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Um passo atrás

Por Marcela Wengerkiewicz 

Um Passo Atrás - YouTube

A janela trazia o mundo até ela. Outro dia. A velha agonia de sempre. Os remédios já não adiantavam. Gavetas fechadas. Remorsos não mencionados. Ninguém ao seu lado parecia entender. É só uma fase. Passa. Ela o olhava o céu de nítido azul e recuava mais para dentro de si mesma. Sentia-se presa dentro de uma inescapável realidade, antagonista de seu próprio reflexo. Máscaras prontas para sair, mais horas implacáveis para enfrentar. A vida tornou-se um emaranhado de impossibilidades impostas por ela mesma. Não havia mais desejo, anseio, ou qualquer sentido para simplesmente estar. Ser já não era. Não era amiga, mulher, irmã, filha, ou qualquer outra forma que a moldassem.

Bom dia. Como vai. Quer conversar. Me liga. Almoçamos. Vamos marcar. Relatórios e prazos não pareciam mais que uma distante miragem, míope, sussurrando para ela a desnecessidade de tudo aquilo. Aquela tarde chegou insípida como muitas outras. Uma pausa. Outro cigarro. Uma tragada e já se desvencilhou daquilo. Sorveu o ar, buscando. O que mesmo afinal? Por ela mesma? Por relações já marcadas por sua indiferença? Por intenções de fazer qualquer minúsculo esforço para retomar ao que um dia foi? Por algo que ainda lhe gritasse que estava viva e que esta condição lhe bastasse?

Sob a pressão dos pensamentos, passou a caminhar. Os prédios tornavam-se mais sombrios e simbólicos, e havia também obscuros rubores dentro dela, como se de repente todo o ar estivesse-a banhando de vergonha por suas paixões, ódios, invejas, tristezas, incertezas. No entanto, de fora, as vitrines refletiam algo tão estável, o contraste era estranho. Dentro, tudo em mutação, lá tudo calmaria. Avançou a rua desconexa de tudo, não tendo reparado na criança que corria ao seu lado, nem dos gritos que tentavam refrear a pequena saltitante do iminente perigo que se deslocava. Nesse ínterim, sem impor qualquer julgamento a si mesma, num instinto de proteção, de vida, que há muito não sabia ter em si, puxou aquela menina para si, acolhendo-a, tirando-a da linha de encontro daquela terrível dor. Ouvia-se o perpétuo som da respiração daquela vida que ali se encontrava junto dela. Ouvia-se a suspensão dos demais que observavam, deparando-se com o transitório, com o sopro que cada um deles é.

Suspirou.

Impossível aqueles olhares não se encontrarem. O dela sem compreender o impulso que lhe assaltou, em uma mistura de perplexidade e vergonha por tudo que havia nela. O da criança de uma incompreensão gratificada. Nada permaneceu igual durante aquele olhar. Ela se desvencilhou da comoção com certa náusea, diante do conflito que se instaurara entre seu desalento e esse novo impiedoso reflexo de estar viva.

Causou sobressalto.

Manteve-se em direção ao mar.

Sobre ele, à beira do próximo passo, parou completamente imóvel. Por tanto tempo ela esteve tão longe que não via a si mesma com clareza. Um passo vacilante. Nada entre ela e aquele fim. O olhar da criança a puxou de volta. Havia ali qualquer coisa que prendia em sua garganta e desarranjava sua resolução. Qualquer coisa naquela gratidão muda que lhe assombrou e envolveu, como que pedindo cortesmente para entrar, ajustando-se às qualidades daquela mente. Vinculando-se com ela como algo inerte.

Deteve-se.

Toda aquela descoberta de vida parecia um ácido vertendo sobre ela corroendo o não essencial e o ilusório, restando apenas a verdade.

Eis ali ela mesma.

Ela erguia-se desprovida de artifícios.

E nada havia ali além do sentido de ser.

Um passo para trás.

Marcela Wengerkiewicz é Graduada em Letras português/inglês pela Universidade Estadual do Paraná, Campus de União da Vitória. Servidora do Ministério Público do Estado do Paraná. Contista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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