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Você não precisa encontrar um propósito para ser feliz

Por Illyana Magalhães

Em pleno século XXI, há quem pense que trabalho e felicidade não podem andar em conjunto. Há os que pensem que a responsabilidade inerente a alguns seres humanos afasta toda e qualquer possibilidade de extrair alegria do ambiente de trabalho. Não os culpo, pois no século passado precisaríamos escolher entre trabalhar ou ser feliz, e ser responsável não significa ser infeliz.

Não descarto a linha da filosofia moderna que apregoa ser a felicidade um conceito utópico, surreal e até mesmo inatingível. De Schopenhauer a Pondé, ambos estão corretos. Não discordo e até explano como um sucedâneo àqueles que não procuram sentido ou felicidade em suas vidas.

O fato é que muitos se contentam com o atual emprego na vil crença de que algum deles irá preencher o seu sentido, sem ao menos saber o que é sentido de vida. Sem ao menos saber o que a faz feliz.

A máxima de que a ignorância é uma benção é descartada de plano quando os conflitos internos são exteriorizados através de doenças emocionais ou constantes reclamações, demonstrando completa insatisfação. Mas, como alçar a satisfação quando nem eu sei o que me satisfaz?

A vida é um constante questionar-se e a filosofia abre portas nesse sentido.

Não nos esforçamos para ir além. Há os que abandonam o funcionalismo público após anos de labor e migram para o setor privado em busca de felicidade. Mas, antes de se contentar e migrar é necessário refletir e aí entra a responsabilidade da vida adulta.

Saltitar de emprego em emprego na ânsia de descobrir qual é o seu propósito de vida não é a atitude mais sensata, embora muitos o façam.

É imperioso questionar o que seria felicidade para o interlocutor. De que me adianta, afinal, argumentar sobre saúde emocional, felicidade e propósito de vida se o leitor sequer se questionou o que o faz feliz e qual seria o seu propósito. A linha socrática do “conhecer a si mesmo” é mergulhar no oceano mais profundo daquilo que chamamos de “eu”.

Terceirizar a busca pelo seu propósito e o que o faz feliz através de psicólogo, terapeuta, coach quântico, mentor e/ou psiquiatra não é a melhor escolha. É uma escolha sua e ninguém pode conceder uma receita mágica para isso. Óbvio que os caminhos podem ser auxiliados por esses profissionais, mas nunca dados.

Um dos conceitos de felicidade é buscado na Grécia antiga, quando Aristóteles articula um significado sobre o que é felicidade intitulado “eudaimonia”. Eudaimonia significa a felicidade vivida a partir da manifestação das virtudes do ser humano. Quando as minhas virtudes impactam a minha vida e o meu meio, eu vivo a eudaimonia. Aristóteles afirmava, inclusive, que o principal objetivo da vida humana é a busca pela eudaimonia.

Portanto, além de refletir sobre o que é felicidade e qual o seu propósito de vida, é necessário descobrir quais são as suas virtudes. Como vou potencializá-las se eu as desconheço?

Gesticular sobre alegria e sentido demanda perpassar pelo espinhoso campo dos propósitos de vida. Uma coisa está atrelada a outra. Espinhoso, pois, descobrir o seu propósito requer um árduo processo de autoconhecimento, sabedoria e maturidade. Muito mais importante do que a própria resposta é a pergunta: “qual é o meu propósito? ”. Embora concorde com os filósofos mencionados no início do texto, não descarto a possibilidade da felicidade plena quando da exteriorização de nossas virtudes.

O escritor Yuval Noah Harari em seu livro “21 lições para o século XXI” exemplifica bem o contexto quando afirma:

Quando buscamos o sentido da vida, queremos uma narrativa que explique qual meu papel particular no drama cósmico. Esse papel faz com que eu me torne parte de algo maior e dá significado às minhas experiências e escolhas”.

Esse papel de “buscar sentido na vida” preenche a lacuna na qual tanto ansiamos, qual seja: a necessidade humana de pertencer a alguma coisa. Um dos maiores motivos que desencadeia a depressão e inúmeros outros problemas emocionais é não encontrar o seu papel, o seu significado de vida.

Penso que a existência vai muito além de elaborar relatórios, audiências, preencher fichas ou exercer o policiamento ostensivo. Mas, responsáveis que somos, precisamos pensar que a fase atual vai cessar caso não sejamos imediatistas. São fases que colaboram para o encontro de nosso sentido, se é que o buscamos. Muito além de sermos felizes no trabalho, precisamos ser sensatos. Colaborarmos para a felicidade no campo laboral.

Penso que visualizar o trabalho atual como um norte para seu propósito futuro possa ajudar bastante. Não há local onde não possamos aprender, amadurecer, conhecer e refletir. Encontrar felicidade no emprego atual também é um auxílio, quando pensamos que se trata apenas de uma fase. Afinal, o imediatismo é nosso maior inimigo.

Antes de questionarmos é importante procurarmos um “porque” da nossa existência. Afinal, como diria Nietzsche, quem tem um porque enfrenta qualquer como.

Illyana Magalhães, advogada escritora que vive pelo mundo em busca de conhecimento e fonte de viver. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

3 comentários em “Você não precisa encontrar um propósito para ser feliz Deixe um comentário

  1. Ótima reflexão! Como psicólogo preciso dizer que essa compreensão e diferenciação entre propósito e felicidade é necessária e a autora soube expressar bem sobre esses elementos.

    Há de se dizer, ou melhor, penso que seguir um propósito não é garantia de felicidade, menos ainda de momentos alegres, tem a ver com sentir-se pleno, satisfazer as necessidades reais do ser, enquanto a felicidade tem a ver com a capacidade e possibilidade de desfrutar dessa plenitude e satisfação, isto é, é preciso ser capaz, mas o ambiente externo, as relações etc também precisa possibilitar esse desfrute.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Também me interesso sobre o assunto. Encontrei a resposta definitiva sobre o Sentido da Vida com base na Teoria do Infinito Bilateral. O artigo se encontra publicado em minha página na internet. https://davipinheiro.com/qual-o-sentido-da-vida/ Atualmente estou escrevendo sobre o que é a felicidade e descobri que existem pelo menos dois tipos e que a felicidade é um prêmio do processo evolutivo e esta intimamente ligado ao sentido da vida que é evoluir.

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