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Psicólogos x psicanalistas: validade do método freudiano segue em debate

O psicanalista austríaco Sigmund Freud - Divulgação
O psicanalista austríaco Sigmund Freud
Imagem: Divulgação

A nostalgia ressuscitou uma das desavenças mais antigas no campo das ideias: a validade científica das teorias de Freud e da psicanálise. De um lado, há especialistas que afirmam que a psicanálise é uma pseudociência, por não ter rigor científico. Do outro, há psicanalistas que atestam os efeitos da prática no divã e também nos meios acadêmicos.

Em três artigos na revista de divulgação científica Questão de Ciência, criada em 2018 e presidida pela bióloga Natalia Pasternak, a psicanálise foi duramente criticada por cientistas Em resposta, Christian Dunker, colunista de TILT, afirmou que os artigos publicados são fake news. Em tempos de terraplanismo e descrença na ciência, o debate é acalorado entre os especialistas da área, mas a verdade é que ele se encontra em uma zona muito cinzenta entre o que é a psicanálise, o que é a psicologia e o que é a ciência.

Afinal, o que é psicanálise, mesmo? É uma teoria, um método e uma prática clínica desenvolvidos pelo médico Sigmund Freud (1856-1939), no final do século 19, que tem como base a exploração do inconsciente. Considerado o pai da psicanálise, Freud desenvolveu diversas teorias para explicar nossos comportamentos. Uma das grandes contribuições de Freud à compreensão sobre os problemas psíquicos foi concluir que alguns sintomas dependem da palavra, das lembranças e da relação com outro. “Por Freud, a psicanálise é definida de três formas: como um método para tratar neuroses, um método de investigação de processos psíquicos e como uma ‘nova ciência'”, afirma Christian Dunker. E é aí que o bicho pega.

O que é psicologia? Ela é uma disciplina que estuda o comportamento humano. Existe há centenas de anos, e ganhou status de ciência quando adotou, na linha experimental, métodos científicos de análise, deixando de lado explicações mais metafísicas sobre o modo como os humanos reagem ao mundo. O primeiro instituto de psicologia foi criado na Alemanha, no final do século 19, por Wilhelm Wundt. Ele desenvolveu práticas e teses, fundando a psicologia comparada e científica.

Como psicanálise e psicologia se relacionam? Dependendo do país, a psicanálise é encarada como uma disciplina dentro da faculdade de Psicologia. Hoje, a maioria das faculdades de Psicologia no Brasil oferece disciplinas em psicanálise — na PUC-SP, por exemplo, Desirée Cordeiro lembra ter estudado psicanálise em todos os semestres da graduação. Contudo, prevalece nos cursos o objetivo de formar psicoterapeutas, algo mais instrumental, científico e abrangente. Um dos autores que mais contribuiu para dar cara de ciência à psicologia, tendo influenciado a formação de psicólogos em diversos países, foi o norte-americano Burrhus Frederic Skinner (1904-1990). “Nos EUA, por exemplo, onde nasceu e atuou Skinner, o forte são as áreas de psicologia como a comportamental, a cognitiva e a TCC (terapia cognitivo-comportamental). É algo mais direcionado ao manejo dos sintomas e doenças, e tem um método mais fácil de ser descrito e apresentado em artigos científicos, são mais quantitativas. As psicoterapias psicodinâmicas, como a psicanálise, são mais voltadas ao cuidado do indivíduo e promoção de saúde”, explica Cordeiro. A formação psicanalítica que permite clinicar é mais longa e abrange teoria, prática clínica e a supervisão dos aspirantes a analistas.

Então, psicanálise é ciência? Depende do que você está chamando de psicanálise e do que está chamando de ciência. A ciência, segundo uma corrente positivista de pensamento, exige a adoção de um método e um procedimento replicáveis. “A psicanálise, a meu ver, é ciência, mas falta a ela um olhar biológico, não só humano, uma metodologia de análises. Ela tem mais dificuldade de fazer comparações, é menos linear e matemática e mais qualitativa, subjetiva”, afirma Desirée Cordeiro. No caso da psicanálise, tudo que um analista tem é o comportamento da pessoa, ou a ausência de um comportamento importante. Para Paulo Sérgio Boggio, coordenador do laboratório de neurociência da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a psicanálise depende da observação de alguns poucos casos. “E não se pode generalizar o conhecimento partindo de poucos casos”, afirma ao TAB.

Mas, se não é ciência, não vale? “A gente tem muito em alta conta a ciência, achando que ela vai dar conta de tudo, mas há uma série de coisas a que ela não responde”, diz Anna Carolina Lo Bianco, vice-presidente do CFP (Conselho Federal de Psicologia) e professora do programa de pós-graduação em teoria psicanalítica da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). “A psicanálise não pretende ser uma ciência”, diz Lo Bianco. “O rótulo científico é como se fosse um selo de qualidade. As pessoas se valem do prestígio que a ciência tem para dizer que estão ‘fazendo ciência’. Essa simplificação e redução da vida é o que a psicanálise definitivamente não faz”, afirma.

Se já sabemos que não se trata de um método científico, por que a treta? Essa é uma briga que se estende desde que a psicanálise foi fundada, mas ganhou muita força a partir dos anos 1980, graças à medicalização da saúde mental e do avanço da neurociência, que passa a fazer estudos quantitativos e de observação (por meio de equipamentos como ressonância magnética) sobre o funcionamento do cérebro. É um momento de virada no discurso sobre saúde mental, especialmente nos Estados Unidos. “A depressão, o pânico e muitos outros problemas mentais são tratados como se fossem ‘diabete mental’, apenas uma questão de falta de dopamina, de uma substância que pode ser reposta se o indivíduo se tratar com antidepressivos”, diz Dunker.

Mas os remédios nem sempre surtem o efeito desejado. Décadas depois de excessiva medicalização, não somos exatamente a civilização da felicidade, tal qual nos foi prometido. Segundo Christian Dunker, ao contrário de outros tipos de psicoterapia, a psicanálise é um tratamento de longo prazo que tem sido escrutinado em diversas situações. “Os resultados [sobre eficácia da psicanálise] são sempre esquisitos de avaliar, porque esse tipo de pesquisa sobre qual terapia funciona mais tem variáveis difíceis de controlar, porque envolve coisas como empatia e simpatia entre terapeuta e o paciente.”

Nem sempre Freud explica. Para Boggio, o problema é quando a psicanálise se propõe a tratar problemas sérios de saúde mental, em que é preciso medicalizar. “Colocar essas pessoas em tratamento sem evidência científica é perigoso”, afirma. “O paciente gasta dinheiro e anos da vida, sem sair do lugar. Há coisas muito interessantes publicadas, mas não existe comprovação de que resolve, e pode haver observação enviesada por parte do psicanalista, porque ele parte de uma observação individual.” Desirée Cordeiro pensa parecido. “Quando um paciente apresenta sofrimento intenso, que o impede de viver o cotidiano, ele deve procurar um psiquiatra e ser medicado, sim. Tratar só com psicanálise ou só com medicação, nesses casos, não vai funcionar”, afirma.

TAB. 29.8.2020.

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