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Dostoiévski na Sibéria: devaneios sobre a prisão e o criminoso

Por Paulo Cesar Jakimiu Sabino

memórias da casa dos mortos

O romancista russo Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821-1881) é bastante conhecido no Brasil. Curiosamente, em um país tão polarizado como o nosso, o autor recebe simpatizantes de ideologias distintas; conservadores e liberais, direita e esquerda – não importa a qual ala da esfera política você pertença, existem boas chances de Dostoiévski te agradar. Isso não pode ofuscar nossa visão sobre o escritor: ele era sim conservador e um “bom cristão”. O problema aí é achar que, por ser conservador, encaixe-se, perfeitamente, em um modelo pré-definido de categorias contemporâneas. É um problema, mas não é estranho: parece que a falta de sentido histórico, a má compreensão do espaço e do tempo é característica do conservador e do reacionário – afinal, são tantos os jovens de dezenove anos exclamando: “no tempo da ditadura era bom”, que eu fico com receio de criticar uma ideia tão nítida nesse sujeito, mesmo ele nunca tendo sequer experimentado aquele período; ou sem um referencial teórico decente, exceto pelas palavras do seu avô. Mas isso são divagações, voltemos ao que interessa.

Dostoiévski fez parte do movimento conservador pochvennichestvo – sim, é difícil de pronunciar – e simpatizava com muitas ideias eslavófilas, isto é, ideias em defesa da tradição russa contra a ocidentalização frequente da cultura nacional. Adotou essa postura após seu exílio na Sibéria; antes disso, tinha tendências progressistas mais agudas, como podemos notar no seu romance de estreia, Gente pobre. Depois de retornar do exílio, aderiu a ideais menos radicais; isso não significa que tenha sido sempre um crítico ferrenho dos revolucionários russos, seus opositores ideológicos – ele não ignorava as mazelas do seu povo, concorda com os revolucionários sobre isso, questionava, porém, os seus métodos para transformar a realidade social. É difícil definir Dostoiévski, muitas vozes falam nele e através dele, porém, ignorar seus princípios ideológicos é igualmente difícil. Vamos dizer, então, que ele é um conservador, mas não como hoje em dia. Portanto, ele pode sim oferecer uma visão bastante interessante sobre as prisões e suas circunstâncias, defendendo até mesmo a figura do criminoso, ou do bandido – que no Brasil, para muita gente, só é bom quando está morto. Dostoiévski vai no sentido oposto.

Em 1862, publicou Memórias da casa dos mortos. Um livro que é quase um relato biográfico sobre sua experiência na prisão. Essa obra foi censurada, e o motivo é cômico: teria apresentado a prisão como um lugar agradável. O retrato da prisão deixou os censores desgostosos, afinal, prisão não é lugar de diversão – é para sofrer, pagar pelos seus crimes. Logo, Dostoiévski percebeu que a prisão não tinha função regenerativa sobre o criminoso, e traça um perfil psicológico, a fim de demonstrar como a prisão e os castigos físicos não o recuperam: “O presídio e os trabalhos forçados não fazem mais do que fomentar o ódio, a sede de prazeres proibidos, e uma terrível leviandade de espírito no presidiário. Estou convencido de que, com o famoso sistema celular, apenas se obtêm fins falsos, enganosos, aparentes” (DOSTOIÉVSKI, 2017, p. 22). A prisão pode até proteger a sociedade de crimes ulteriores, mas, ao preso, só serve no âmbito psíquico-moral. Ele sente que “pagou” pelo seu crime, um sentimento de perdão como o do pecador que confessa seus pecados. Todavia, não paga só com sua dor, mas com a privação de sua liberdade, que é, para nosso escritor, o bem mais precioso. O príncipe Míchkin, personagem de O Idiota, também é contra castigos físicos, porque pode apaziguar os efeitos da punição em sua consciência moral – Eu avisei que Dostoiévski era cristão. Agora, se a liberdade é o bem mais precioso do ser humano, não bastaria apenas privá-lo dela? Por qual motivo o castigo físico é necessário? Ofereço uma resposta abaixo.

Façamos o seguinte questionamento: Para a sociedade, a prisão serve para quê? Para proteção? Talvez, a função não seja tanto social e sim psicológica: o sofrimento do preso é uma espécie de compensação psíquica pelo prejuízo causado àquela sociedade. Ele paga, nem que seja com dor e lamúria. Pense comigo, caro leitor, quando a abordagem policial é violenta – e essa violência varia de acordo com o quão escura é sua pele ou em relação ao bairro em que você vive – pode muito bem ser proposital. Primeiro, deixa clara a hierarquia entre o representante da lei e o suposto bandido. Segundo, humilha o “bandido” não para demonstrar que o “crime não compensa”, e sim para que a sociedade que contempla a cena possa se regozijar. Claro, isso é tudo muito estranho, pois enquanto alguns trabalham com a presunção de inocência, aqui fazemos diferente: é culpado, até que se prove o contrário. Não é de se estranhar o gozo com a dor do criminoso, causa, em quem a assiste, um sentimento de “bem-estar”: ver o sofrimento faz bem, fazer sofrer faz mais bem ainda – como já dizia aquele velho filósofo alemão.

Notem bem, assim, é possível explicar os vídeos policiais na internet com milhares de visualizações, ou mesmo as cenas de prisão e perseguição que deixam os entusiastas vidrados em frente à TV com esse tipo de entretenimento.

Ocorre-me até um pensamento, talvez um devaneio: será que as péssimas condições de nossas prisões são um problema de gerenciamento do Estado? Quem sabe, só um “quem sabe”, isso seja também proposital. Uma coisa é certa, por apelo popular, nada vai mudar – porque nosso povo é formado por muitos conservadores, não à moda de Dostoiévski, claro, mas daqueles tipos que querem a compensação pelo dano, querem fazer o criminoso pagar… nem que seja com sangue.

REFERÊNCIAS

DOSTOIÉVSKI, F. Memórias da casa dos mortos. Tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes. Porto Alegre: LP&M, 2017 (LP&M Pocket).

__. O idiota. 3ª ed. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: 34, 2012.


NIETZSCHE, F. Genealogia da moral. Tradução de Paulo Cesar de Souza. São Paulo: Cia de Bolso, 2010.

Paulo Cesar Jakimiu Sabino, Mestre em Estética e Filosofia da Arte pela UFOP e doutorando em Filosofia na UFPR. Entusiasta de literatura russa. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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