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Ver (e gostar) de filmes sobre crimes nos faz mais violentos?

Ver (e gostar) de filmes sobres crimes nos faz mais violentos? (Foto: Reprodução)

Produções que caíram no gosto popular contam a história de serial killers e assassinos sanguinários. Há quem diga que “romantizar” esses criminosos representa um perigo para a sociedade. Será?

Se alguém analisar minha estante de livros ou os filmes e séries que estão na minha lista da Netflix, corro um sério risco de ser vista como “sinistra”. Meu passatempo preferido é ler, assistir e pesquisar sobre crimes violentos — e tentar compreender as mentes por trás dessas atrocidades.

Não sou a única a me interessar pelo assunto. Na verdade, existe uma comunidade na internet inteiramente dedicada a isso: a True Crime Community (TCC). São pessoas que, assim como eu, têm curiosidades sobre casos violentos e querem entender mais sobre o assunto.

E acredite, isso é mais normal do que se imagina. “Tentar entender as coisas é algo natural do ser humano, e casos violentos, principalmente os mais peculiares, despertam interesse porque são diferentes”, diz André Vilela, especialista do Núcleo de Estudos de Violência da Universidade de São Paulo (USP). “Ficar sabendo da existência de um crime, tentar investigá-lo e buscar uma resposta é algo natural”, pontua.

Pessoalmente, não me identifico com todos os meus “colegas” que fazem parte da True Crime Community. Pesquisando mais a fundo sobre esse “submundo”, notei que algumas pessoas vão um pouco além: idolatram e até se declaram fãs de serial killers como Ted Bundy, o norte-americano que assumiu ter assassinado ao menos 36 mulheres durante os anos 1970.

Essas pessoas fazem parte da parcela da TCC que “perdoa” (condone, em inglês) os criminosos. Também há uma grande quantidade de “fã-clubes” online dedicados a Eric Harris e Dylan Klebold, responsáveis pelo massacre de Columbine que deixou 15 mortos em 1999.

A irresistível face do mal: 12 diferenças entre filme e vida de Ted Bundy (Foto: Reprodução Netflix)
Esquerda: Ted Bundy Direita: Zac Efron (Foto: Reprodução Netflix)


A norte-americana Mckenzie Hillstrom, autora do blog notdotforgotten.tumblr.com, dedicado às vítimas de crimes violentos, conta que ela não “perdoa” os criminosos (sua própria mãe, cuja identidade não foi revelada, quase foi uma vítima de Ted Bundy), mas afirma que há uma linha tênue entre gostar de criminologia e idolatrar psicopatas. “Muitos jovens da Comunidade simpatizam com atiradores em massa porque se identificam com sua mentalidade, e isso pode ser realmente assustador”, declara, em entrevista à GALILEU. “A criminologia pode ser um assunto realmente intoxicante e, se você não estiver no espaço certo para estudá-la objetivamente, pode se tornar um ambiente perigoso.”

Hillstrom, assim como outros membros da TCC, acreditam que as histórias reais retratadas em filmes e livros muitas vezes são “romantizadas”. Um exemplo é o filme A irresistível face do mal, em que o galã Zac Efron interpreta Ted Bundy. Quando a obra estreou na Netflix, em 2019, diversos participantes da Comunidade afirmaram que o serial killer pareceu “amável” e “sedutor” — embora pessoas que conviveram com Bundy e seu biógrafos relatem que essas características foram essenciais para seu “sucesso” como assassino.

“Bundy realmente era um cara sedutor, como vários outras personalidades. Era como se tivesse uma áurea”, analisa Guilherme Spadini,  psiquiatra e psicoterapeuta formado pela USP. “Como os roteiristas poderiam evitar essas característica? Retratando-o de forma mentirosa? Acho que o ideal é mostrá-lo corretamente, mas deixar claro que, mesmo sedutor, ele era uma pessoa terrível.”

Christiano Menezes, diretor da editora Darkside, concorda com Spadini. Dentre os títulos publicados pela editora estão biografias de serial killers como Dennis Rader, o assassino BTK; clássicos do terror como Drácula; relatos de casos criminais famosos, como o de O. J. Simpson. Segundo Menezes, há muita cautela ao decidir quais títulos serão publicados. “As obras são resultado de longas investigações jornalísticas, embasadas em estudos forenses e psicológicos, focando sempre nos fatos”, conta.

Esse receio vem da crença de que atos violentos motivam outros atos violentos — o que não é de todo infundado. Estudos mostram que após o massacre de Columbine, por exemplo, o número de tiroteios em massa nos EUA cresceu consideravelmente e, em diversos episódios, os atiradores disseram ter se inspirado nos atos de Eric e Dylan.

Mais recentemente o filme Coringa reacendeu esse debate. Isso porque, nas telonas, o vilão de Gotham aparece como alguém excluído, mal compreendido e com um passado complicado, que acaba se tornando um assassino. Essa poderia ser apenas mais uma produção hollywoodiana não fossem os comentários de alguns espectadores que disseram se identificar profundamente com o personagem — e ameaçarem promover atos de violência como o dele. Não foi exagero, portanto, quando a polícia norte-americana optou por redobrar a segurança nas sessões de cinema do filme.

Cena do filme Coringa (Foto: Reprodução)

Ainda assim, cientificamente falando, estar exposto à violência não resulta em crimes — inclusive, há evidências de que o oposto aconteça. Em um estudo de 2008, por exemplo, cientistas descobriram que, durante a exposição de um filme violento nos cinemas, aproximadamente mil agressões a menos são documentadas nos finais de semana.

Para Guilherme Spadini, a associação que explica fenômenos como o de Columbine — em que um crime motiva outros — é um tipo de “contaminação cultural” para pessoas pré-dispostas a cometer esse tipo de ato. “Nenhuma pessoa que não tenha propensão à violência vai assistir a um filme e fazer algo ruim”, defende.

O jornalista Dave Cullen, autor do livro Columbine, concorda e acredita que muitos fatores interferem nessa “contaminação”, a principal delas sendo a cobertura midiática desses episódios. “Por que damos mais atenção aos assassinos do que às vítimas?”, questionou em entrevista concedida à GALILEU em 2019. “Algo importante para esses criminosos é fazer parte de um ‘espetáculo midiático’, e continuar focando neles só contribui para o problema.”

Essa prática já é adotada no universo da TCC. Mckenzie Hillstrom, por exemplo, se policia para sempre colocar as vítimas em primeiro lugar em suas postagens. “Lembrar-se delas e dos resultados das atrocidades cometidas pelos criminosos é o principal”, destaca.

O escritor Raphael Montes e a criminóloga Ilana Casoy, que publicaram o thriller de ficção Bom dia, Verônica pela DarkSide no ano passado, concordam que é preciso ter cautela, mas ressaltam que ela não pode ser confundida com censura. “O que me preocupa é: quem vai decidir qual o limite do ‘aceitável’?”, questiona Montes.

Na série Dexter, o protagonista trabalha de dia como especialista e de noite como assassino de serial killers. (Foto: Reprodução)

Casoy também faz questão de ressaltar que pessoas diferentes têm “gatilhos” diferentes, então é praticamente impossível criar uma obra totalmente isenta. E por isso, criar relações de “causa” e “efeito” — seja na mídia, seja em obras de literatura ou do cinema — para simplificar os motivos de um crime é tão problemático.

Segundo André Vilela, é preciso entender a complexidade do ser humano quando estamos falando sobre criminosos: assim como qualquer um de nós, os assassinos têm diversas facetas. “As pessoas querem separar quem comete crimes dos outros, como se fosse uma categoria não humana”, observa Ilana Casoy.

E o que os leva a cometer essas atrocidades não pode ser determinado por um único motivo ou característica de sua personalidade. Por isso, tantas pessoas consideram fascinante a ideia de entender o que se passa em mentes criminosas — e buscam compreendê-las por meio de estudos, livros e, por que não?, da TV.

“Obrigado.” Hannibal Lecter é um dos serial killers mais populares do cinema. Ele aparece pela primeira vez em O silêncio dos inocentes (1991) (Foto: Reprodução)

Revista Galileu. 29.3.2020.

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