.
O Imperador Augusto, representado com o véu de pontífice máximo, em uma estátua do Museu Nacional Romano.HERITAGE IMAGES / GETTY IMAGES

Romanos já pintavam grafites, compravam comida de rua e difundiam ’fake news’…

Nós, os ocidentais, nos consideramos herdeiros, pelo menos em parte, dos romanos antigos. Fundaram muitas de nossas cidades, nossa língua vem do latim e inclusive estradas e rodovias, em muitos países europeus, foram construídas sobre antigas estradas romanas. Embora às vezes também nos sintamos, felizmente, distantes de muitos aspectos de sua cultura, como as guerras de conquista e as lutas de gladiadores. Como lembra ao EL PAÍS o historiador Néstor F. Marqués, quando examinamos os conceitos que existem por trás de algumas dessas manifestações culturais vemos que não é tão difícil encontrar paralelos entre muitas de suas atitudes e as nossas.

Reunimos algumas dessas atividades e costumes que podem parecer mais ou menos modernos, mas que já eram feitos, à sua maneira, pelos romanos da República e do Império. Com uma advertência do próprio historiador ouvido pela reportagem: não se deve cair no “presentismo”. Em outras palavras, uma coisa é comparar e estabelecer analogias para nos ajudar a entender melhor o passado (e nosso presente) e outra, bem diferente, é “introduzir nossos vieses” para justificar crenças e opiniões que nem sempre têm muito a ver com a história.

1. Pintar grafites. Deixar mensagens nas paredes “deve ter sido bastante comum nas grandes cidades”, nos contou Ana Mayorgas, professora do departamento de História Antiga da Universidade Complutense de Madri, com quem conversamos para um artigo sobre os grafites de Pompeia. Esta cidade tinha entre 10.000 e 20.000 habitantes quando foi sepultada pela erupção do Vesúvio no ano 79, e mais de 11.000 grafites estão preservados em suas paredes. Na verdade, o fato de essas inscrições serem tão frequentes, explicou Mayorgas, é um dos indicadores de que “amplas camadas da população tinham a capacidade de ler pelo menos algumas frases”.

E o que os romanos escreviam? Textos muito curtos e mensagens muito diretas. Além dos “Satura esteve aqui” e similares, há mensagens de cunho amoroso e sexual, anúncios de vendedores de barracas e lojas, bem como slogans eleitorais. Outro grupo importante é o da reprodução de versos conhecidos, especialmente da Eneida. Também havia algo bem ao estilo Tripadvisor clássico (“Pagarás pelos teus truques, estalajadeiro. Você nos vende água e fica com o bom vinho para você”). E Néstor F. Marqués aponta uma que o faz lembrar o Twitter: “Me admiro, parede, que você não tenha desabado, tendo que aguentar tantas bobagens escritas sobre você”.

2. Difundir notícias falsas. O historiador explica que algumas dessas inscrições nas paredes eram comparáveis aos boatos que vemos no mural do Facebook. Por exemplo, um desses grafites afirmava que “o sindicato dos ladrões e das prostitutas” apoiava um candidato às eleições locais. Talvez, como nos boatos atuais, muita gente não acreditasse, mas é claro que a difamação (e a zombaria) não são uma arma política apenas de nossa história recente.

Marqués é precisamente o autor do livro Fake News de la Antigua Roma e explica por telefone outros casos de destaque de campanhas difamatórias. Por exemplo, muitas das histórias que chegaram até nós sobre os imperadores, como os excessos de Calígula, Nero e Domiciano. Em geral, os imperadores assassinados eram demonizados após sua morte. Em vez disso, como Mary Beard escreve em SPQR, aqueles que conseguiam morrer na cama e organizar sua sucessão eram lembrados como generosos e devotados a Roma.

O professor lembra que a história é escrita pelos vencedores. Tanto Suetônio, autor de Vidas dos Doze Césares, quanto Tácito, autor dos Anais, trabalharam para o imperador Trajano. E que melhor maneira de fazer este imperador parecer bom do que falar mal dos anteriores? Por exemplo, Marqués conta que Domiciano, recordado como um tirano cruel, foi um imperador “muito eficiente, bom administrador, perfeccionista e justo”. A título de exemplo, as moedas de prata e ouro de seu reinado tinham 99% de pureza, o que significava que as contas estavam saneadas.

3. Organizar campanhas eleitorais. Já mencionamos que havia eleições: os romanos podiam se dedicar à carreira política e judiciária, com cargos sujeitos a eleições. Principalmente durante a República, embora durante o Império também houvesse votações anuais para cargos locais. Claro, não havia salário, razão pela qual só privilegiados podiam se dedicar a essa carreira.

De fato, custavam dinheiro. Marqués explica que os candidatos pagavam obras públicas, como a nova pavimentação de uma praça, por exemplo. Candidatar-se a uma eleição para cargos como pretor ou cônsul incluía um nível de generosidade que às vezes “nem sempre era fácil de distinguir do suborno”, escreve Beard, acrescentando que os políticos romanos contavam recuperar o que tinham investido (e algo mais) durante o exercício do cargo.

Cícero denunciando Catilina no Senado, em um afresco de Cesare Maccari (1899).
Cícero denunciando Catilina no Senado, em um afresco de Cesare Maccari (1899).

Algo semelhante a comícios também era realizado: as contiones, que eram organizadas antes das assembleias e nas quais os candidatos tentavam atrair o voto dos cidadãos com discursos e debates (Cícero fez seu segundo e quarto discurso contra Catilina em contiones, explica Beard em seu livro). Havia até “colagem de cartazes”, diz Marqués. Durante a campanha, os candidatos mandavam pintar slogans a seu favor nas paredes da cidade. Esses trabalhadores (ou seguidores) saíam à noite em grupos com diferentes tarefas: um deles caiava a parede, outro desenhava as letras e um terceiro segurava uma lamparina a óleo.

4. Admirar atletas famosos. Os gladiadores e, principalmente, os cocheiros de bigas e quadrigas (aqueles veículos antigos puxados por cavalos) eram admirados pelos fãs de jogos e corridas. O Circo Máximo, onde aconteciam corridas de quadrigas, podia acomodar cerca de 250.000 espectadores, em uma cidade de um milhão de habitantes no século I. O historiador especialista em Roma Antiga, que compara essas corridas à Fórmula 1, dá como exemplo Caio Apuleio Diocles, cocheiro lusitano cuja carreira esportiva foi gravada numa lápide erguida por seus admiradores. Diocles se aposentou tendo acumulado uma fortuna que, segundo algumas estimativas, o tornaria o atleta mais bem pago da história.

Juvenal (o mesmo que criticou o “pão e circo”) acreditava que os romanos admiravam demais os gladiadores. Um pouco como quando alguém se queixa da atenção que damos a Cristiano Ronaldo e Messi. Escreve com desprezo em uma de suas Sátiras sobre Eppia, a mulher de um senador que teve um caso com um gladiador chamado Sergio. Este lutador tinha um braço ferido e o rosto cheio de cicatrizes: “Mas era um gladiador! (…) Por isso o preferia aos irmãos e ao marido: é da espada que elas gostam”. Marqués acrescenta que os gladiadores eram vistos como pessoas diferentes e incríveis. Havia até lendas urbanas, como a de que seu sangue era afrodisíaco.

As ruínas do Circo Máximo.
As ruínas do Circo Máximo.ELIZABETH BEARD / GETTY IMAGES

5. Comportar-se como esnobe em relação a vinhos. Como explica Mark Forsyth em Uma Breve História da Bebedeira, os romanos foram os primeiros a se preocupar com a origem, a variedade e o ano de colheita dos vinhos. Marqués cita, por exemplo, um cartaz publicitário de uma taberna de Herculano no qual aparecem várias jarras, cada uma com um preço diferente de acordo com sua qualidade e idade.

Cartaz com publicidade de diferentes tipos de vinho, em Herculano.
Cartaz com publicidade de diferentes tipos de vinho, em Herculano. WERNER FORMAN ARCHIVE / GETTY IMAGES

Um dos mais bem avaliados era o do monte Falerno, perto da atual Nápoles, um vinho branco que era envelhecido durante dez anos. E a colheita mais famosa foi a de 121 a.C., o falerno opimiano, que leva o nome de Opímio, o cônsul da época (as colheitas eram designadas com o nome do cônsul, que mudava a cada ano). Supõe-se que tenha sido bebido por Júlio César (cerca de 60 anos mais tarde) e Calígula (160 anos depois). O poeta Marcial qualificou esse vinho de “imortal”, mas dificilmente seria algo tragável depois de tantas décadas. Na verdade, como Forsyth também conta, muitos dos antigos lacres de vinho eram provavelmente falsos.

6. Reclamar do senhorio. Os edifícios de apartamentos (insulae, ou ilhas) eram muito comuns em Roma. Como Mary Beard escreve em SPQR, eram “oportunidades de investimento atraentes para seus proprietários”. Como o próprio Cícero, que em uma carta comentou que um de seus edifícios estava a ponto de desabar e “não só os inquilinos, mas também os ratos” tinham ido embora. Segundo Beard, ele não escreveu isso envergonhado, mas com escárnio e superioridade.

Nesses edifícios, as moradias menos confortáveis e espaçosas ficavam nos andares superiores, sem espaço para cozinhar ou lavar. E, o que é pior, com uma rota de fuga muito difícil em caso de incêndio, algo frequente. Em outra de suas sátiras Juvenal escreve que a cidade “em sua maior parte se apoia em uma frágil viga, porque com ela o senhorio evita a queda e, uma vez que cobriu a abertura de uma velha fenda, nos aconselha a dormir tranquilos antes do desabamento iminente”. Embora as leis de moradia tenham mudado muito desde então, alguns lerão estas linhas escritas há mais de 1900 anos e se lembrarão do último remendo feito pelo senhorio: “Está como novo. Deixe um balde aqui para a água, não fale muito alto e melhor não abrir a janela à tarde. Mas está como novo”.

7. Comprar comida de rua. Os romanos que tinham boa situação podiam cozinhar e comer em casa; para o resto, como vimos na seção anterior, era mais difícil: no caso de querer algo que não fosse equivalente a um sanduíche, tinha de ir a bares e tabernas.

Termopólio em Pompeia.
Termopólio em Pompeia. PHAS / GETTY IMAGES

Além de sentar nesses estabelecimentos, em cidades como Pompeia e Herculano ainda estão de pé os termopólios, estabelecimentos onde se podia comprar comida pronta para viagem. Tinham um balcão com buracos nos quais eram colocados recipientes de barro com comida quente ou fria. Marqués lembra que ao meio-dia era habitual comer pouco e rapidamente na rua se, por exemplo, não havia tempo de voltar para casa. A refeição importante era o jantar (às cinco ou seis da tarde, ou às sete se fosse um banquete). Quem podia, certamente tirava um meridiatum, ou seja, uma sesta.

8. Ler um jornal. Um dos pequenos prazeres da vida moderna é sair para passear (agora, com máscara), comprar o jornal e lê-lo em um terraço, respeitando a distância de segurança. Até o século XVIII não havia jornais, mas os romanos tinham algo semelhante à sua disposição. Podiam se aproximar do fórum, onde todos os dias uma cópia da Acta diurna populi romani (os fatos diários do povo de Roma) era pendurada.

Na Acta, que alguns mandavam copiar à mão para enviar e distribuir em todas as províncias, havia propostas de leis, fragmentos de discursos e resumos do que aconteceu no Senado. A decisão de pendurar esse diário foi de Júlio César. Ele não o fez para aproximar as decisões políticas do povo. Como explica Tom Standage em Writing on the Wall, seu objetivo era mostrar como os senadores se opunham às suas políticas populistas, para ter o apoio dos cidadãos e cimentar suas ambições de se consolidar como ditador.

Depois de alguns anos, a Acta começou a incluir informações além da política, como funerais e divórcios, além de fatos curiosos que Plínio, o Velho, compilaria em sua História Natural. Por exemplo, uma história que hoje continua sendo publicada de vez em quando, embora com outros protagonistas, é claro: um cachorro se recusou a abandonar o cadáver de seu dono, chegando até a tentar resgatá-lo quando foi lançado no rio Tibre.

Além da Acta, Marqués lembra o papel dos porta-vozes e pregoeiros (praeco). Eram funcionários do Estado que informavam no fórum as notícias do dia e que também podiam anunciar as horas, atuando como relógios humanos.

El País. 31.8.2020.

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