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Quando os tiktokers encontram a História

Por Naiara Krachenski

O tiktok, a última febre teen das redes sociais, apresentou aos seus jovens usuários um novo desafio para viralizar e brindou aos historiadores novas possibilidades de reflexão sobre como a geração tiktoker se apropria e faz uso da História. A tendência da vez é o Desafio do Holocausto (#holocaustchallenge)[i], uma brincadeira que consiste em criar personagens que ou acabaram de sair de um campo de concentração ou acabaram de adentrar aos céus após morrer nas câmaras de gás de Auschwitz. Para isso, os jovens coordenam toda uma produção visual que envolve desde a maquiagem de aspecto sujo e violentado, até o figurino do ‘pijama listrado’ e da estrela amarela no peito.

Sim caro leitor e cara leitora, vocês leram corretamente, com algum tipo de estupefação, espero, as palavras “holocausto” e “brincadeira” ligadas a um mesmo fenômeno. De largada criticado por instituições ligadas à preservação da memória do Holocausto, como o próprio memorial de Auschwitz[ii], o Desafio do Holocausto demonstra, além de um profundo descompromisso empático com as vidas atravessadas por esta conjuntura, uma espécie de glamurização da dor – em inglês, inclusive, se utiliza o termo trauma porn (em tradução livre, pornografia do trauma).

Com a deliberada retomada do tema do genocídio do povo judeu pelos tiktokers enquanto um modo de angariar likes e seguidores, assistimos a uma apropriação da História que dá lugar à rememoração do Holocausto por um viés potencialmente a-histórico, na medida em que enquadra o tema em uma presentificação eterna das modas nas redes sociais. Além disso, todo o tema é tratado de forma desconectada com a materialidade da experiência que quer se retratar, já que as referências utilizadas pelos tiktokers para a construção da sua personagem é baseada antes em indistintas formulações visuais propagadas pelo cinema e pela televisão e não a partir de pessoas reais que exprimiram de variadas formas a experiência de ter sido uma vítima do regime hitleriano. Dessa forma, a História se constitui em um espectro que serve para inflar o ego internético de uma geração que vê no virtual seu mundo real.  

Desencadeia-se nesse processo uma relação complexa com a violência perpetrada por um regime historicamente localizável e sofrida pelas vítimas do Holocausto: além de serem espectadores da violência, os tiktokers se convertem, em um só tempo, em produtores e consumidores do sofrimento. Talvez, o que nos agride de forma ainda mais pungente é o fato de esta brincadeira transformar o consumo da dor em matéria-prima para um entretenimento rápido que se pretende “leve” e descompromissado. A história de violência do regime nazista se converte, finalmente, em conteúdo para a civilização do espetáculo tal como a definiu Mario Vargas Llosa: “um mundo onde o primeiro lugar na tabela de valores vigente é ocupado pelo entretenimento”[iii]: no caso, um entretenimento que subjuga a todos os outros aspectos da vida… como diria o filósofo: “quem muito lacra, pouco pensa”.

Para que as memórias de eventos de barbárie sejam presentes na sociedade, precisamos compreender de forma responsável o que eles representaram e como ocorreram. No mais, nunca será supérfluo parar para escutar o grito de Primo Levi:

Vocês que vivem seguros

em suas cálidas casas,

vocês que, voltando à noite,

encontram comida quente e rostos amigos,

Pensem bem se isto é um homem

que trabalha no meio do barro,

que não conhece paz,

que luta por um pedaço de pão,

que morre por um sim ou por um não.

Pensem bem se isto é uma mulher,

sem cabelos e sem nome,

sem mais força para lembrar,

vazia nos olhos, frio o ventre,

como um sapo no inverno.

Pensem que isto aconteceu:

eu lhes mando estas palavras.

Gravem-nas em seus corações,

estando em casa, andando na rua,

ao deitar, ao levantar;

repitam-nas a seus filhos.

Ou, senão, desmorone-se a sua casa,

a doença os torne inválidos,

eos seus filhos virem o rosto para não vê-los[iv].


[i] https://revistamarieclaire.globo.com/Noticias/noticia/2020/08/adolescentes-fingem-serem-vitimas-do-holocausto-no-tiktok-e-revolta-sobrevivente.html – acesso em 28/08/20.

[ii] https://www.bbc.com/news/newsbeat-53934500 – acesso em 28/08/20.

[iii] LLOSA, Mario Vargas. A civilização do espetáculo: uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013, p.29.

[iv] LEVI, Primo. É isto um homem? Rio de Janeiro: Rocco, 1988.

Naiara Krachenski, Doutora em História. Professora do colegiado de História da Universidade Estadual do Paraná (campus União da Vitória). Administradora do canal Debate-40 no youtube. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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