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Cápsulas para não ser cabaço em discussões sobre o fascismo

por Renato Kress

||| O termo #fascismo refere-se a um movimento político que prega uma forma específica de regime de classe autoritário em uma sociedade capitalista. O fascismo surgiu na Europa Ocidental após a Primeira Guerra Mundial, embora sua ideologia tenha raízes muito mais profundas nas ações e no pensamento político europeus.

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Características gerais

Como regime de classe, o fascismo prega a aceitação de um tipo de capitalismo como estrutura e como processo econômicos, pela eliminação de todas as classes trabalhadoras independentes e de outras organizações políticas, e pelas formas autoritárias de governo e administração políticas.

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Foco na obediência e silenciamento

A ideia principal do governo fascista é não ter, em hipótese nenhuma, qualquer forma de transparência governamental. Absolutamente todas as medidas governamentais são tomadas como questão de fé. Questionar o governo é crime punido com a morte.

O fascismo rejeita conceitos liberais burgueses como liberdade de organização e representação por meio de partidos. O fascismo rejeita, em verdade, tudo aquilo que coloca seu poder absoluto em cheque.

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Uma única elite política

O propósito é estabelecer uma elite política permanente em um Estado corporativo. No caso brasileiro o propósito é manter a família miliciana Bolsonaro como elite política permanente, juridicamente blindada, com carta branca para roubar, perseguir e matar quem eles quiserem.

Como ideologia o fascismo originário caracteriza-se por um extremo nacionalismo (que frequentemente se torna racismo), e uma política do discurso fortemente emotiva, sempre apelando para valores afetivos que, quando questionada, vai reagir alegando trabalhar “para os interesses da nação”.

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Vira-latismo fascista

O fascismo vira-lata bolsonarista mal disfarça o uso das bandeiras norte-americanas em suas passeatas, usando o discurso nacionalista como verniz fosco e tosco para tentar disfarçar a entrega de todas as riquezas e recursos estratégicos nacionais a empresas privadas multinacionais. Disfarça mal. Engana os infantilizados que caem na sua chantagem emocional.

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Surgimento e motivações

Apesar dos movimentos fascistas existirem em todos os países da Europa desde a década de 1920 (sim, cem anos atrás!), foi somente na Alemanha, Itália e Espanha que eles conquistaram poder político.

Os movimentos fascistas do início do século XX representaram uma reação à organização sindical e às conquistas da classe trabalhadora que começava a se organizar por direitos dentro do Estado liberal. No início eram organizados principalmente para eliminar direitos dos trabalhadores e impedir a ascensão social da classe operária.

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O apoio dos ressentidos

O apoio inicial a esses movimentos veio de setores da população excluídos da política e que se sentiam excluídos economicamente dos privilégios da burguesia e da classe trabalhadora, em especial camadas da pequena burguesia, clero (sim, muitas religiões já aderiram ao fascismo, Feliciano e Macedo não são novidade), algumas categorias profissionais e parte do proletariado.

No Brasil o fascismo contemporâneo alimenta o delírio narcisista de uma classe média e rica que deseja se apartar – se separar – do que reconhece como “inferior” em sua visão de mundo, a saber: o negro, o indígena, a mulher, os homossexuais, trans, nordestinos, nortistas etc.

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Promessas falsas

O fascismo originário representou uma falsa solução à medida que constituía um novo caminho para alcançar o poder político e prometia, por meio de uma reorganização nacional, um futuro econômico e social radicalmente e diferente. Exatamente igual às bobajadas românticas que nossos parentes delirantes recebem via whatsapp.

No fascismo brasileiro tudo é feito para desviar a atenção do momento presente. Todos os crimes atuais são justificados com apontamentos para um passado fantasioso “no tempo do PT era pior!”, “o PT destruiu o país”, “nunca houve ditadura no país”, “a ditadura só prendeu criminosos” ou para um futuro ainda mais fantasioso “assim que eliminarmos esses comunistas”, “quando todos os homens de bens tiverem armas”, “assim que acabarmos com o STF”, “assim que acabarmos com os direitos trabalhistas”, “assim que acabarmos com a aposentadoria”. A atenção do fascinado pelo fascismo brasileiro deve estar sempre no passado ou no futuro. O presente, com os crimes da família miliciana no poder, é tabu.

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Massa de manobra e apoio estratégico

Ainda que haja sempre uma considerável massa de manobra entre os pequenos burgueses, classe trabalhadora e toda espécie de sádicos, o apoio decisivo para o fascismo sempre veio (e continua vindo) com suporte político e financeiro do capital monopolista. Bancos e empresas sempre se beneficiaram mais do que políticos do fascismo.

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A rota para o poder

A rota para o poder político sempre esteve baseada no apoio tático às atividades eleitorais – atualmente o clima de eleição é mantido via fluxo pago de #fakenews, sempre apelativas e emocionalmente manipuladoras – combinadas com organizações e atividades paramilitares – como o grupelho dos “300” em Brasília, visando sempre o golpe de Estado com a desculpa ridícula da “autodefesa”.

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Meta final

O objetivo futuro do fascismo é sempre um Estado nacional “purificado” de todas as formas de “impurezas” (negros, índios, movimento feminista, movimento GLBTT, e, no fascismo brasileiro contemporâneo, também os idosos), dos direitos sociais e civis. O fascismo prega a obediência e o silêncio.

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Mulheres

É explícito que, no fascismo, as mulheres são colocadas em um regime de subordinação política e civil, restritas à função de reprodutoras biológicas da Nação, como pregado pela sua representante brasileira, #Damares.

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Caminhos políticos

No fascismo originário havia o objetivo de dissolver o parlamentarismo burguês como forma de governo para substituí-lo por um governo do partido único fascista, que encarnaria todos os “interesses nacionais”. “Interesses” que nunca seriam claramente descritos e delimitados, mas em nome dos quais se exigiria sempre obediência e silêncio.

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Caminhos brasileiros

No fascismo brasileiro capitaneado por #JairMessiasBolsonaro, sua família e demais cúmplices, a ideia é substituir Câmara e Senado por apoiadores do governo e, assim que possível, perseguir e assassinar toda “dissidência” política.

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O Boicote como arma

As rotas para o poder na Itália, Alemanha e Espanha diferem em alguns aspectos consideráveis. De qualquer forma, em todos os casos, o apoio de importantes setores da classe capitalista dominante foi crucial, tanto em termos de credibilidade política quanto em apoio financeiro.

Por isso aqui, na ascensão do fascismo brasileiro, é importante boicotarmos o máximo possível todas as empresas que divulgarem direta ou indiretamente ideologias fascistas, fakenews (tem nome bonito, mas é só a boa e velha mentira mesmo, gente), discursos de ódio e apologia a crimes contra a Nação e seu povo.

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O mesmo discurso, sempre

As promessas do fascismo sempre envolvem um espectro mágico (bem infantil) de “regeneração” nacional e supressão da organização política da classe trabalhadora. Diziam em 1920 que isso traria ganhos políticos e econômicos para todos. Não deu certo em 1920, mas adivinhem: o discurso é o mesmo em 2020! Por isso devemos entender o fascismo originário – e sua versão nacional de 2020 – como uma forma de governo de classe, uma classe infantilizada, reacionária, emotivamente manipulável e superficialmente nacionalista.

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Fascismo e racismo

A relação entre fascismo e racismo está ligada ao complexo cultural ativado na sociedade que aceita e silencia diante do fascismo. O movimento fascista na Alemanha reproduziu explicitamente uma noção do nacionalismo com bases biológicas que excluía os judeus, considerados uma “raça” supostamente distinta e inferior por eles, e cuja sobrevivência, caso permitida, poderia provocar a extinção da humanidade. Algo muito semelhante aos discursos fascistas brasileiros no que tange aos ataques constantes ao #movimentonegro#movimentofeminista, movimento pelos #direitoshumanos e pelos direitos dos #povosoriginários.

O nacionalismo explicitamente biológico não foi tão expressivo na Itália ou na Espanha, mas, enquanto apoiadores internacionais, todos os governos faziam vista grossa à violência praticada contra os mesmos grupos. Exatamente como as polícias militares no Brasil tendem a ignorar, quando não promover, a violência contra esses setores da população Há uma correlação direta entre a ascensão dos movimentos fascistas, nacionalistas e um racismo explícito.

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Derrota

A derrota dos poderes fascistas na Segunda Guerra Mundial não levou à eliminação dos movimentos fascistas na Europa ocidental. Alguns partidos políticos fascistas foram permitidos e muitas organizações civis de cunho fascista também foram tolerados. Agora eles voltaram e incentivaram os delírios da população brasileira, imersa na hipercompetitividade neoliberal do “todos contra todos” e do “cada um por si”, no complexo cultural escravocrata e no autoritarismo de uma classe que não se admite perdendo privilégios e compartilhando direitos.

RENATO KRESS é antropólogo, cientista político, tio de oito sobrinhos que são grupo de risco no regime fascista.

Caos Filosófico. 8.6.2020.

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