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A arte que imita a insensatez da vida

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Dois filmes: O Coringa e Malévola; dois países: Brasil e Estados Unidos. Um paralelo entre a sétima arte e política para mostrar como a realidade pode ser muito mais cruel que a ficção, mesmo quando são bastante parecidas.

Um olhar atento sobre os filmes O Coringa e Malévola, grandes êxitos recentes do cinema, permite comparações entre a sétima arte e o caos social atual vivido por americanos e brasileiros em seus países. Isso porque os longas-metragens que encabeçaram as listas de bilheteria no Brasil e em outros países durante muitas semanas refletem, cada um a sua maneira, recortes de uma sociedade que reverencia o anti-herói, desvaloriza o ser humano e a natureza em geral.

Coincidência ou não, em contextos sociais onde líderes políticos são eleitos por suas campanhas cheias de ódio, como o que tem acontecido no Brasil e nos Estados Unidos, filmes protagonizados por vilões viram sucesso de bilheteria. Na tela do cinema e na vida real, se destaca a vitória da loucura, da falta de senso.

O Coringa, de Todd Phillips, um dos filmes mais elogiados de 2019, expõe a distorção mental e de valores que leva algumas pessoas a praticar atos violentos de revolta e insanidade.

A referência de espaço e tempo do premiado longa-metragem (Leão de Ouro no Festival de Cine de Veneza) é a de Gotham City do final dos anos 70, início dos 80. É quando a crise econômica, agravada pela greve dos catadores de lixo, aumenta as diferenças sociais, elevando o poder dos ricos que usurpam cada vez mais os direitos dos pobres. Cenário propício para a revolta ou qualquer busca de solução desesperada.

Na casa da loucura

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Foi em um ambiente também de desespero, na necessidade de uma mudança urgente, que foram eleitos os atuais presidentes do Brasil e dos Estados Unidos. No limite da desesperança, os cidadãos de ambas as nações parecem apelar à loucura que simpatiza com a violência como último subterfúgio de salvação.

Se no filme de Phillips é a população que enlouquece para se salvar, fazendo justiça com as próprias mãos, nos países aqui citados, seus governantes ganharam no voto o poder insano.

Parece que o presidente brasileiro Jair Bolsonaro e o americano Donald Trump foram eleitos pela massificação da insensatez, através de campanhas de governo apoiadas por notícias falsas e pela extrema direita.

Seus passados políticos também nunca foram de anjos. Temas como o incentivo a tortura, discriminação de raças e o uso de armas pela população fazem parte de suas trajetórias. O descaso com questões de preservação ambiental é outro defeito em comum que possuem os dois presidentes. Descrente de antigos governantes, que foram condenados por atos de corrupção, no desespero e falta de opção, o povo vota pelo vilão.

Com este panorama, muitos brasileiros e americanos, com alguma sã consciência, ainda não conseguem entender como seus países chegaram a tal ponto de autodestruição.

Luz sobre os caminhos da crueldade

Voltando ao cinema, em O Coringa o espectador também é levado a apoiar e se identificar com a loucura e violência. O roteiro do filme (Scott Silver e Todd Phillips) transita pelas razões que levaram Artur Fleck (Joaquin Phoenix) a se tornar um psicopata. Na abordagem sobre o passado e presente do personagem, vemos sua vida marcada pela presença de pessoas de dignidade duvidosa que, de alguma forma, corromperam um louco ingênuo.

O protagonista simboliza a parte mais menosprezada da sociedade, onde o desemprego e a falta de assistência social são problemas cotidianos comuns. Desamparado, ele se entrega à própria loucura para poder existir.

É quando então, depois de anos encerrado no anonimato (o objetivo condutor da narração é a busca do personagem por ser um comediante reconhecido), solidão e humilhação, os holofotes da fama brilham para ele. Artur tem que descer ao Inferno, para reconhecer-se a si mesmo e assim ser aplaudido.

A culpa é de quem?

Por suas inúmeras cenas sangrentas, O Coringa foi alvo de polêmicas, acusado de glorificar a violência. Assim como Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, associou os jogos de vídeo game a massacres realizados por adolescentes psicopatas naquele país.

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Entretanto, mais polêmica causaram diferentes decisões de Trump ao longo de seu mandato, onde se vê claramente ódio e falta de humanismo, como quando quis separar pais e filhos imigrantes. Também não causou muita graça sua vontade de criar um muro entre EUA e México, como mais uma forma de exclusão imigratória, outro de seus desejos cruéis, que por sorte não se concretizou.

Assim que cabe perguntar ¨O que estimula mais ações de violência e revolta: a ficção ou atitudes de repressão descabidas como a do chefe de estado dos EUA?¨.

Talvez, em casos aleatórios, como de pessoas com distúrbios mentais inclinadas a ser psicopatas, apenas uma cena, ou uma frase mal colocada sirvam de mola propulsora para realizar um atentado. Massacres promovidos por pessoas sozinhas, com características de insanidade mental são comuns nos Estados Unidos.

Entretanto, em condições psicológicas consideradas normais, o ser humano geralmente é levado a atitudes violentas quando movido pela revolta, gerada por um sentimento de exclusão social, por exemplo.

Violência permitida

No Brasil, é o próprio governo que incentiva a violência. Mas neste caso, ela é usada com a desculpa de impedir o crime, ironicamente. Ainda que dados oficiais revelem uma queda no número de homicídios em 2019, aumentou-se, quase na mesma proporção, o índice de mortes causadas por policiais neste ano.

No país, que possui uma das polícias mais abusivas do mundo, a quantidade de mortos durante ações policiais atingiu recordes históricos neste ano, num aumento de mais de 20%. E os casos que mostram abuso de poder policial no país não param de crescer.

Uma recente ação da polícia resultou no encurralamento de pessoas inocentes, que foram pisoteadas e assassinadas em uma favela do país (Paraisópolis), deixando nove jovens mortos. Um legítimo massacre. E os culpados, possivelmente, terão a proteção do governo, se as palavras de Bolsonaro sobre segurança pública servirem de exemplo.

Isso porque a ¨política anticrime¨ do presidente incentiva o policial a resolver seu trabalho a tiros. Entre suas ações neste sentido, ele decidiu estender de 20 a 50 o número de autos de resistência permitidos (direito dado ao policial a matar em legítima defesa). Segundo o presidente, se um agente atira e mata ¨está mostrando serviço¨. Com essa mentalidade no comando do país, pode-se esperar mais injustiça e mortes de inocentes.

E não são só policiais que se veem incentivados a matar ultimamente no país. Neste ano, também foram noticiados os aumentos da violência sexual e racial no Brasil. Durante toda sua carreira política, Bolsonaro foi flagrado e criticado várias vezes por seus comentários machistas, racistas e homofóbicos.

Já os dados positivos das pesquisas sobre a segurança pública no país estão relacionados a diversos fatores que em pouco ou nada tem a ver com ações do governo atual.

Um dos principais motivos apontados para esta diminuição no número de homicídios registrados é um possível caminho a normalização. Isso porque o ano de 2017 bateu recordes no número de assassinatos registrados na história do país. Ademais, politicas realizadas pelo antigo presidente, Michel Temer, estariam dando resultados.

Em tempos de escassez criativa

E se na política do Brasil e dos Estados Unidos há falta de opções por bons candidatos, parece que no cinema a escassez é de criatividade. O fato de O Coringa e Malévola obterem tanto êxito talvez tenha a ver também com a falta de concorrência.

Nem um nem outro deveriam ser considerados brilhantes, se o tema é originalidade. Ainda que, se for para optar, sem sombra de dúvidas, assista ao filme interpretado por Joaquin Phoenix. Entretanto, o sucesso estrondoso de O Coringa parece exagerado. É certo que a última obra de Tood Phillips é um bom filme, no que se refere à ideia de traçar um perfil psicológico de um vilão que é também um ícone do famoso Batman.

Construir um anti-herói que conquista como protagonista, do inicio ao fim do filme não é tarefa fácil, há que se reconhecer. Além disso, o ator interpreta o papel de maneira brilhante e a fotografia e seus diversos elementos analógicos têm muito mérito.

Mas o filme está longe de ser um emocionante thriller psicológico, conta com poucas surpresas e lhe sobram referências.

De estética e fotografia inspiradas em filmes de Martin Scorsese, como Táxi Drive e O Rei da Comédia, também é possível ver nesta nova versão do arqui-inimigo de Batman um quê de Quentin Tarantino e Stanley Kubrick, em relação às cenas de violência. Enfim, uma colcha de retalhos feita de outros filmes.

Tudo bem que todo diretor carrega muitas referências em suas obras, o que só é possível porque seus inspiradores foram originais. Assim sendo, dá para pensar que o cinema de hoje anda bem preguiçoso.

Ordens de guerra à floresta

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No também carente de originalidade Malévola, dirigido por Joachim Rønning, não houve sequer o trabalho de construir um protagonista vilão com qualidades de herói. Angelina Jolie protagoniza e sustenta uma refilmagem de poucos atrativos, onde, apesar do nome de seu personagem, ela é pura bondade.

Nada de novo em um clássico da Disney sem maiores pretensões: a guerra entre dois reinos, com todos seus personagens-chave: rei, rainha e príncipe, que se apaixona pela princesa, e a trama caminha rumo ao final feliz. Em relação ao seu mérito de público, se comenta o milionário trabalho de efeitos visuais, que gerou seres encantados e mundos imaginários realmente fascinantes aos olhos.

Entretanto, ainda que não leve o público a grandes reflexões enquanto a violência contra pessoas, o filme americano mostra cenas de crueldade com a natureza. Nelas, é possível ver uma metáfora do descaso ao meio ambiente que se assiste atualmente no Brasil e nos Estados Unidos.

Neste longa-metragem, a rainha Ingrith (Interpretada por Michelle Pfeiffer) é a vilã e seu desejo principal é matar toda a floresta.

Mais uma vez aqui se encontra a triste semelhança entre cinema e realidade. Ao contrário do que ocorre no filme, que tem seus heróis para salvar o reino encantado da natureza, no Brasil a floresta está morrendo, mais rápido do que nunca, e aqueles que a defendem não possuem superpoderes para salvá-la.

Segundo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a taxa de desmatamento na Amazônia, em nove estados, cresceu 29,54% entre agosto de 2018 e julho de 2019 (sete meses do governo Bolsonaro), maior área desmatada desde 2008.

Segundo algumas instituições e organizações em defesa do meio ambiente, o atual presidente apresentou medidas que estimulam crimes ambientais e o desentendimento com povos indígenas. Ele sempre se mostrou a favor de uma maior exploração econômica da floresta, em detrimento de sua preservação. Enquanto isso, ONGs e antigos governos deixam bastante claro que desenvolvimento econômico e a preservação ambiental são totalmente compatíveis.

E este é só um dos exemplos de como a riqueza natural do Brasil está perdendo forças, colocando em risco a vida em todas as suas vertentes, especialmente a humana, graças à omissão de seus governantes.

A inércia que deixa o planeta morrer

Do outro lado do mundo, os Estados Unidos também optam pela omissão para deixar a terra desamparada. Entre muitos exemplos neste sentido, vale citar a decisão de Donald Trump de retirar o país do Acordo de Paris, que defende ações para frear o aquecimento global. Essa é uma de suas promessas de campanha que pessoas em sã consciência não gostariam de ver cumpridas.

Mas infelizmente deve ser concretizada no próximo ano, pois não se vivem tempos de sensatez. No entanto, é preciso manter a esperança de que um dia a loucura também se canse e volte a reinar algo de normalidade. E que seja possível lutar com armas positivas, sem violência, como as que a cultura pode proporcionar, ao conscientizar os indivíduos.

Parece que estamos um pouco longe de uma Tropicália ou Cinema Novo. Porém, sejamos confiantes e aplaudamos cenas positivas, com boa intenção, ainda que tenham pouco de talento. Em Malévola, por exemplo, se vê algo de um possível desejo de semear o bem, em sua alusão a um futuro sem guerras, durante cenas finais.

Tomara que tal detalhe de seu roteiro seja, ao menos, uma pequena semente no caminho de volta ao cinema com mensagens frutíferas para uma transformação social. E que esse retorno seja construído também pela criatividade e originalidade que marcaram outros tempos, quando da treva política, se fez luz cultural.

Por Bianca Alencar. Obvious.

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