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Literatura e quarentena: o que a ficção pode oferecer nessa realidade?

Gisele de Souza Gonçalves

Cultura no Instagram: Ep. 02 – Literatura para uma quarentena ...

Os dias passam e continuamos em quarentena, nem todos, sabemos bem. Alguns não podem trabalhar em casa, outros não querem ficar. Assim seguimos. Para aqueles que podem se distanciar a rotina é uma grande incerteza, talvez ela esteja em construção porque não sabemos até quando ficaremos assim. Então, entre os sujeitos em uma casa pode haver de tudo: alegria, risos, choros, violência, afetos, compreensão, leitura… são muitas contradições e nem sabemos como ficaremos depois que isso acabar.

            Nesses tempos de distanciar-nos uns dos outros, algo nos aproxima: as histórias. Ler nos faz adentrar em outros mundos e diminui algumas distâncias, entre elas, nossa realidade e a percepção de outras.

            A literatura é uma ajuda para aquelas e aqueles que buscam entender a vida, ela o faz por meio da ficção. É ela que pode sugerir reflexões sobre o mundo, sobre sentimentos, sobre aquilo que não vivenciamos, mas por ela somos aproximados. Como Antonio Candido já dizia, a literatura humaniza. Como não pensar sobre a existência feminina em um ambiente conservador e injusto lendo “Desmundo” de Ana Miranda? Como não imaginar a angústia da incerteza sofrida por Bentinho em Dom Casmurro? Como não conhecer um pouco das culturas africanas ao ler Mia Couto? Como não refletir sobre a nossa sociedade desigual lendo Carolina Maria de Jesus? Como não se sensibilizar em “A morte do leiteiro” de Carlos Drummond? Ou ainda como não se encantar com os livros de Ruth Rocha numa escrita tão bem feita para a infância (e também para adultos)? Contextos, cenários e personagens distintos podem nos oferecer um bom exercício de alteridade, de autoconhecimento e de construção de empatia.

            As boas histórias da literatura fazem de nós pessoas mais gente, gente de verdade, gente humanizada – irônico usarmos “humanizar” como algo não intrínseco ao fato de se nascer humano –, lendo podemos pensar o quanto podemos melhorar, o quanto ainda temos preconceitos e o quanto podemos nos libertar de algo que aprisiona o ser humano: a ignorância. Essa mesma que nos faz negar toda e qualquer mudança por medo ou desinformação.

            Nesses tempos de quarentena, vale muito dedicar um tempinho para a literatura, para a ficção que nos leva a um tempo-espaço não nosso, mas onde podemos estar nos reconstruindo ou ainda desconstruindo os muitos rótulos impostos a nós mesmos ou colocados nos outros. Afinal, a quarentena também serve para reavaliar o que realmente importa dentro desse universo singular construído em cada um de nós. Talvez a literatura possa nos ajudar a identificar quem realmente somos para além das aparências.

Gisele de Souza Gonçalves. Professora e Doutoranda pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Mãe.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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