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Escrever é uma indagação

Por Karine Bueno Costa

8 Dicas para quem quer escrever. Eu demorei para aceitar. Ainda estava… |  by Gustavo Tanaka | Ninho de Escritores | Medium

“Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Por que escrevo? Para me manter viva” (Clarice Lispector). “Eu sou uma pergunta” (Clarice Lispector).

O que veio antes,  o ovo ou a galinha? Há um mistério nesse questionamento que a ciência tenta desvelar, mas há um outro enigma ainda mais obscuro e inefável nessa pergunta: o “simples”  fato de ser um questionamento humano. Há um mistério na linguagem e na capacidade de questionarmos,  que não conseguimos desvendar nem com as melhores teorias científicas. É como se as teorias da linguagem, até mesmo a evolutiva darwiniana,  não dessem conta de resolver o segredo do processo linguístico, o qual possibilita o ato de pensar, descobrir  e ser por meio da linguagem, ainda mais a escrita.

Desse modo, a linguagem é um mistério e o processo de escrita enigmático. Se falar pode ser  considerado um ato natural de evolução humana, escrever é magia pura, porque mesmo no domínio de um código específico, criado a partir do intelecto humano, para comunicação,  a escrita não apenas comunica, ela cria, se transforma em arte, representa a existência. Assim,  escrever é uma indagação, como escreveu Clarice Lispector, e, por meio da escrita, há, quiçá,  “a descoberta do mundo”.

Clarice Lispector  não escrevia para se comunicar, não há dúvidas e ela tinha plena consciência disso. Para a escritora, a comunicação era a morte da “coisa”, do mistério, e as palavras são desleais, ao invés de desvelar, encobrem: “Eu queria saber o que pretendem de mim os meus livros”. Para isso, fazia literatura.  Escrevia para descobrir o mistério, para desvelar o motivo da existência. Fazia filosofia da maneira mais desleal, sem tratados filosóficos, e a resposta desse mistério está na leitura de  seus livros. Não há outra opção senão lê-los. Clarice é uma pergunta e sua escrita, quiçá, a resposta.

Disse: “Eu sou uma pergunta”, assim, ocupou o posto de escritora mais enigmática da literatura brasileira: “Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais”. Se me perguntam sobre um  autor que considero essencial, minha resposta é imediata: Clarice Lispector. Para mim, ler Clarice é estar próxima da magia da escrita, ou seja, a epifania dos textos nada mais é do que uma manifestação divina. Escrever é mágico. Há mágica nas palavras e Clarice, alquímica, sabia disso,  e por  isso escrevia. 

Para livrar-se, como teorizou Blanchot sobre o processo de criação literária, o que  pode ser entendido na acepção de ficar livre da escrita e possuir liberdade ou de tornar-se livro. Aliás, livro e livre são palavras etimologicamente irmãs, do latim liber,  e significa a entrecasca da árvore, matéria prima utilizada para os  primeiros escritos. Em “O ovo e a galinha”, diz: “ter uma casca é dar-se”. Nesse viés, fazer ou tornar-se livro é desprender-se, libertar-se, uma liberdade literária de travessia e doação e, assim:  “o ovo fica protegido por tantas palavras”, não é para entender e sim sentir,  o entendimento, para Lispector,  é a prova do erro.  Disse:  “eu não escrevo o que eu quero, escrevo o que sou”, de todo modo: livre, torna-se livro, e vice-versa, ou de  uma liberdade sem nome, um páthos. 

Nessa óptica, Lacan compara a escritura com o amor, no sentido de compartilharem a função de suplência, não se sabe porque o sujeito  amoroso ama, assim como  não é possível saber porque se escreve. À guisa dessa reflexão, escrever é sentimento, é sublimação e  não há nada mais sublime, inexplicável e mágico que o páthos:  “Por que escrevo: teria antes de ir ao profundo último de meu ser. – Não. Eu não sei por que escrevo. A gente escreve como quem ama, ninguém sabe por que ama, a gente não sabe por que escreve”, afirmou Clarice  Lispector. 

Outrossim, quebrar a casca do ovo não desvenda o mistério – uma metáfora para o processo de leitura –  pois se:  “Assim: existo, logo sei”, literalmente, análoga à máxima sartriana, de que a existência precede a essência,  só entendemos de “ovo quebrado” e nem é questão para entender, apenas sentir. Como a leitura de “O ovo e a galinha”, que apresenta muito mais questionamentos que respostas, porque não é para compreender, nem Clarice entendia seu conto. Assim como  G.H., que retorna  com o indizível, com aquilo que só alcança a partir  do fracasso da linguagem:  “Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem”; ou  ainda como narrador/autor, de A hora da estrela: ”Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever”. E nós continuaremos  a ler.

Dessarte, há no cerne do processo criativo da escrita uma oscilação misteriosa: ser ou não ser? Saber ou não saber? Enigmas que não se resolvem, e por não termos respostas, escrevemos, criamos e inventamos: lemos, para manter-se vivo, como sinthoma nas páginas em branco, como sublimação lacaniana, e  só pelo fato de existirem esses questionamentos, possíveis por meio da linguagem,  sabemos que há uma porta de entrada para o mistério, as páginas dos livros, mas sem respostas, só com mais indagações e sensações: páthos.

Eis a questão: o ovo ou a galinha? Claricemente, quanto ao que veio antes, foi o ovo que achou a galinha, foi a escolhida,  mas “a veracidade do ovo não é verossímil”. Portanto: “Não se preocupe em entender, viver ultrapassa todo entendimento”.

Professora de produção textual no Colégio São José-PU. Graduada em Letras: Português/Espanhol. Pós-graduada em Língua Portuguesa e Literatura. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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Karine Bueno Costa-
Professora de produção textual no Colégio São José-PU. Graduada em Letras: Português/Espanhol. Pós-graduação em Língua Portuguesa e Literatura.
Karine.costa@hotmail.com
42- 999591893

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