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Romper silêncios: o amor é um ato revolucionário

Por Pâmela Bueno Costa

[ que ecoe Nina Simone]:

I’ve got life

I’ve got my freedom.

Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor cura.” bell hooks

São tempos difíceis para os sonhadores. No entanto, ainda é permitido sonhar. E delirar com um mundo melhor, alçar voos e romper os silêncios. Esse texto é um exercício de escuta. Escutar a voz de uma mulher que têm muito a ensinar. Reconhecendo o  meu  privilégio branco e o lugar de fala de uma das maiores  escritoras feministas negras: bell hooks. Ela faz questão que sua assinatura seja no diminutivo mesmo, nome adotado por Gloria Jean Watkins, o nome adotado é em homenagem à bisavó, Bell Blair Hooks. Mulher negra, professora universitária, ativista feminista norte-americana e  dona de uma produção riquíssima, entre seus escritos, podemos encontrar discussão sobre feminismo, raça, gênero, relações sociais opressivas, entre outros. bell hooks parte de suas experiências para escrever, o que, muitas vezes, dentro do ambiente acadêmico, que é elitista, machista e misógino, recebeu muitas críticas, até encontrar seu espaço.

Entrei em contato com sua obra no Círculo de cultura Leia Mulheres da Unespar, grupo de mulheres, com encontro mensal, coordenado pela professora Giselle Moura Schnorr. A primeira leitura foi mergulhar no livro o feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras, fiquei encantada com o poder de escrita e a aprendizagem que suas narrativas proporcionam. Que mulher incrível!

Comecei encenar esse texto com o grito/canto de Nina Simone: eu tenho vida/ eu tenho minha liberdade”, verso de sua canção: “eu não tenho/ eu tenho vida”. Música que faz  pensar sobre as mazelas de uma sociedade machista, misógina e racista, e a luta pela liberdade pelo canto. Escutando Nina,  penso em bell hooks, que também é símbolo de luta e grito por liberdade. É digno de nota,  que irei fazer ecoar nas linhas desse texto a voz de bell hooks, não falando por ela, fazendo  mais um movimento de escuta e de amor, criando uma consciência crítica e atenta.  Dessa forma, eu e você – leitor, somos convocados a ouvir  hooks, pois, só assim, podemos dizer que acontecerá uma transformação em nossa na sociedade: precisamos ouvir!

Ela nos faz pensar em uma ética do amor. Um movimento de olhar e ver, compreendendo que a política do amor e a ética do amor são categorias que andam juntas, em tempos tão sombrios, onde quase não resta esperança, mas “esperançar” é preciso, amar também! hooks mostra que o remédio para os sofrimentos causados pelas sociedades é o amor. O amor cura. É um chamado, em seu texto Vivendo de amor, afirma: “quando nós, mulheres negras, experimentamos a força transformadora do amor em nossas vidas, assumimos atitudes capazes de alterar completamente as estruturas sociais existentes” (hooks, 2010, s/p)[1]. É na recuperação, no reconhecimento, na cura do passado das mulheres negras,  sofrimento causado pela escravidão, “muitos negros,  especialmente as mulheres negras,  que se acostumaram a não ser amados e a se proteger da dor que isso causa, agindo como se somente as pessoas brancas ou outros ingênuos esperassem receber amor” (hooks, 2010, s/p).

Ao lutarmos poruma sociedade mais justa e igualitária, é necessário estarmos norteados por uma política e ética do amor. Concomitante, expõe: “nós negros temos sido profundamente feridos, como a gente diz, “feridos até o coração”, e essa ferida emocional que carregamos afeta nossa capacidade de sentir, consequentemente, de amar. Somos um povo ferido”(hooks, 2010, s/p).   Portanto, essa ferida só pode ser curada com o amor. Na voz de hooks: “Uma vez disse para algumas mulheres negras que gostaria de viver em um mundo onde existisse amor, onde pudesse amar e ser amada (hooks, 2010, s/p).  A política de morte, o genocídio contra o povo negro e a ausência do amor como política, provoca  a ausência de esperança.  É este chamado que quero destacar,  que: escolhendo o amor, também escolhemos viver em comunidade.

Uma de suas obras memoráveis e premiada é  Ain’t I A Woman (Eu não sou uma mulher), publicado em 1981, texto que começou a escrever ainda na universidade[2], no qual denuncia o feminismo mainstream, isso porque apenas focava em um grupo seleto de mulheres brancas, circundadas por ideais românticos de liberdade e igualdade. Um dos problemas denunciados é que, as mulheres negras, estavam apoiando o feminismo, no entanto, não eram contempladas nas causas. Todavia, para ser reconhecidas como mulheres, necessitavam abandonar as discussões raciais. Ficando assim, cada vez mais, à mercê do patriarcado.  Em seu livro, desafia a refletir sobre a história das mulheres negras, ampliando as fronteiras, compreendendo a construção histórica de um projeto escravocrata capitalista. A escritora convida a abraçar a mudança. Com um olhar atento para o capítulo cinco, “mulheres negras e o feminismo”, traz a fala de Sojourner Truth (1797-1883) – uma das mais famosas abolicionistas negras dos Estados Unidos[3]. Sojourner lutou por sua liberdade em uma longa jornada,  marcada por  muitas dores e “espinhos”. Há mais de cem anos, o dia em que uma mulher negra levantou-se diante de um grupo organizado de mulheres e homens brancos, em uma reunião, em Indiana, e mostrou os seios, como afirma hooks: “para provar que, de fato, era uma mulher” (hooks, 2020, p. 251).

Liberdade é não ter medo, encarou a plateia sem medo e sem vergonha, orgulhosa de ter nascido negra e mulher. Contudo, um homem branco, machista, misógino gritou “ – eu não acredito que você é realmente uma mulher”.  Pois aos olhos dos homens do século XIX, a mulher negra era indigna de receber o título de mulher (hooks, 2020, p. 252). Era o silêncio que muitos queriam, porém, Sojourner mostrou coragem. Diadorim, de Guimarães Rosa, também nos ensinou que, o que a vida quer da gente é coragem, e Sojourner Truth foi a mulher negra mais efusiva ao falar  sobre os direitos das mulheres. Ergueu sua voz.  Declarando, em público, a sua luta  em favor do direito ao voto feminino. Rompeu os silêncios, pois é um compromisso de romper os silêncios que inspirou as próprias mulheres negras a escreverem teoria para criar trabalhos que se conectassem ao movimento feminista (hooks, 2019, p.33).

Na voz de Sojourner:

“[…] que o homem lá fala que as mulheres  precisam de ajuda para subir na carruagem, para passar sobre as valas e para ter os melhores lugares […] e eu não sou uma mulher? Olhem para mim! Olhem para meu braço! […] Eu lavrei e plantei e juntei os grãos no celeiro e nenhum homem conseguia passar na minha frente – e eu não sou uma mulher? Eu conseguiria trabalhar tanto quanto qualquer homem ( quando conseguia trabalho), e aguentar o chicote também –  e eu não sou uma mulher? Pari cinco crianças e vi a maioria delas ser vendida para a escravidão, e quando chorei meu luto de mãe, ninguém além de jesus me ouviu – e eu não sou uma mulher? (HOOKS, 2020,  p. 253).

Sua fala abriu caminhos. A ruptura do silêncio fez com que muitas mulheres negras começassem a falar. Chimamanda Ngozi Adichie alerta para os  perigos de uma história única, Sojourner denunciou esse perigo, pois, o sexismo e o racismo moldaram a perspectiva da maioria dos historiadores, marcando assim os estadunidenses, como ressalta hooks, destacando, dessa maneira, uma tendência de ignorar e discriminar os esforços das mulheres negras nos debates sobre os direitos das mulheres. bell hooks enfatiza que: sem amor, os esforços para libertar negros/negras e a comunidade mundial da opressão e exploração estão condenados. É um movimento constante,  avante, apesar de tudo!

É preciso romper os silêncios  e o amor é o ato revolucionário. Nesse sentido, em seu livro Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra, traz a voz  da poeta negra Audre Lorde, quando compartilhou com o mundo o poema: “ A litany for survival” (uma litania por sobrevivência),  convida a romper silêncios, incitando, motivando e inspirando assim como Sojourner. Evidencia-se, portanto, que é preciso falar e manifestar-se, contar suas histórias.  E a nós nos resta aprender a ouvir mulheres, principalmente, as mulheres negras, que tanto têm a ensinar.

O silêncio não irá salvar. Lorde afirma que é preciso superar o medo de falar, pois é um ato de resistência. Declara: “e quando falamos temos medo/de nossas palavras não serem ouvidas/ nem bem- vindas/ mas quando estamos em silêncio/ ainda assim temos medo/ é melhor falar então” (hooks, 2019, p.33). Encoraja o ato revolucionário de erguer a voz e falar,  assim, o amor torna-se um ato político. O amor é um ato revolucionário porque exige ação-  fala e escuta. bell hooks ressalta a importância da fala: contar suas histórias, e a importância do amor como uma prática de liberdade. Lembrando da declaração de Martin Luther King[4]: “Eu decidi amar”. É uma escolha,  hooks,  assim como Luther King, acredita que o amor é, “em última análise, a única resposta” para os problemas enfrentados por todo o planeta.

Por fim, sem esgotar a discussão, bell hooks ensina que a prática feminista é o único movimento por justiça social, em nossa sociedade, que cria uma condição de mutualidade, característica elencada como fundamental ao amor. Mostra a importância das mulheres negras erguerem a voz  e  como pôr os cacos partidos do coração no lugar mais um vez. Ensina  em o feminismo é para todo mundo,  que é somente quando aceitarmos que o verdadeiro amor é fundamentado em “reconhecimento e aceitação e que: o amor combina com cuidado, responsabilidade, comprometimento e reconhecimento, entenderemos que não pode haver amor sem justiça. O amor tem o poder de transformar e de dar força para desconstruir a dominação” (hooks, 2019, p.150).   

Ensina que escolher políticas feministas é, portanto, escolher amar:“ao escolher amar, começamos a nos mover contra a dominação, contra a  opressão.  No momento em que escolhemos amar, começamos a nos mover para a liberdade, a agir de maneiras que libertem a nós mesmas/os e a outrem”[5].

REFERÊNCIAS:

hooks, bell. Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra. São Paulo: Editora Elefante, 2019.

_________, E eu não sou uma mulher?: mulheres negras e feminismo. Rio de Janeiro: Rosa dos tempos, 2020.

_________, O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. Tradução Ana Luiza Libânio. Rio de Janeiro: Rosa dos tempos, 2019.

_________, hooks. Bell. Vivendo de amor, Tradução de Maísa Mendonça s/p. Portal Geledés, 2010. Disponível em: https://www.geledes.org.br/vivendo-de-amor/.

_________, O amor como prática de liberdade. Tradução Uã Flor Do Nascimento, professor de Filosofia e Bioética da Universidade de Brasília, 2019. Disponível em: https://cebi.org.br/noticias/bell-hooks-o-amor-como-a-pratica-da-liberdade/.


[1] hooks, bell. Vivendo de amor, tradução de Maísa Mendonça s/p. Portal geledés, 2010. Disponível em: https://www.geledes.org.br/vivendo-de-amor/.

[2] Avaliação feita pelo site Publishers Weekly, especialista no ramo de publicação literária, avaliou Ain’t I A Womancomo um dos vinte livros mais influentes escritos por mulheres”.

[3] Nascida como Isabella Baumfree em uma família de provavelmente doze crianças escravizadas. Ela adotou o nome de Sojourner Truth que literalmente significa “visita da verdade” ( hooks, 2020, p. 251).

[4] Declaração de 1963, o reverendo Martin Luther King Jr., se posicionou perante cerca de 250 mil pessoas e proferiu o seu mais famoso discurso, I Have a Dream.

[5] hooks, bell. O amor como prática de liberdade. Tradução de Uã Flor Do Nascimento, 2019, s/p.

Pâmela Bueno Costa, professora de filosofia na rede estadual e particular de ensino – SC. Graduada em Filosofia. Pós-graduada em Ensino da Filosofia. Mestre em Ensino da Filosofia PROF-FILO. Cursando terceiro ano de Letras: Português/Espanhol (UNESPAR). Ilustradora amadora e aprendiz de aquarela. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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