Silhouette fragmented by anxiety and fear words contrasted with person organizing hexagons representing CBT concepts
The image contrasts mental fragmentation with the structured approach of cognitive behavioral therapy.

Resumo: O presente ensaio discute criticamente a relação entre sofrimento psíquico, classificação diagnóstica e psicoterapia baseada em evidências, sustentando que os fundamentos clássicos da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e da abordagem multimodal permanecem teoricamente consistentes e clinicamente relevantes para responder a grande parte das demandas contemporâneas em saúde mental. Parte-se da hipótese de que a expansão contínua de novas nomenclaturas psicoterapêuticas e fragmentações conceituais, embora possa contribuir para a delimitação de fenômenos específicos, nem sempre produz avanços proporcionais em eficácia clínica, precisão diagnóstica ou capacidade explicativa. Em contraposição a leituras excessivamente patologizantes da experiência humana, argumenta-se que os modelos desenvolvidos por Aaron Beck, Albert Ellis, Albert Bandura e Arnold Lazarus oferecem um arcabouço epistemologicamente robusto para compreender processos cognitivos, crenças disfuncionais, baixa autoeficácia, padrões relacionais e modalidades múltiplas de funcionamento psicológico. Reconhece-se, simultaneamente, a relevância organizadora dos sistemas classificatórios, especialmente do DSM-5-TR e da CID-11, na comunicação científica, na pesquisa e na padronização diagnóstica. Entretanto, problematizam-se os limites desses sistemas quando categorias diagnósticas passam a operar de maneira reificada, obscurecendo a singularidade da experiência subjetiva e os determinantes contextuais do sofrimento. Defende-se que a reconstrução do self em psicoterapia depende menos da proliferação de novos enquadramentos conceituais e mais do aprofundamento crítico de fundamentos já consolidados empiricamente, capazes de articular rigor técnico, flexibilidade clínica, escuta qualificada e intervenção eticamente orientada.

Palavras-chave: psicoterapia baseada em evidências; Terapia Cognitivo-Comportamental; despatologização; medicalização; abordagem multimodal.

1. Introdução

O campo contemporâneo da saúde mental encontra-se atravessado por uma tensão epistemológica persistente entre duas demandas simultâneas: a necessidade de reconhecer e tratar adequadamente o sofrimento psíquico e o risco de converter experiências humanas ordinárias em categorias diagnósticas excessivamente abrangentes. Em dinâmicas sociais marcadas por aceleração produtiva, hiperexigência, fragilização de vínculos interpessoais e crescente exposição a estressores ambientais, manifestações como ansiedade, tristeza, insegurança, desânimo e dificuldades adaptativas passaram a ocupar posição central na clínica psicológica e psiquiátrica (FRANCES, 2013; HAN, 2017; HORWITZ; WAKEFIELD, 2007).

Embora tais manifestações possam, em determinadas circunstâncias, configurar transtornos mentais clinicamente relevantes, observa-se o risco iminente de que sofrimentos situacionais, crises existenciais e respostas emocionais compatíveis com a variabilidade humana sejam rapidamente absorvidos por enquadramentos diagnósticos rígidos. Diante desse panorama, a psicologia clínica é convocada a sustentar simultaneamente rigor científico, responsabilidade ética e sensibilidade fenomenológica, evitando tanto a banalização do sofrimento quanto sua patologização indiscriminada (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2022).

Este ensaio parte da hipótese de que parcela significativa das respostas clínicas necessárias a esse contexto já se encontra suficientemente delineada nos fundamentos clássicos da Terapia Cognitivo-Comportamental e da abordagem multimodal. Sustenta-se que os modelos desenvolvidos por Aaron Beck, Albert Ellis, Albert Bandura e Arnold Lazarus permanecem teoricamente consistentes, empiricamente relevantes e clinicamente operacionais para apreender e intervir sobre o sofrimento psicológico contemporâneo, sem depender da proliferação contínua de novas nomenclaturas ou reformulações conceituais fragmentárias (BECK et al., 1979; BANDURA, 1986; ELLIS, 1962; LAZARUS, 1981).

Tal pressuposto não implica rejeição automática às chamadas terapias contemporâneas ou às ampliações teóricas recentes da tradição cognitivo-comportamental. Ao contrário, reconhece-se que diferentes desenvolvimentos clínicos contribuíram para ampliar estratégias terapêuticas, incorporar variáveis contextuais e aprofundar investigações sobre processos psicológicos complexos. Ainda assim, argumenta-se que muitos desses avanços permanecem epistemologicamente ancorados em princípios já consolidados nos modelos clássicos, especialmente no que se refere à reestruturação cognitiva, autorregulação, aprendizagem observacional, flexibilidade comportamental e adaptação contextual (HAYES; HOFMANN, 2018; BANDURA, 1997).

Em paralelo, admite-se que sistemas classificatórios como o DSM-5-TR e a CID-11 exercem função relevante na organização da prática clínica, na padronização diagnóstica e na comunicação científica internacional (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2022; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2019). Entretanto, quando empregados de maneira rígida, descontextualizada ou excessivamente descritiva, esses sistemas podem favorecer processos de reificação diagnóstica, nos quais categorias clínicas passam a substituir a compreensão singular da história do sujeito, de suas contingências ambientais e de seus processos adaptativos (FRANCES, 2013).

A crítica aqui desenvolvida não se dirige à existência dos sistemas diagnósticos em si, mas à tendência de transformar classificações operacionais em explicações ontológicas totalizantes do sofrimento humano. O problema epistemológico emerge quando o diagnóstico deixa de funcionar como ferramenta clínica auxiliar e passa a constituir uma identidade psicológica fixa, reduzindo a complexidade da experiência subjetiva a categorias descontextualizadas (HORWITZ; WAKEFIELD, 2007).

A potência da psicoterapia baseada em evidências não reside na multiplicação de escolas, modelos e terminologias, mas na capacidade de aprofundar criticamente fundamentos consolidados empiricamente. A identificação de crenças disfuncionais em Beck, o questionamento filosófico das crenças irracionais em Ellis, a noção de agência e autoeficácia em Bandura e a integração multimodal proposta por Lazarus oferecem instrumentos conceituais abrangentes para acolher o sofrimento, a adaptação, a autorregulação e a mudança psicológica sem reduzir o sujeito ao diagnóstico (BECK, 1963; BANDURA, 1997; ELLIS, 1961; LAZARUS, 1993).

A partir dessa perspectiva, o presente ensaio busca discutir criticamente a despatologização do sofrimento sem incorrer na negação da psicopatologia. Pretende-se examinar em que medida a tradição cognitivo-comportamental clássica e a abordagem multimodal ainda oferecem bases epistemologicamente consistentes para enfrentar desafios clínicos contemporâneos, preservando o rigor científico, a complexidade psicológica e o reconhecimento da singularidade humana.

2. Fundamentos clínicos clássicos

Aaron Beck: cognição, esquemas e empirismo colaborativo

A formulação cognitiva desenvolvida por Aaron Beck parte do pressuposto de que o sofrimento psicológico está relacionado à ativação de esquemas cognitivos disfuncionais que organizam, de maneira tendenciosa, a interpretação da realidade. Esses esquemas influenciam a percepção de si, do mundo e do futuro, favorecendo distorções cognitivas como catastrofização, inferência arbitrária, abstração seletiva e supergeneralização (BECK, 1963).

Por essa ótica, os transtornos emocionais não decorrem de eventos externos considerados isoladamente, mas da mediação interpretativa realizada pelo sujeito. A relevância epistemológica dessa formulação reside no deslocamento da causalidade linear entre evento e emoção para uma compreensão mediacional do sofrimento psicológico, na qual cognição, emoção e comportamento estabelecem relações dinâmicas e mutuamente influentes (BECK et al., 1979).

Um dos elementos centrais da contribuição de Beck consiste no empirismo colaborativo, entendido como método clínico baseado na investigação conjunta entre terapeuta e paciente acerca da validade funcional dos pensamentos automáticos e crenças nucleares. O paciente deixa de ocupar uma posição passiva diante do tratamento e passa a atuar como participante ativo no exame crítico de suas interpretações e hipóteses cognitivas (BECK et al., 1979).

Essa diretriz favorece não apenas a redução sintomática, mas a ampliação da consciência crítica, a flexibilização cognitiva e o fortalecimento da autonomia psicológica. Em contextos contemporâneos marcados por autodepreciação, insegurança e sentimentos recorrentes de fracasso, o modelo beckiano mantém vigência clínica precisamente por oferecer instrumentos operacionalizáveis para desatar nós disfuncionais sem reduzir o indivíduo a categorias identitárias fixas.

Albert Ellis: crenças irracionais e flexibilidade filosófica

A Terapia Racional-Emotiva Comportamental proposta por Albert Ellis aprofunda a compreensão da relação entre interpretação cognitiva e sofrimento emocional ao enfatizar o papel das crenças irracionais na manutenção de perturbações psicológicas (ELLIS, 1962).

O modelo ABC formulado por Ellis propõe que eventos ativadores não produzem diretamente consequências emocionais, mas são mediados pelas crenças construídas pelo indivíduo acerca da situação. Nesse contexto, demandas absolutistas, avaliações globalizantes e exigências inflexíveis constituem importantes fontes de sofrimento psíquico (ELLIS, 1961).

A relevância clínica reside no debate lógico, empírico e pragmático das crenças irracionais, visando substituí-las por interpretações mais flexíveis, realistas e tolerantes à frustração. Diferentemente de abordagens centradas exclusivamente no alívio sintomático, Ellis introduz uma dimensão filosófica à psicoterapia ao discutir valores, exigências morais rígidas e dependência excessiva de aprovação externa (ELLIS, 1962).

Do ponto de vista epistemológico, a contribuição de Ellis é particularmente relevante porque articula responsabilidade pessoal e aceitação incondicional sem recorrer à culpabilização do sujeito. A aceitação de si não é concebida como resignação passiva, mas como redução da autodepreciação e ampliação da flexibilidade psicológica diante das adversidades.

Albert Bandura: autoeficácia e agência humana

A teoria social cognitiva desenvolvida por Albert Bandura amplia a compreensão do funcionamento psicológico ao conceber o indivíduo como agente ativo em interação contínua com o ambiente. Sua formulação do determinismo recíproco triádico estabelece que comportamento, fatores pessoais e contexto ambiental influenciam-se mutuamente em relações dinâmicas (BANDURA, 1986).

Nesse modelo, o conceito de autoeficácia assume posição central, referindo-se à crença do indivíduo em sua capacidade de organizar e executar ações necessárias para alcançar determinados objetivos. Evidências acumuladas na literatura psicológica demonstram que baixos níveis de autoeficácia associam-se frequentemente à evitação comportamental, ao desânimo, à redução da persistência e à manutenção de repertórios restritos de enfrentamento (BANDURA, 1997).

Em contrapartida, percepções fortalecidas de eficácia pessoal tendem a ampliar a tolerância à frustração, a persistência diante de obstáculos e a capacidade adaptativa. Clinicamente, isso implica que as intervenções psicoterapêuticas podem favorecer mudanças significativas ao promover experiências graduais de domínio, modelagem comportamental, encorajamento e reorganização de expectativas cognitivas (BANDURA, 1977).

Bandura também oferece uma contribuição relevante ao demonstrar que subjetividade e comportamento não podem ser compreendidos isoladamente de contextos sociais e processos observacionais de aprendizagem. A autorregulação, a aprendizagem vicária e a autorreflexão tornam-se, assim, elementos centrais para compreender a reconstrução do self enquanto processo dinâmico de ampliação da agência psicológica (BANDURA, 1986).

Arnold Lazarus: multimodalidade e complexidade clínica

A abordagem multimodal proposta por Arnold Lazarus representa uma tentativa substancial de superar reducionismos teóricos na prática clínica (LAZARUS, 1971). O modelo BASIC-ID propõe que a avaliação psicológica considere, de forma integrada, sete modalidades fundamentais da experiência humana: comportamento, afeto, sensações, imagens mentais, cognição, relações interpessoais e processos biológicos (LAZARUS, 1976).

A importância epistemológica dessa proposta reside no reconhecimento de que o sofrimento psicológico raramente se organiza em uma dimensão única. Problemas emocionais complexos tendem a envolver interações simultâneas entre fatores cognitivos, fisiológicos, relacionais e comportamentais, exigindo uma avaliação clínica suficientemente ampla para captar essa multideterminação (LAZARUS, 1981).

A perspectiva multimodal favorece intervenções individualizadas e reduz o risco de tratamentos excessivamente padronizados. Nesse sentido, a metáfora do terapeuta como “camaleão”, proposta por Lazarus, não representa ausência de rigor teórico, mas uma flexibilidade técnica fundamentada em uma avaliação sistemática das necessidades específicas do paciente (LAZARUS, 1993).

Tal formulação permanece valiosa em contextos clínicos marcados por alta heterogeneidade sintomática, comorbidades e sofrimento multifatorial. A multimodalidade oferece uma estrutura integrativa capaz de preservar a consistência técnica sem recorrer à fragmentação excessiva de modelos terapêuticos.

3. Despatologização e classificação diagnóstica

A discussão acerca da despatologização do sofrimento exige precisão conceitual, pois não implica a negação da psicopatologia nem a rejeição dos sistemas classificatórios contemporâneos. O ponto central consiste em reconhecer os limites epistemológicos e clínicos da expansão diagnóstica quando experiências humanas compatíveis com a variabilidade existencial passam a ser interpretadas predominantemente em termos patológicos (FRANCES, 2013).

Em sociedades marcadas por elevada competitividade, precarização subjetiva e intensificação das exigências de desempenho, manifestações como tristeza, insegurança, luto, frustração e sofrimento adaptativo podem ser rapidamente absorvidas por categorias diagnósticas formais. Esse processo favorece leituras medicalizantes da experiência humana, especialmente quando o diagnóstico deixa de funcionar como instrumento descritivo auxiliar e passa a operar como definição identitária do sujeito (HAN, 2017; HORWITZ; WAKEFIELD, 2007).

Os sistemas classificatórios contemporâneos exercem função científica relevante na pesquisa, na padronização clínica e na comunicação interdisciplinar. Contudo, sua operacionalidade não elimina o risco de reificação diagnóstica. Quando categorias clínicas são utilizadas de forma descontextualizada, perde-se a compreensão dos determinantes biográficos, relacionais, históricos e socioculturais envolvidos na constituição do sofrimento (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2022; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2019).

A crítica aqui desenvolvida não propõe o abandono da nomenclatura diagnóstica, mas a defesa de uma postura clínica epistemologicamente cautelosa, capaz de diferenciar sofrimento humano, crise adaptativa e transtorno mental propriamente dito. Tal distinção torna-se essencial tanto para evitar a banalização da psicopatologia quanto para impedir a patologização excessiva da vida cotidiana.

Nesse panorama, os referenciais de Beck, Ellis, Bandura e Lazarus oferecem uma alternativa clínica consistente ao deslocarem o foco de identidades diagnósticas fixas para processos psicológicos modificáveis. Crenças disfuncionais, repertórios de enfrentamento, autoeficácia, padrões relacionais e modalidades de funcionamento tornam-se alvos clínicos mais operacionais e menos estigmatizantes do que categorias ontologizadas de sofrimento (BECK et al., 1979; BANDURA, 1997; LAZARUS, 1981).

Despatologizar, portanto, não significa negar a existência de transtornos mentais, mas reconhecer que o sofrimento psíquico não pode ser reduzido exclusivamente à lógica classificatória. Trata-se de preservar uma compreensão clínica mais contextualizada, dinâmica e eticamente comprometida com a singularidade do sujeito.

4. Considerações finais

A análise desenvolvida neste ensaio sustenta que os fundamentos clássicos da Terapia Cognitivo-Comportamental e da abordagem multimodal permanecem epistemologicamente consistentes e clinicamente relevantes para responder a grande parte das demandas contemporâneas em saúde mental. Os modelos formulados por Beck, Ellis, Bandura e Lazarus oferecem instrumentos teoricamente robustos e empiricamente sustentados para compreender o sofrimento psicológico, a autorregulação, a adaptação e a mudança comportamental sem a necessidade de recorrer, de maneira automática, à proliferação contínua de novos enquadramentos conceituais.

A força desses referenciais reside precisamente em sua capacidade de articular rigor metodológico, flexibilidade clínica e uma compreensão multidimensional do funcionamento humano. Em vez de reduzir o sujeito ao diagnóstico, tais modelos favorecem a análise de processos cognitivos, emocionais, relacionais e contextuais envolvidos na gênese e na manutenção do sofrimento.

Defende-se uma prática clínica que preserve o compromisso com as evidências científicas sem converter a classificação diagnóstica em explicação psicológica totalizante. A reconstrução do self ocorre quando o sujeito é reconhecido novamente como agente ativo de transformação, capaz de revisar crenças, ampliar repertórios comportamentais, fortalecer a autoeficácia e reorganizar sua relação consigo, com os outros e com o ambiente.

Conclui-se que a psicoterapia baseada em evidências mantém sua relevância não pela substituição permanente de seus pilares fundacionais, mas pela capacidade de atualizar criticamente princípios já consolidados, integrando com maestria o rigor científico, a escuta qualificada e a intervenção eticamente orientada.

Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Washington, DC: American Psychiatric Association Publishing, 2022.

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HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.

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WORLD HEALTH ORGANIZATION. International classification of diseases 11th revision (ICD-11). Geneva: WHO, 2019. Disponível em: https://icd.who.int/. Acesso em: 24 maio 2026.

Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br

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