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Palavras de quarentena

Por Gisele de Souza Gonçalves

Quarentena: qual é a sua importância? - Politize!

E os dias não têm sido fáceis, acredito que isso se deve ao fato de pensarmos demais no amanhã. Que coisa triste nos ensinaram – e também muitas vezes ensinamos – viver pouco o agora e criar expectativas demais para o futuro. Assim seguimos: quando o coração aperta demais, alguns choram, como eu. Nesses momentos tento relembrar o que tenho tentando reaprender: viver o momento.

Então, em alguns instantes, posso ver a beleza da vida: quem tem criança em casa tem a oportunidade de observar melhor como nelas há uma maneira dedicada de viver intensamente cada momento e o quanto precisamos aprender com elas, inclusive sobre paciência. A simplicidade das crianças ensina muito a quem queira realmente aprender (e sem o autoritarismo conservador que nos oprime). Outros estarão sozinhos em casa, que estejam bem, afinal a nossa própria companhia também pode ser celebrada e os bons momentos da infância recordados. Existir faz bem.

Assim é possível, talvez, viver um dia de cada vez, na quarentena que parece ser eterna, e descobrirmos, com aqueles com quem vivemos, que nos amamos a ponto de sentir prazer nessa convivência diária e persistente de cada minuto, ou não. De fato, a quarentena veio descortinar muitas coisas: as que nos fazem viver bem e as que devemos evitar.

Uns leem, outros assistem, outros trabalham como nunca e tantas outras coisas que não cabem no meu conhecer… Embora o motivo desta convivência intensa seja triste, podemos fazer deste momento um motivo de afeto e de aprendizado. Mas não quero aqui romantizar sofrimentos, não. Só quero escrever o que tenho pensado sobre e neste período pelo qual muitos de nós jamais pensamos viver.

Evidentemente estamos reconstruindo muitos conceitos e muitos jeitos de viver. Descobrimos que gostamos mais de arte e de música do que pensávamos, porque provavelmente havia pouco tempo para sentarmos e apreciar. E há quem diga que não precisamos de artistas, que pena!

Os dias não são mais tão longos, eles apenas são; e somos mais nós do que nunca. Humanamente sentimos falta de alguns e confirmamos ausências de outros que, mesmo antes do distanciamento, já não estavam perto, entendemos que em muitas circunstâncias nos isolamos, pois a vida é um grande ir e vir, encontrar e distanciar.

A vida acontece de modo tão complexo e incrível que quando tínhamos muitas certezas sobre nós e o amanhã, tudo se foi para que pudéssemos nos reconstruir. É tão triste pensar no que está acontecendo lá fora, com tantas pessoas que provavelmente são incríveis para alguém e que talvez não terão a oportunidade de se reconstruírem como nós aqui isolados.

É triste a desigualdade, a ignorância e o egoísmo que agora estão nus porque já não há o que esconder: o perigo invisível desnudou os piores sentimentos que, às vezes, o discurso camufla, mas os atos denunciam. Há contradições a todo momento.

Medos? Muitos. Eles insistem em aparecer, talvez por isso tanta insônia. Quando eles vêm é bom respirar fundo, lentamente, até que nossos pensamentos possam esquecê-los.

Aqui, eu gosto de pensar: amanhã vamos ficar juntos novamente sem tempo marcado. Leio de novo, trabalho de novo, brinco de novo, abraço de novo… Espero que em breve, mesmo sem isolamento, continuemos assim: juntos e sem pressa, vivendo um dia de cada vez.

Se puderem, fiquem em casa e bem!

Gisele de Souza Gonçalves. Professora e Doutoranda pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Mãe.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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