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Perdendo a cabeça: a figura do carrasco, ontem e hoje

Por Neemias Moretti Prudente

O executor público, mais conhecido como carrasco, algoz ou verdugo, era um nome dado ao funcionário do Estado encarregado de aplicar a lei criminal (eclesiástica), notadamente de torturar e executar pessoas (e animais) a morte.

A origem da palavra vem de um indivíduo que viveu em Lisboa no século 15, o Belchior Nunes Carrasco, homem que ficou à frente das execuções comandadas pelo Estado de Portugal durante muitos anos.  

As execuções se davam por várias razões. Algumas até poderiam ser consideradas justas, devido ao crime do condenado. Porém, muitas outras eram por razões fúteis. Lembrando que naquele tempo o processo era arbitrário, não existiam direitos e garantias constitucionais, direitos humanos etc. como nos dias de hoje.

Apesar de ser um trabalho antigo, esses algozes ficaram famosos por toda a Europa durante a Idade Média e a Revolução Francesa, além de momentos de grande tirania, onde o governo, para se manter no poder, aumentava a repressão e a perseguição contra opositores.  

Nessa época, a maioria dos criminosos escapava. Então, quando os pegavam, eles realmente gostavam de dar um bom exemplo e ter um espetáculo público – daí a necessidade de que os carrascos realizassem esse trabalho. Na era medieval, as execuções públicas destinavam-se a atingir dois objetivos: primeiro, chocar os espectadores e, segundo, reafirmar a autoridade divina e temporal. As execuções deveriam aterrorizar. O que se buscava é um verdadeiro teatro ou show de horrores.  

A maioria dos carrascos não escolhiam a profissão por si mesmos. Em vez disso, era imposto a eles. Eram escolhidos entre as pessoas que já realizavam trabalhos considerados desagradáveis e que pertenciam ao degrau mais baixo da escala social (ex. agentes funerários, coveiros). Quando ninguém mais estava preparado para fazer o trabalho, então ofereciam o cargo à criminosos condenados, que podiam poupar suas próprias vidas em troca de tirar as de seus companheiros de prisão. 

Em alguns países, o cargo de carrasco era passado de pai pra filho (hereditário), criando “dinastias de execução”. Notadamente, os filhos normalmente viam-se obrigados a atuar igualmente como carrascos, porque eram impedidos de exercer outras funções. 

Como clãs inteiros foram formados, geralmente os carrascos (e seus filhos) casavam com as filhas de outros carrascos, coveiros, ex-combatentes ou prostitutas. As pessoas chamavam os executores de “filhos de prostitutas” e estavam certos, porque muitas vezes se tornavam esposas de executores. Afinal, representantes de outras classes não davam suas filhas para casar com carrascos (e seus filhos).

Uma das famílias de carrascos mais conhecida eram os Sansons, de origem francesa, que durante 200 anos ocuparam o cargo público de Carrascos na França, país onde, realmente, tinham uma grande quantidade de trabalho. Principalmente durante a Revolução Francesa, onde em certos períodos chegaram a executar cerca de 300 pessoas em um único dia.

O mais famoso dos Sanson foi Charles-Henri Sanson, que ocupou o cargo de Alto Carrasco da Primeira República Francesa, sendo responsável diretamente por quase 3.000 execuções, incluindo a do rei Luís XVI e o revolucionário Robespierre.

Charles-Henri Sanson – Wikipédia, a enciclopédia livre
Charles-Henri Sanson

Há uma história na França, que versa sobre um encontro de Napoleão Bonaparte com Charles-Henri Sanson, em que o governante Francês trava um diálogo interessante com o carrasco, que um dia poderia cortar sua cabeça:

  • Napoleão: “Sanson, como, após tantos mortes, você consegue dormir em paz?
  • Sanson: “Se os imperadores, os reis e os ditadores podem dormir bem, por que eu não conseguiria o mesmo?

Geralmente o carrasco tinha uma vida de viajante, pois sua morada não costumava ser na mesma cidade onde executava as pessoas. O Estado marcava o dia, pagava a estadia e alimentação do executor, mas a maioria deles dormia ao lado dos calabouços e das prisões onde os condenados se encontravam.

Quando moravam nas cidades, eram enviados para as margens da sociedade. A maioria foi forçado a viver fora dos muros da cidade ou perto de um local já impuro dentro da cidade, normalmente um matadouro ou um leprosário. 

Ao longo dos anos, com tantas mortes na carreira, o carrasco passou a ser visto como alguém que trazia má sorte, se tornou, no consciente coletivo, uma pessoa que carregava nas costas todo o sangue derramado pelo Estado, um incorporador da vingança do povo. Tanto, que na França ou em países Ibéricos, existiam cemitérios apenas para enterrar carrascos. Essa quantidade de preconceito e estigma levaram muitos desses funcionários a esconder o próprio rosto e evitar situações em que pudessem ser identificados como profissionais da morte. Em alguns países os carrascos eram mutilados (por exemplo, cortando uma ou ambas orelhas), marcados (em algum lugar da cabeça) ou eram obrigados a usar uma insígnia na roupa para que pudessem ser facilmente identificados pelo público. 

Legalmente, o carrasco (ou membro da família) não podia ter cidadania, ser admitido em uma guilda, ocupar um cargo público, servir como guardião legal ou testemunha e ou até mesmo escrever um testamento válido. Alguns lugares da Europa chegaram ao ponto de instituir leis que visavam especificamente os carrasco e o que eles podiam ou não fazer no seu dia-a-dia (v.g. proibidos de fazer refeição com outras pessoas, não eram convidados para outras casas, não tinham permissão para entrar nas igrejas, o casamento deveria ser realizado na casa do carrasco, seus filhos não eram aceitos nas escolas). De fato, eram isolados da sociedade, ocupando o submundo. Muito se associavam a outros “indesejáveis”, como prostitutas, leprosos e criminosos. Assim, eram necessários para manter a lei e a ordem, mas estigmatizados por causa de seu trabalho. Foram considerados necessários e impuros ao mesmo tempo. 

No entanto, havia algumas vantagens profissionais nesse trabalho. Além de receberem um pequeno salário, os carrascos se beneficiavam de algo chamado “havage”, um tipo de imposto que lhes dava o direito de tomar uma porção de comida e bebida de vendedores do mercado de graça. Além disso, as autoridades geralmente davam ao carrasco hospedagem grátis e liberavam pedágios e impostos. Eles podiam também tirar todas as coisas da pessoa executada. Estes pequenos subsídios destinavam-se a compensar o isolamento social dos carrascos – e obrigá-los a permanecer no emprego.

Outra maneira de ganhar dinheiro para eles era trocar coisas incomuns. Estes incluíam partes do corpo de pessoas executadas, pele, sangue e várias poções. Os alquimistas estavam convencidos de que você poderia criar poções especiais a partir desses ingredientes. Eles [alquimistas] também compravam cordas utilizadas no enforcamento, pois de acordo com algumas lendas, poderia trazer boa sorte ao seu dono. Os médicos compravam o corpo completamente e realizavam neles os estudos do corpo humano e dos órgãos internos. Os magos compravam crânios para seus rituais.

Os carrascos não eram ignorantes. Ao contrário, eram alfabetizados e tinham conhecimento sobre o corpo humano, anatomia e medicina. Inclusive,  algumas pessoas iam a casa do carrasco e pediam para serem curadas. Muitos carrascos mais curravam pessoas do que executavam.

O profissional da morte precisava ser especialista em seu trabalho, inclusive em manejar os vários aparelhos de tortura, que ia desde torturas (visando arrancar confissões) como chicotadas (com uma pitada de sal) e queima das partes íntimas, a mortes por esquartejamento (onde o apenado era amarrado a cavalos e tinha o corpo despedaçado), enforcamento, fogueira e a terrível decapitação por machadada, esta última exigia do Carrasco uma mira e habilidade ímpar para arrancar a cabeça do sentenciado em no máximo dois golpes. Muitos carrascos erravam o pescoço do condenado e acertava-lhes o braço, ombros, parte da cabeça, o que atrasava ainda mais a execução e transformava a ação em algo extremamente doloroso. Assim, esperava-se que os executores fossem bem sucedidos a cada execução. Se falhasse, seria acusado não apenas de incompetência, mas também de crueldade.  Na Alemanha, se o carrasco falhasse após o terceiro golpe, ele se via nas mãos da multidão, forçado a morrer no lugar do criminoso. Às vezes, um carrasco mal sucedido era atacado pelos espectadores furiosos e, se ele sobrevivesse, às autoridades o puniam retendo seu pagamento [ou] com prisão ou demissão.

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Machado Medieval utilizado pelos carrascos

Além das torturas e mortes os carrascos também tinham contato com os últimos momentos de vida dos homens que iam matar. Essa situação gerou um código de ética entre esses homens que versava sobre a seguinte máxima: As coisas que ouvimos, seja de reis ou ferreiros, no momento de suas mortes, não devem ser divulgadas ou levadas em consideração, são homens desesperados, que jamais serão ouvidos novamente pela sociedade.

Cumpre apontar, ainda, que segundo o Ipsum Libri, os carrascos foram inseridos na sociedade pelo papa Urbano II. Isso porque, durante as cruzadas, os prisioneiros do império Sassânida começaram a lotar as cadeias. Então, o papa teve a ideia de criar este cargo para dar uma limpa nas prisões. Devido ao seu sucesso, logo esse cargo cargo começou a se espalhar pela Europa e passou a ser utilizado em vários reinos e países.

Nessa linha, não poderia deixar de esclarecer, que na época medieval, na Europa, existia o Tribunal de Inquisição, também chamado de Santo Ofício. Tal instituição era formada pelos tribunais da Igreja Católica  que perseguiam, torturavam, julgavam e puniam pessoas acusadas de se desviar de suas normas de conduta (hereges, suspeitos de bruxaria ou pregadores que se afastassem de sua doutrina oficial). Era o carrasco quem aplicava as “práticas inquisitoriais” (tinha até manuais para orientar carrascos), já que o serviço sujo não poderia ficar a cargo dos padres. O carrasco era o responsável, não apenas por matar, mas por punir fisicamente e arrancar confissões diversas. Um bom carrasco era aquele capaz de fazer o acusado confessar, infligindo lhe o máximo de dor, fazendo o sofrer, mas continuando vivo. É importante ressaltar que, na Inquisição, as torturas não tinham como função de morte do acusado, que seria feito depois, de maneira pública, mas sim arrancar confissões, que era considerada a mais importante prova nos tribunais, assim ela precisava ser extraída a qualquer custo. Ao pobre pecador que reconhecia e expiava seus pecados (crimes), servindo voluntariamente como exemplo de advertência, era oferecido em troca, uma “boa morte” pelo carrasco, ou seja, uma morte rápida e a promessa de salvação. Amém.  

Enfim, eram pessoas comuns forçadas a um trabalho que ninguém mais faria e em uma época em que a execução era considerada essencial para manter a paz. Eram vistos como agentes da lei. Odiados e temidos pela população. 

O cargo de carrasco (bourreaux, em francês) foi extinto na França somente em 1981, após a última execução por Guilhotina que ocorreu em 1977. O sentenciado foi um Tunisiano acusado de torturar e matar a própria mulher. Veja o vídeo abaixo:

Após essa morte, filmada e divulgada em todo o mundo, o governo Francês resolveu extinguir o cargo e abolir, de vez, a pena de morte, deixando como carrasco, somente as paredes e ferros que constituem uma cela de prisão (as masmorras atuais).

Embora a figura do carrasco clássico não exista mais, ainda hoje existem especialistas responsáveis por retirar a vida de condenados em países que possuem a pena de morte em seus códigos penais – como por exemplo, nos EUA.

Alguns, ainda, exercem o ofício de forma voluntária e de bom grado, nas sombras e na ilegalidade, praticando torturas e execuções nas ruas, delegacias e prisões Brasil afora – contra aqueles que por qualquer razão (por pensar diferente, por causa da cor da pele, pela opção sexual) são considerados inimigos a serem eliminados. Aliás, são apoiados e vistos como heróis (ou mitos) por boa parte da população, inclusive pela mais alta autoridade brasileira, que diz que seu livro de cabeceira são as memórias de um notório “carrasco” da ditadura militar, brilhante Ustra

Por fim, levando em conta que 46% dos brasileiros são favoráveis a pena de morte, você está preparado para assumir a função pública de Carrasco? Ou prefere ser o torturado/executado?  

Agora que você leu e se inteirou do assunto, indico o filme “O Carrasco” (2005), que melhor ilustra essa figura do executor público.

O Carrasco - 31 de Agosto de 2005 | Filmow

Neemias Moretti Prudente, Professor, Criminalista, Mestre e Especialista em Ciências Criminais, Graduado em Direito, Licenciado em Filosofia, Escritor, Ufólogo e Anti-Penalista. Diretor Geral e Editor Chefe do Factótum Cultural.

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Um Amante do Conhecimento e com o desejo de levá-lo aos Confins da Galáxia !!!

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