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A razão que sente: O corpo que dança, que resiste!

Por Eliane de Fátima Camargo

E lá se vão alguns meses de isolamento, e nesses meses poucas vezes saí de casa. Para alguém que gosta de um bom baile, as noites de sábado foram feitas para o remexer do corpo. Mas enquanto não posso me entregar aos bailes da vida, não recuso o convite de dançar sozinha. É dançando que o meu “eu” se encontra. De fato, este texto não possui pretensões maiores, é apenas um singelo convite – Independente de dançar ou não, que seja você, o seu melhor encontro!-

Já reparam quanta beleza tem um corpo dançando? Ah, sim! É a leveza da vida ganhando forma. Naquele instante não existe mais corpo reprimido, negado ou separado de si mesmo. Não mais distinguimos corpo e alma. O corpo é o todo, que pensa, que sente.

Mas devo dizer, ao escrever sobre a dança, não penso o movimento técnico, ensaiado, com passos glamurosos e saltos que beiram a perfeição. Sim! esses são maravilhosos, mas são para poucas pessoas. Quando penso a dança, imagino o movimento lúdico, não menos maravilhoso, porém, simples, livre! Um movimento de pés descalços, insinuantes, de gestos libertos. Um encontro que é de si mesmo e de si com o outro. Encontro tomado de poesia. Como diria Nietzsche “Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar”.[1]

Enquanto estudante e docente de filosofia, já ouvi muito que ela é para poucos, e do mesmo modo a dança. Mas esta não é minha defesa. Existem muitas maneiras de se fazer filosofia. Assim, me permito pensar ela, enquanto corpo que dança. É certo, pensamos e sentimos inteiramente. Não existe apenas um modo de dançar, tão pouco, um modo de fazer filosofia.

As opressões se dão de muitas formas, mas a maneira mais rápida de violência é aquela que nega o corpo, pois ela é a negação de si, de sua história. Quando os europeus aqui chegaram, encontraram indígenas nus, libertos de amarras sociais, mas a razão moderna que servia a elite branca e europeia, não viu um corpo livre, viu um corpo bárbaro, que foi tratado como “coisa” e por isso quis encobri-lo, escravizá-lo. Do mesmo modo o fez, escravizando corpos negros. Como Dussel descreve:

tirava-se a roupa dos africanos, homens e mulheres, e eram colocados em lugares visíveis, no mercado. Os compradores apalpavam seus corpos para constatar sua constituição, apalpavam seus órgãos sexuais, para observar o estado de saúde de mulheres e homens; observavam seus dentes para ver se estavam em boas condições, e, segundo seu tamanho, idade e força, pagavam em moedas de ouro o valor de suas pessoas, de suas vidas[2].

Escravizaram os corpos, escravizaram também as formas de pensar! Essa razão moderna compreendia que os sentidos são um engano, e que a única razão possível é aquela que se dá na ciência. Essa razão esclarecedora e tão aclamada pela tradição filosófica contribuiu para que outras visões de mundo fossem negadas.

Consideraram que apenas o homem branco europeu pensava, e portanto era necessário “ensinar” os demais povos a “pensar”. O projeto moderno foi o de colonizar, escravizar e negar toda existência humana fora de seus padrões de pensamento. Por isso, pensar outras formas de filosofia é reivindicar o nosso direito de sermos existências livres.

Penso que a razão se dá de diversas formas e nós somos uma razão composta de corpo em movimento. Corpo que é: pensamento, sensibilidade e liberdade. Por isso, a dança nos convida ao contato de nós e de nós com os outros em uma construção mútua, um movimento filosófico, onde não existe uma racionalidade superior, mas um envolver-se em busca de um pensar autêntico.

Os calcanhares erguiam-se; os dedos escutavam para te compreender; não tem o dançarino os ouvidos nos dedos dos pés?[3] A dança é a expressão de um corpo que resiste aos modelos opressores. Um corpo que exala vontade de vida. E, que em movimento busca incansavelmente formas de se libertar. “O corpo é uma razão em ponto grande, uma multiplicidade com um só sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor”.[4] Corpo é sentir. Filosofia também se faz sentindo!

Sentir é se perguntar, sem a necessidade de responder unicamente. Responder tem a ver com ciência, com razão tecnicista e nós somos razões e perguntas múltiplas: vontade,desejo, sonhos…Multiplicidade e não resposta única!

Sentir é estar sendo em liberdade. É o olhar que não mente. É o corpo que reage, que se revolta. Sentir é resistir em um mundo onde a razão moderna e violenta encobriu a capacidade de amar. E o que há de mais filosófico, do que em um encontro de corpos que amam, que dançam, que se libertam?


[1] NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra. Fonte digital. 2002,p.59.

[2]DUSSEL, Enrique. 1492 O encobrimento do outro- a origem do mito da modernidade: Conferências de Frankfurt. Editora Vozes. Rio de Janeiro-RJ, 1993,p. 163.

[3] NIETZSCHE, Friedrich. Assim Assim falava Zaratustra. Fonte digital. 2002.p,358.

[4] NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra. Fonte digital. 2002.p,47.

Eliane de Fátima Camargo, Graduada em Filosofia e Sociologia. Mestranda em Filosofia. Feminista.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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