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A metamorfose da desumanização

Por Bárbara Silvestre

As críticas certeiras de A metamorfose, de Franz Kafka - Tribuna ...

De toda a produção intelectual humana, a obra literária se destaca não apenas ao meu gosto pessoal, mas também, na minha busca epistemológica.

Ora leitor, enquanto o fazer filosófico muitas vezes é frio, encarcerado na sua própria lógica sistêmica rigorosa e, infelizmente, inacessível e de difícil compreensão às mentes mais comuns, habituadas à atrofiação cognitiva.

A literatura, por sua vez, pelo seu caráter de contar uma estória ao leitor, é facilmente mais contagiante e acessível às almas inquietas, desacomodadas, inconformadas, desbravadoras e questionadoras. Um clássico literário, inesgotável em si, transcende sua época.

O que significa que, longe de qualquer anacronismo, este tipo de literatura fala à essência humana e, por isso, pouco importa verdadeiramente se a obra foi escrita na Antiguidade, no medievalismo, Renascimento ou Modernidade. Se assim não fosse, a Ilíada de Homero, Édipo Rei de Sófocles, a Divina Comédia de Dante, o Fausto de Goethe, Guerra e Paz de Tolstói, Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski, Hamlet de Shakespeare, Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis e diversos outros clássicos, não seriam estudados até hoje por sortidas áreas do conhecimento: psicologia, ética, estética, religião, letras, sociologia e etc.

Há muito de filosofia na boa literatura e, fazendo jus a esta minha afirmação, hoje iremos analisar A Metamorfose de Franz Kafka.

Não sou crítica literária, nem estudante de letras e, por isso, deixarei análises mais específicas aos especialistas. Assim, não discutiremos se a obra é fantástica, absurda ou modernista. Nem analisaremos o método de escrita kafkiano, muito menos todos os aspectos característicos de uma Novela ou os numerosos dramas de cada personagem.

O que eu pretendo hoje é apenas direcionar uma possível compreensão filosófica de um dos aspectos principais da obra: Gregor Samsa ao acordar se descobre metamorfoseado em um inseto repugnante que, em nenhuma passagem da obra é literalmente especificado como sendo uma barata, entretanto, é subjetivamente compreendido como assim sendo.

Curiosamente, quando o nosso personagem principal levanta-se da cama e cria consciência de sua nova situação corporal, sua primeira e grande preocupação desdobra-se à ausência de suas mãos para abrir a porta de seu quarto e poder, enfim, pegar o bonde para ir trabalhar.

Aos olhos dos leitores menos atentos, interessados apenas com o desenrolar do enredo da estória, este detalhe pode passar batido. Mas para nós, árduas mentes questionadoras, este é um aspecto que merece o máximo de atenção.

Esta curiosa primeira preocupação do personagem nos possibilita compreender a metamorfose de Gregor como uma genial metáfora à reificação do período Moderno. Isto é, a coisificação do ser humano inserido numa sociedade que tem enquanto objetivo a lógica produtiva, da eficácia; gerando uma vida social pautada pela lógica de bons resultados. O medo de perder o emprego é muito maior e primeiro para o personagem principal de Kafka do que a perda de sua humanidade.

Observe leitor que há um tipo de desordem mental aparente na figura de Gregor Samsa porque, em seu processo de metamorfose animalesca ele perdeu coisas muito mais importantes do que meramente o seu emprego. Porém, pelo fato desta ter sido sua primeira inquietação e principal lamentação, podemos concluir que o pobre Gregor já estava doente; havia se desumanizado pela lógica contínua, repetitiva e cansativa da produtividade. E, assim, sua metamorfose não passa de uma realização plena de um processo que, anteriormente, era apenas simbólico.

Com isso, Kafka nos propõe a catarse de um violento mergulho à nossa interioridade essencialmente humana a partir do rigoroso exame acerca do quão desumanizados nos encontramos. Pois bem, esta é a proposta digna de um grande filósofo que está além da academicidade.

Bárbara Silvestre é Mestranda em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Bacharela em Filosofia pela Faculdade de São Bento de São Paulo. Escritora e Colunista do Factótum Cultural.

Facebook: @brbarasilvestresilvestreoficial.

Instagram: @barbarasilvestreoficial.

Twitter: Silvestre_Babi.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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Sou Bacharel em Filosofia pela Faculdade de São Bento de São Paulo. Estou cursando o Mestrado em Filosofia com ênfase em Teoria do Conhecimento pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Um comentário em “A metamorfose da desumanização Deixe um comentário

  1. Perfeita Analise , eu faço parte da Facção que crê na Barata ter sido o inseto em que Sansa se transformou.
    Se não fosse uma barata ,perderia muito da carga emocional, visto que a barata esta no alto da piramide de insetos nojentos , geralmente outros insetos não causam tanta repulsa quanto os blatídeos ,besouros são geralmente mais aceitos e tolerados , uma aranha talvez, mas a aranha nao pertence ao gênero dos insetos,e sim os aracnídeos .
    não ha pessoa que dificilmente não queira matar uma barata, mesmo que pelo simples motivo de vê-la.

    li uma vez que Kafka tinha péssima relação paterna ,o pai inclusive teria chamado ele de “inseto”.
    ( e qual o o inseto no alto da “piramide de nojo” dos humanos ?)

    Realmente passamos por uma desumanização,onde as pessoas são substituíveis como artigos criados em escala industrial.

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