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Lastimável espetáculo

Por Bárbara Silvestre

Desde os primórdios da humanidade encontramos relatos de glórias exaltadas. E não são poucos os heróis cantados na literatura e no cinema.

Nós, árduos consumidores de conteúdo, somos cercados, cotidianamente, pelo fantasma da fama. Seja na leitura de um bom livro, num domingo à tarde assistindo Netflix, e até mesmo, nos stories do Instagram.

Mas, independentemente desta influência ficcional, a busca pela fama entre os mais diversos seres humanos, talvez, seja um comportamento natural da nossa espécie.

Ouso afirmar, com a prepotência característica dos afirmadores da verdade, que somos todos sedentos pela aprovação alheia, repetindo como um mantra sagrado “não importa o que ninguém vê”.

Ora, quem não gosta de saber que estão falando sobre você?

Claro que, na maioria das vezes, o prazer da popularidade é recorrente de um comentário positivo, de um elogio e um destaque pelas suas capacidades, sejam elas: o esforço de um trabalho, a perda de alguns quilinhos, uma atitude nobre e até mesmo, os atrativos físicos e os bens adquiridos.

Inclusive, é em busca dessa necessidade de destaque na sociedade, que muitos expõem os mais diversos aspectos da sua intimidade nas redes sociais, chegando até ao ridículo.

Porém, esta busca não se limita ao que é positivo. Ora, quem nunca pensou “falem mal ou falem bem, mas falem de mim”?

Afinal, é melhor ser odiado do que esquecido, ignorado.

Em 1533 nasceu, nos arredores de Bordeaux na França, um bebê que recebeu o nome de Michel de Montaigne.

Esta pequena criança cresceu e colheu os frutos de uma rígida educação, se tornando um dos grandes filósofos franceses que podemos encontrar na história da filosofia.

Foram muitos os ensaios escritos por Montaigne e diversos os assuntos abordados em sua filosofia.

Entretanto, hoje falaremos sobre um ensaio específico, conhecido como “Da Solidão”. Neste ensaio, Montaigne se dedicou a analisar os perigos morais e intelectuais da vida social, questionando o valor da solidão.

A solidão tratada pelo filósofo não é a física, mas sim, o desenvolvimento da capacidade de resistir à tentação de aquiescer indiferentemente às ações de massa e opiniões alheias.

Segundo Montaigne, não devemos renunciar completamente a paixão da fama, mas
sim, não nos tornarmos emocionalmente escravizados por ela porque, o empenho constante em busca da fama é a maior barreira para a paz de espírito.

Sobre os escravos da glória, o filósofo escreveu: “só tem seus braços e pernas destacados da multidão; suas almas, suas vontades, estão mais comprometidas com ela do que nunca”.

Logo, devemos cultivar o desprendimento afinal, a fama e a tranquilidade nunca podem ser boas companheiras.

Montaigne continua e aconselha que no lugar de buscar a aprovação dos que estão à nossa volta, devemos imaginar que há um ser verdadeiramente nobre e notável sempre conosco, observando os nossos pensamentos mais íntimos.

Isto porque, assim poderemos aprender a pensar objetivamente, buscando um comportamento mais sério e racional.

Compartilho da opinião do nosso filósofo, e acredito que se maior fosse o número de seres humanos que seguissem tal conselho, menor seria o meu sentimento de vergonha alheia.

Com menos frequência estaríamos expostos à mediocridade humana.

Por fim, meu amado leitor, o único conselho que posso expressar hoje, tanto para você quanto para mim, é o conselho de Montaigne.

Não deixemos que, pela influência deste bizarro espetáculo da sociedade, nos coloquemos em posição de ansiarmos por ocupar o papel de ator principal porque, quando as luzes se apagam, as cortinas se fecham e o show termina, nos bastidores o ator não nutre nenhum resquício de paz de espírito e encontra a sua alma escravizada.

Bárbara Silvestre é Mestranda em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Bacharela em Filosofia pela Faculdade de São Bento de São Paulo. Escritora e Colunista do Factótum Cultural.

Facebook: @brbarasilvestresilvestreoficial.

Instagram: @barbarasilvestreoficial.

Twitter: Silvestre_Babi.

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Um Amante do Conhecimento e com o desejo de levá-lo aos Confins da Galáxia !!!

Um comentário em “Lastimável espetáculo Deixe um comentário

  1. Caramba👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼🤔me fez pensar e questinar bastante algumas coisas🤔👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼✍🧠

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