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Pandemia faz crescer a população de rua no Rio

Jose Carlos Corrêa: todos os pertences em duas sacolas, desde que ficou sem emprego, há dois meses

“A rua não é local para ser humano viver. Mas foi o único lugar que me acolheu”. A fala é do pedreiro José Carlos Corrêa, de 54 anos, que diz ter trabalhado a vida toda, pagado seus impostos, mas, com a pandemia de Covid-19, perdeu seu rendimento e teve que entregar a quitinete que alugava por R$ 300. Como ele, camelôs, cozinheiros, vigilantes e porteiros, entre outras categorias, tiveram que recorrer a calçadas e praças da cidade após perderem a fonte de renda devido à quarentena. Segundo levantamento do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública do estado, em todo o Rio de Janeiro estima-se que 60 mil pessoas estejam em situação de rua. Só na capital, são pelo menos 17 mil. Atualmente, nem a prefeitura e nem o estado disponibilizam estatística em relação à população de rua. O último censo oficial, feito na gestão do então prefeito Eduardo Paes (DEM), é de 2016 e informava que 14 mil pessoas moravam nas ruas da cidade. Um levantamento da Secretaria municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (SMASDH) para tentar mensurar o tamanho real dessa população foi interrompido pela atual gestão durante a quarentena.

Após perder a casa, na Zona Norte, e o emprego, José Carlos decidiu que sua moradia seria sob as marquises do Centro do Rio até voltar ao mercado de trabalho. Atualmente, dorme de calçada em calçada.

— Os bicos que eu fazia pagavam o meu aluguel. Sou de São Luís do Maranhãoe estou no Rio há muitos anos, fazendo de tudo um pouco. Mas, por conta da pandemia, a situação agravou-se mil por cento — explica, com os olhos marejados. — A gente precisa ter a cabeça no lugar para não fazer o pior. Infelizmente, essa é a situação que estou vivendo há quase dois meses. Sempre trabalhei e hoje dependo da ajuda das pessoas para sobreviver.

Este ano, houve, até agora, 32.247 atendimentos, sendo 7.192 acolhimentos. A SMASDH não informou quantas pessoas aceitaram ir para os abrigos municipais da cidade entre março e junho de 2019. Para a defensora pública Carla Beatriz Maia, aumentou muito o número de pessoas em situação de rua nos últimos meses no Rio e em cidades como Angra dos Reis, Vassouras e Nova Friburgo. Muitas até a poucos meses tinham emprego e residência fixa.

— Infelizmente, aumentou muito em todo o estado. E na pandemia piorou. Esse crescimento absurdo é reflexo de falta de política pública dos municípios — destacou.

Tomas Melo, antropólogo e coordenador do Instituto Nacional de Direitos Humanos da População de Rua (Inrua), conta que, em todas as capitais do país, foi possível notar pessoas vinda de uma vida até antes da pandemia estável.

— Esse grupo de pessoas recorria às ruas em busca de ajuda para comida e tentava economizar seus rendimentos para o aluguel. Com o agravamento da crise, perderam seus trabalhos e vieram para a rua. São pessoas que não têm “trejeito” de rua, são ressabiados. São homens, mulheres e crianças que não têm vivência de ficar no relento. Muitas pessoas com malas, bolsas e isso tudo é muito incomum. Infelizmente, a grande maioria desse novo grupo vem de comunidades — diz o estudioso.

Morador de rua na Glória carrega mala com pertences
Morador de rua na Glória carrega mala com pertences Foto: Pedro Teixeira / Extra

Durante três dias, o EXTRA percorreu ruas do Centro, das zonas Sul e Norte e conversou com quem não pode “ficar em casa”, como orientam as autoridades de saúde, e tem enfrentado o “novo normal” ao relento. A grande maioria, na esperança de ser reinserida no mercado de trabalho, tem vergonha de contar sua história e não se deixa fotografar. É o caso do pintor de cenários de novelas Paulo Nogueira, de 56 anos. Separado, pai de quatro filhos e ex-morador do Caju, Paulo já passou por diversas emissoras de TV e hoje se vê obrigado a viver na rua porque está sem emprego. Com vergonha de contar para os familiares que está desempregado, diz aos parentes que está morando de favor na casa de um amigo. Mas Nogueira está nas ruas desde meados de abril, desde que entregou o imóvel que alugava.

Com apenas duas bolsas de viagem, ele percorre as vias do Centro em busca de uma recolocação e conta com a solidariedade de “almas boas e caridosas” para comer:

— A sensação é a pior. Hoje moro debaixo das marquises. É humilhante — conta, antes de receber uma quentinha distribuída por freis do Santuário e Convento Santo Antônio, no Largo da Carioca, na segunda-feira à noite. — Desde 20 de março, quandou a empresa onde presto serviço paralisou as obras, estou sem trabalhar. Peço a Deus força e sabedoria para lidar com essa situação. Essa será mais uma superação.

Para o antropólogo Tomas Melo, as autoridades nunca estiveram preparadas para cuidar da população em situação de rua e agora, com a pandemia e o crescimento exponencial dessa classe invisível, os órgãos estão atônitos, sem saber o que fazer.

A prefeitura, que não sabe sequer a dimensão dessa população, não sabe quantas contraíram o novo coronavírus. De acordo com a Secretaria municipal de Assistência Social, 10 foram diagnosticadas com síndrome respiratória aguda, mas o município não sabe se são casos de Covid-19. Atualmente, segundo a SMASDH, há quatro casos suspeitos da doença em abrigos na cidade, um “em isolamento na URS Carlos Portela e mais dois casos no CPA II no Centro da cidade, também em isolamento, porém não testados”, disse em nota.

Segundo a SMASDH, os bairros da cidade com maior concentração de pessoas em situação de rua são Copacabana, Leme, Glória, Centro, Lapa e Méier. O perfil dessa “nova população de rua”, segundo a defensora pública, é de homens negros, de baixa escolaridade e na faixa dos 40 anos. Em 2016, segundo o levantamento da Secretaria de Assistência Social, 87% eram homens e a 72% tinham entre 25 e 59 anos. Além disso, o estudo apontou que as principais motivações para deixar o lar foram: conflito familiar (35%), dependência química (22%) e desemprego (13%).

Solidariedade para aplacar a fome

Há um mês, diariamente uma equipe de frades franciscanos do Santuário e Convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca, distribui 500 quentinhas, após medir temperatura e higienizar com álcool gel as mãos de quem vai receber a ajuda: são 350 no almoço e 150 no jantar. A “tenda franciscana”, surgiu na capital paulista e foi trazida para o Rio por Frei Diego Melo, coordenador do projeto.

Jose Carlos Correia na fila para receber quentinha no Largo da Carioca

— Há duas semanas, uma mulher, de aproximadamente 40 anos, veio aqui e pediu a ajuda para ter um cobertor, porque tinha sido sua primeira noite em via pública. Ela trabalhava em um restaurante que fechou. Perdeu o emprego, foi despejada e hoje está em situação de rua — contou o religioso, que planeja aumentar o número de refeições doadas. — Percebemos na nossa fila, além dos moradores em situação de rua habituais, os que perderam a fonte de renda.

Um dos que recorre à doação é o ambulante Marcelo Barbosa, de 53 anos. Por muitos anos, ele trabalhou como camelô na cidade, mas há dois meses não conseguiu manter a residência que alugava no Jacaré:

— Dependo da ajuda da população. Graças a Deus, o pessoal do convento nos ajuda. O que mais me dói é não conseguir voltar a alugar um quartinho, sair da rua, trabalhar.

Segundo a secretária municipal de Assistência Social, Tia Ju, o auxílio emergencial do governo federal amenizou o problema no Rio.

— No entanto, acredito que quando essa ajuda acabar poderemos ter novamente essas pessoas nas ruas — afirmou, explicando que o censo para contabilizar a população de rua no Rio estava planejado para 17 de março, mas foi adiado: — A empresa que fará a pesquisa, junto com o Instituto Pereira Passos, já está contratada. Fizemos uma licitação e só estamos esperando acabar a pandemia para retornamos ao projeto.

Extra. Globo. 3.7.2020.

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