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A vida manda oi

Melhores Brincadeiras da Infância

Era mais uma das tardes que passávamos reunidos na casa da Oma. Dessas tardes em que se encontravam bisnetos, tios, pais, primos, e análogos. Cauã, no auge de seus 10 anos e início do tormento da pré-adolescência, recebeu uma ligação telefônica de uma colega de classe, assim, sem nada, no meio daquela tarde. Sem pensar duas vezes, rejeitou a ligação.

A comoção foi geral. Palpites de toda sorte, previsões, relatos de experiências alheias, e o olhar de confusão de uma criança.

Depois, longe da inquisição familiar e a sós com meu filho, questionei-o sobre o motivo que o fez desconsiderar a ligação da amiga. Com resolutividade e uma simplicidade inerente a sua idade, ele me respondeu: “mãe, eu não tinha o que falar com ela. Ela deve querer saber da lição de casa, mas eu ainda não fiz a tarefa. Por que mais alguém liga pra outra pessoa? Ninguém liga só para dizer oi, assim, sem motivos”. Não consegui resistir à risada, a qual foi incompreendida.

Peguei-me pensando em quantos contatos mantemos pela vida apenas para ter a chance de dizermos um “oi”, apenas para saber se aquela pessoa específica está viva e bem, apenas para escutar uma voz, sem ter a chance de dizer mais que isso, ou pior, quando não há tempo nem disso, pois a vida se encarrega de mandar recado antes.

Ou ainda, sob os olhos da colega, quantos telefonemas deixamos de dar por falta de coragem, por incompreensão, por pressa, porque ficamos procurando motivos e justificativas para a simples expressão de gostar de alguém. Cauã, ainda não sendo tocado pelas paixonites da juventude nem pela nostalgia que a experiência traz, não compreende a diferença que um simples telefonema pode representar para certas pessoas.

Ainda mais tarde, passeando de carro com ele, comentei que, às vezes, realmente não há motivo para ligarmos para alguém e dar um oi, apenas porque é aquela pessoa que está do outro lado, e isso nos basta. Só posso torcer que, eventualmente, ele perceba o quanto é bom dar e receber “ois” despretensiosos, e que o tempo, ah o tempo, não seja implacável demais com ele.

Marcela Wengerkiewicz é Graduada em Letras português/inglês pela Universidade Estadual do Paraná, Campus de União da Vitória. Servidora do Ministério Público do Estado do Paraná. Contista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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Um Amante do Conhecimento e com o desejo de levá-lo aos Confins da Galáxia !!!

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