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Um brinde no boteco filosófico

Por Fábio Mansano

O Boteco Filosófico on Twitter: "Dia da Independência ou dependência? E aí  meu Brasil, o que você me responde?"

Certa feita recebi a mensagem de um portentoso filósofo, destes raros que não se encontram por aí, solicitando meu endereço para que pudesse encaminhar um de seus livros. Respondi com presteza, satisfeito pela recordação do meu nome e ansioso pela leitura da obra. Trata-se, preciosos leitores, de Charles Santiago, simplesmente Charlão, amizade rara que um paulista errante consolidou nas plagas baianas. Conexão Jitaúna-Pederneiras-Jequié. Estou me referindo ao imperdível “Filosofia de Boteco: no reverso das ilusões”, publicado em 2019.

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Confesso que abri suas páginas meses depois, no contexto da pandemia. Afinal, o que seriam meses depois de um cenário em que a terra parou? Quimeras. Não importa. Assim como descobri a nona sinfonia de Beethoven após três décadas caminhando por aí, contemplei uma escrita que vale cada segundo em que nossa carcaça está exposta às intempéries da existência humana. O escritor-viajante nos convida à reflexão de uma longa viagem, nossa vida, mediado num barroco prazer-sofrimento que nos conduz inevitavelmente à estação da morte. Bem-vinda finitude!

O corifeu existencialista reflete a partir de um fato inusitado: final de semestre, momento propício para as comemorações desenfreadas, época em que os prazeres etílicos, carnais e metafísicos afloram, ocorre um acidente de percurso. Futebol e Filosofia deram certo na imortal esquete de Monty Python. Aqui estamos mais próximo do “Matuto no Fitibó”, do imprescindível Wilson Aragão. Resumindo, após alguns minutos de um “baba” recreativo nosso narrador sofre uma contusão, mais precisamente uma fratura da fíbula. Pensando dialeticamente, uma diversão morre para uma obra nascer. Foi entre cirurgia, internação e convalescença que a filosofia botequiana ganhou forma, fama e os merecidos devaneios.

Foi nessa angústia que Charles convida, com toda a intimidade de um intelectual maduro, os clássicos pensadores para uma conversa franca, isento das bestagens pseudo-acadêmicas, muito mais preocupado com um aceno para o debate do que para um acerto de contas. Tal qual Maquiavel refletindo sobre a natureza da política, eis o pensador caatingueiro, agora imerso no sul paranaense, contemplando a natureza humana. E nos desafiando a todo instante, tirando-nos do lugar comum, da fatídica zona de conforto, e nos conduzindo ao espelho. Ah! Sempre o espelho. Cai o Rei, fica o Homem.

Assim, no coquetel reflexivo apresentado pelo nosso corifeu, confunde-se a pesada e oportuna teoria com a leve e fundamental clareza das palavras proferidas no templo mundano que é… o boteco! Como disse em certa ocasião o “atleta” do trânsito das reflexões, “quem terá mais sorte, o teórico ou o prático, isso é um mistério, exceto para quem curte cada momento da vida”. Dentre a dúvida existencial e a luta pela sobrevivência nosso encarnado poeta se vê deitado numa cama de hospital, que revela suas limitações e, sobretudo, expõe suas vergonhas. Diletos leitores, a bunda de fora (por conta da camisola) é capaz de potencializar inúmeras pandemias guardadas dentro de nosso peito, perturbando-nos com a seguinte inquietação: o que é de fato importante para nós? Essa saborosa narrativa, que, aliás, harmoniza com qualquer bebida alcoólica, nos conduz às derrocadas do orgulho e da vaidade, ante uma realidade inescapável: estamos no mundo, para o mundo, com o mundo. E com nossa finitude. Conforme nosso autor, com a carcaça degradante em direção ao caos, tal qual o sedento buscando o oásis.

O Aedo do sertão não esconde que quer narrar as ilusões do cotidiano. E o faz com maestria. Numa apresentação deslumbrante desvenda o sentimento oceânico freudiano, ao tempo que o fetiche da mercadoria é explicitado tal qual água cristalina. Entre o desejo sexual e o poder de compra mercantil consubstanciam-se os desejos humanos. Ou seriam nossas ilusões? Reich havia escrito que o amor, o trabalho e o conhecimento são as fontes de nossa vida e que deveriam governá-la. Sem desprezar esse tripé, “Filosofia de Boteco” nos conclama a pensarmos no que de fato governa nossas vidas. Ou, quem sabe, o regime adotado seja o anarquismo…

O livro é um convite ao diálogo. Ora busca espaço nas construções teóricas ora vasculha os palácios da própria memória para subsidiar suas narrativas. Aproveitei a deixa e, pensando na academia ou nos bares da vida, fiz uma breve digressão e me senti saudoso dos momentos em que não usava relógio e conversava tranquilamente com os malungos queridos, Charles, Fabricio, Matheus, Humberto, Denis e tantos outros que ajudaram a construir o que chamo de eu. Mergulhei em meu peito para ficar sozinho comigo.

Depois de algumas páginas, encontrei na “perspectivação das ilusões” uma nova face do rapsodo: surgia, dentre névoas e delírios, o quixotesco fidalgo “Sandiabo, o aventureiro de La Vitória”, aquele que sonha muito, mas acorda cedo para realizar seus desejos. “Sandiabo é antes de tudo um forte”. O período de abstinência alcóolica não somente o colocou face a face com uma suposta liberdade, mas também o alçou à figura de “homem especial” orteguiano: quem poderia convidar os estudantes para o portal do cemitério e dizer a eles: “Morrer é bom!”. Quem poderia responder, depois de indagado sobre a falta de material didático em determinada escola: “Escreva pelas paredes, até no teto se possível, mas não deixe de fazê-lo!”. Só poderia ser um nietzschiano “que traz o caos dentro de si para partejar a estrela dançante”.

Aqui faço um brinde! Saúdo o garçom que mesclou filosofia, devaneios e fantasias, utilizando personagens fictícios para que pensássemos na velocidade do trem da vida, deslizando inconsequente sobre os trilhos do acaso ou do destino. Somos conhecedores dos prazeres etílicos e de todas as sociabilidades que se abrem ao redor da mesa de bar, conforme explicou nosso autor. No entanto, minha impressão derradeira é de que não são as respostas a maior contribuição desse livro, mas sim, à luz da maiêutica, a seguinte pergunta: Você tem sede do quê?

Fábio Mansano. Professor Doutor da Universidade Estadual da Bahia. Sociólogo.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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