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Pobreza, violência, perrengues: minha viagem pelo lado B do turismo nos EUA

Sem teto dorme na Calçada da Fama, um dos principais pontos turísticos de Los Angeles - AlizadaStudios/iStock

A imagem que os Estados Unidos têm perante grande parte do planeta é a de uma nação rica, desenvolvida e glamourosa.

E, de fato, não faltam à terra do Tio Sam qualidades típicas do primeiro mundo.

O país de Donald Trump, entretanto, guarda, em suas entranhas, uma realidade paralela que pode chocar muitos turistas. Descobri isso durante uma viagem de um mês que realizei por lá.

Dei uma volta completa no território norte-americano, saindo de Nova York, descendo a costa leste até a Flórida, cruzando o sul rumo à Califórnia e, depois, subindo a costa oeste até Seattle. Da cidade do grunge, tomei o rumo para voltar a Nova York, passando por toda a extensão norte dos Estados Unidos.

Com pouca grana no bolso e só uma mochila nas costas, viajei apenas de trem e ônibus e, na hora de dormir, me hospedei em hostels. Caminhei muito por todas as cidades que visitei, pois não queria gastar com táxi ou transporte público.

A jornada foi incrível, mas, também, me colocou cara a cara com um lado sombrio e assustador da América.

Pessoas sem teto no metrô de Nova York - Eric Kitayama/iStock
Pessoas sem teto no metrô de Nova York Imagem: Eric Kitayama/iStock

Na companhia de loucos e sem-teto

Comecei minha viagem de 30 dias pelos EUA indo à estação ferroviária nova-iorquina Penn Station às duas da manhã, pois meu trem para a primeira parada da jornada (a cidade de Washington DC) partiria apenas no meio da madrugada.

O saguão da Penn Station onde me instalei para aguardar o trem poderia muito bem ser parte da Gotham City retratada no filme “Coringa”.

Uma legião de pessoas sem-teto ocupava o espaço, dormindo tortas sobre os assentos e deitadas em cantos imundos do saguão.

Com visíveis distúrbios mentais, algumas delas andavam para lá e para cá gritando palavras incompreensíveis e, às vezes, discutindo agressivamente umas com as outras. Achei que uma briga era iminente.

Para completar, música clássica era emanada por alguma caixa de som dentro da estação, o que fez com que eu me sentisse dentro de um hospício.

As lojas estavam fechadas, não havia seguranças ou outros viajantes à vista e eu, um tanto assustado e agarrado à minha mochila, fui abordado algumas vezes por eles, que queriam saber se eu tinha dinheiro ou cigarro para lhes dar.

Junto com as lindas paisagens norte-americanas que conheci, marcou-me, nesta jornada, a quantidade de moradores de rua com que me deparei em cidades como Los Angeles, São Francisco, Nova York e Chicago.

Muitos deles completamente perturbados, conversando sozinhos na rua, vociferando palavras ao vento e pedindo dinheiro para os transeuntes. “Do you have any spare change?” (“Você tem um trocado?”) foi uma das perguntas que mais ouvi nas minhas andanças.

Barracas de moradores de rua no centro de Los Angeles - Matt Gush/iStock
Barracas de moradores de rua no centro de Los Angeles Imagem: Matt Gush/iStock

Nos Estados Unidos, você pode passar de um bairro seguro para uma área sinistra em poucos passos (e sem perceber).

Em São Francisco, por exemplo, fiquei em um hostel na região central da cidade, em um quarteirão bonito e descoladinho.

De lá, entretanto, só precisei cruzar três ruas para cair, sem querer, em uma área chamada Tenderloin, um dos lugares mais deprimentes que vi nos Estados Unidos.

A paisagem mudou drasticamente: ao ingressar em Tenderloin, começaram a aparecer seringas no chão e pessoas de aspecto doentio entrando e saindo de prédios abandonados.

Uma delas, uma mulher em andrajos e olhos vidrados, me abordou perguntando se eu tinha heroína para vender. Pouco mais à frente, sentado na calçada, um jovem segurando uma placa de papelão: “me ajudem, tenho HIV”.

O cheiro deste submundo de São Francisco era um misto de urina e lixo em decomposição – e eu achei que iria ser assaltado a qualquer momento.

Moradores de rua da região barra pesada conhecida como Skid Row, em Los Angeles - iStock
Moradores de rua da região barra pesada conhecida como Skid Row, em Los Angeles Imagem: iStock

E este mesmo choque de realidade aconteceu em Los Angeles, quando, ao caminhar pelo centro da cidade, entrei (também involuntariamente) na região conhecida como Skid Row, que abriga uma enorme população de desabrigados. São legiões de pessoas morando sob tendas e no meio de entulho, em uma paisagem que lembra um filme pós-apocalipse (só que tudo demasiadamente real).

Logicamente, com minha cara de turista, virei uma espécie de alvo neste ambiente distópico e fui abordado por gente querendo saber se eu tinha dinheiro, cigarro, drogas ou qualquer outra coisa de valor para eles.

Casos de violência (incluindo assassinatos) não são raros em Skid Row. Por sorte, consegui sair inteiro desta área barra pesada.

Perrengues no ônibus

A “América profunda” também se revelou para mim durante meus traslados de ônibus pelos Estados Unidos.

Nestas jornadas estradeiras, usei os serviços da onipresente Greyhound, companhia rodoviária de péssima fama.

Lembro de fazer uma jornada noturna de cinco horas com a empresa para ir de Boston a Nova York e sofrer com um assento extremamente desconfortável.

Ônibus de Greyhound, empresa onipresente nas viagens interestaduais nos EUA - Andrei Stanescu/iStock
Ônibus de Greyhound, empresa onipresente nas viagens interestaduais nos EUA Imagem: Andrei Stanescu/iStock

Em outra ocasião, durante um deslocamento noturno de oito horas entre a cidade de Buffalo e Boston, viajou ao meu lado um senhor de barba e cabelos desgrenhados que, pelo seu odor, parecia não ter tomado banho desde a presidência de George Bush (o pai).

Ele me contou que estivera preso e, depois de livre, havia sido expulso de casa pela mulher. Viajava a Boston para encontrar trabalho.

O homem até que era legal, mas seu aroma e passado criminoso não me deixaram pregar o olho durante a jornada.

A Greyhound, aliás, já foi palco para episódios assustadores: em 2014, por exemplo, um passageiro aparentemente sob efeito de drogas invadiu o compartimento do motorista, pegou no volante e fez o ônibus sair do asfalto e bater ao lado da estrada, mandando mais de 20 pessoas para o hospital.

Parte do público que frequenta os ônibus da empresa é, realmente, bem estranho.

Na famosa Calçada da Fama, em Los Angeles, o lado menos glamouroso de Hollywood - Stelsone/iStock
Na famosa Calçada da Fama, em Los Angeles, o lado menos glamouroso de Hollywood Imagem: Stelsone/iStock

Atrações que não são tão legais assim

Há ainda as atrações turísticas dos Estados Unidos que, nos filmes e cartões-postais, parecem bem legais, mas que, na vida real, não são tudo isso.

A Calçada da Fama, em Los Angeles, é uma delas. Célebre por exibir estrelas que homenageiam nomes da cultura pop norte-americana, este via pedestre se encontra, frequentemente, apinhada de turistas, pessoas com arremedos de fantasias de super-heróis tentando ganhar uns trocados do público e, logicamente, gente sem-teto (em uma imagem que não tem nada a ver com o glamour de Hollywood).

Atores fantasiados lotam pontos turísticos em Hollywood para garantir alguns trocados - iStock
Atores fantasiados lotam pontos turísticos em Hollywood para garantir alguns trocados Imagem: iStock

Na lindíssima Nova Orleans, fica a rua Bourbon Street, com diversos bares localizados dentro de casarões históricos.

À primeira vista, é um lugar muito bonito e fotogênico, mas pode ser furada fazer um passeio em uma sexta à noite por lá, quando as calçadas ficam lotadas de gente bêbada (e chata) e onde muitos bares têm uma programação musical de baixa qualidade, que não faz jus à cultura do jazz em Nova Orleans.

E, em Nova York, a Times Square é um local que merece uma visita. Mas há que dizer: as multidões que se amontoam diariamente neste cartão-postal da Big Apple tiram um pouco o prazer de realizar uma caminhada por lá. Vá, faça uma foto e se mande para locais mais legais da cidade.

Por Marcel Vincenti. UOL. 71.2020.

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