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A busca por um status pode estar criando uma geração de frustrados

Por Illyana Magalhães

Ultimamente tenho notado como as pessoas se escondem atrás de seus títulos. Entre um café e outro, observo a rede social de inúmeras pessoas que, a meu nobre ver, não passam de seres que são titulações ao invés de seres humanos. E não falo isso porque sou uma desqualificada profissionalmente e intelectualmente, tenho lá minhas nobres qualificações. Falo isso, pois, há quem se esqueça da real finalidade de sua colocação no cenário mundial.

Vamos citar como exemplo “x” que agora é oficial de justiça, leia-se oficial de justiça FEDERAL. Sim, em alto e bom som, pois não basta ser oficial de justiça estadual, o “cool”é ser da esfera federal. Agora vamos continuar com o dito cujo que, além de ser do “mais alto nível da sociedade efetiva”, é Doutor em uma dita área específica. Não há quem diga que esse ser se dedicou além do limite para ostentar tal posição, como também não há quem diga que além de suas titulações não existe ninguém.

Eu mesma já tive a oportunidade de ingressar em um doutorado que, diga-se de passagem, não exigiu nada além de uma documentação mediana. Até isso, pensava ser sobre-humano ostentar tal título sem minimamente passar por uma série de provas, restrições e uma extensa lista bibliográfica.

Uma vasta bibliografia e um conhecimento dito mediano não se sobrepõe àquele que, ao acordar de madrugada, sustenta uma família com seis filhos trabalhando no campo, por exemplo. Há mais sabedoria na senhora analfabeta (e falo isso com todo o respeito, entendam) que cuidou dos filhos sozinha quando ficou viúva aos vinte e três anos. Há uma subjetividade que permeia sobremaneira a palavra sabedoria.

Uma de minhas frases favoritas advém de Fernando Pessoa e afirma o seguinte: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Por anos utilizei essa frase à fio, carregando-a como se a autoria fosse minha. Pensava, na humildade e na simplicidade daquele que redigiu tamanho aprendizado. E não alço Fernando Pessoa ao cume da sabedoria humana. Pelo contrário. Apenas utilizo a máxima para reforçar a nossa completa insignificância frente ao universo, o que pode ser minimizada, creio, pelos sonhos que trouxermos na bagagem.

Não há situação mais chata do que sentar com alguém que carrega consigo seu lattes ao invés de sua alma. Não há situação mais deselegante do que dividir uma refeição com alguém que não possui outra coisa para falar que não sobre suas competências acadêmicas. Falo isso por experiência própria, pois já fui arrogante a ponto de me alçar a um patamar que jamais alcancei.

Com o tempo aprendemos (e há quem passe uma vida inteira sem aprender) que a vida vai além do dinheiro que temos, do diploma que possuímos. Vai além do nosso currículo e do(s) carro(s) que ostentamos na garagem. A vida também abrange o sorriso que entregamos, a mão que estendemos, o abraço que damos e o amor que espalhamos.

É óbvio que o que sou decorre de meus estudos, dedicação e empenho. Mas vou além e digo que devo meu conhecimento muito mais a minha história de vida do que a qualquer livro que outrora pudesse ter tido o prazer de ter lido. No espaço de 150 caracteres de um tweet e/ou descrição do perfil no Instagram, não há espaço para incluir tamanha sabedoria que a própria vida me concedeu.

Illyana Magalhães, advogada escritora que vive pelo mundo em busca de conhecimento e fonte de viver. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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